Quando jovem, para ganhar força, Neto treinava arremessando abóboras (Foto: Divulgação/NBB)

Quando jovem, para ganhar força, Neto treinava arremessando abóboras (Foto: Divulgação/NBB)

Felipe Domingues
19/03/2016
08:35
Mogi das Cruzes (SP)

Magro, pequeno e franzino. Essas não são características típicas de um jogador de basquete, não é? Bom, o armador da Liga Sorocabana, Neto, também pensou assim e, por isso, fez questão de tentar de tudo para mudar esse cenário. Até mesmo arremessar abóboras. Eleito titular para o Jogo das Estrelas do NBB, que acontece neste sábado, às 18h, em Mogi das Cruzes (SP), ele sonha ainda mais alto: quer o título da Liga.

O time de Sorocaba (SP), atualmente, não estaria classificado aos playoffs. Na 11ª colocação, a equipe está a quatro vitórias do oitavo colocado, Franca (SP), exato número de partidas que restam para o término da primeira fase. Tarefa difícil? Sim, mas mais difícil ainda foi o início de Neto no esporte.

Apaixonado por basquete desde jovem, quando acompanhou as primeiras transmissões da NBA no Brasil, o atleta, hoje com 30 anos, precisou superar seu próprio biotipo para fazer sucesso na modalidade. Com dez anos, achava que não tinha força para arremessar a bola, mas resolveu o problema de uma forma, no mínimo, curiosa.

- Quando eu comecei, em Rondônia, eu era muito pequeno e franzino. Como eu não podia entrar em uma academia, minha mãe comprava toda a semana abóboras, e eu pedia para ela comprar uma para mim. O formato dela é parecido com uma bola e mais pesada, então ficava em casa fazendo um molde de arremesso - comentou o jogador, antes de completar:

- Eu ficava deitado na cama jogando a abóbora para cima. Já tomei com ela na cara várias vezes (risos). Mas valeu a pena.

'A gente treina para ganhar campeonatos e ser reconhecido. Representar a Seleção brasileira seria uma honra muito grande. Eu penso nisso, porque nunca é tarde' - Neto

De fato, valeu a pena. Hoje, Neto é o cestinha da temporada do NBB, com média de pouco mais de 19 pontos. Mas o começo de sua "carreira", na longínqua cidade de Vilhena, não foi complicado apenas por sua força, mas por um "simples" motivo: não havia onde jogar.

- Quando eu tinha 10 anos, não tínhamos bola, então fizemos uma vaquinha para comprar uma. Fomos à quadra do bairro, que chamava CSU (Centro Social Urbano) e só tinha a quadra e estrutura, não tinha tabela nem nada. O pai de um amigo era marceneiro e fez a tabela para nós, o outro conseguiu o aro, fizemos uma vaquinha e compramos tinta para pintar as linhas, e começamos a bater bola todo o dia - revela.

Se no conhecido conto de fadas da Cinderela, a carruagem se transformava em abóbora à meia noite, dessa vez, o caminho foi o contrário. Para Neto, a abóbora se transformou em uma bola de basquete. E mudou a sua vida.

*O repórter viaja a convite do NBB

'Quero sempre mais. Quando a gente entra em quadra, não mede nada. Não penso se dá ou não, se estou velho ou não. Quem sabe um dia eu não consiga ir para a NBA' - Neto

LANCE! - Como chegou à São Paulo?
Neto - Participei dos Jogos Escolares de Rondônia pela minha escola e fomos campeões. Então fui fazer um teste fora do estado, em Ribeirão Preto (SP). Fiz teste durante um mês e quinze dias e fiquei. Fui para lá com 14 anos, sozinho. Depois de um tempo o clube me arrumou um apartamento e toda a estrutura necessária, até porque eu era uma criança. Morávamos eu, o Rafael Hettsheimeir e um outro jogador que parou. Teve uma época, logo quando eu cheguei lá, para pegar ritmo eu jogava até com a categoria feminina.

L! - Ainda sonha com a Seleção?
N- Sem sombra de dúvidas. A gente treina para ganhar campeonatos e ser reconhecido. Representar a Seleção brasileira seria uma honra muito grande. Eu penso nisso, porque nunca é tarde.

L! - Quanto importante para você é o Jogo das Estrelas?
N -
É o reconhecimento de um trabalho. Temos a votação dos jornalistas, do público, dos técnicos, jogadores... É uma grande festa e eu não queria ficar fora dela. Conseguir fazer parte disso é uma honra muito grande para mim e para o meu time.

L! Você fez até campanha no Facebook para conseguir votos. Ajudou?
N -
Tenho que agradecer muito ao público, com certeza ajudou muito. Toda a campanha é válida, e ter atingido quase 10 mil votos foi bem expressivo. Eu não tenho parentes suficientes para isso (risos)

L! - Em seu primeiro All-Star Game na NBA, o ala pivô Chris Bosh fazia comerciais para pedir votos. Você faria também?
N -
Faria. A situação financeira não ajuda muito, mas faria (risos). Tudo para participar dessa festa.

L! - Qual o objetivo na sua carreira?
N -
Quero ter títulos nacionais jogando. Tive alguns, quando comecei em Ribeirão Preto, naquela equipe que tinha Nezinho, Alex Garcia, mas eu jogava muito pouco. Quero jogar, ser decisivo, ajudar o grupo.

L! - Sonha em ir para fora do país?
N -
Ainda penso em ir. Meu foco seria a Itália, até porque minha esposa tem passaporte italiano, então seria mais fácil. Conheço lá, passei minha lua de mel lá, visitei Roma, Verona e Florença.

L! - E NBA, ainda sonha com isso?
N -
Eu digo que nunca é tarde. Eu trabalho para justamente isso. Consegui ser cestinha, beleza, quero ser campeão, beleza. Quero sempre mais. Quando a gente entra em quadra, não mede nada. Não penso se dá ou não, se estou velho ou não. Quem sabe um dia eu não consiga.