Jonas Moura
24/05/2018
08:05
Rio de Janeiro (RJ)

A vela mundial está perto de presenciar um fato histórico. Campeões olímpicos na Rio-2016, na classe 49er, e da America's Cup em 2017, os neozelandeses Peter Burling e Blair Tuke são atrações da Volvo Ocean Race, que está na nona de onze etapas. Em equipes diferentes, os dois deixaram a amizade de lado em busca da inédita tríplice coroa, ou seja, a conquista das três competições mais prestigiadas da vela. Feito que Torben Grael esteve perto de conseguir.

Eleito o melhor velejador do mundo em 2017, Burling tem 27 anos e defende o holandês Team Brunel, atual terceiro colocado na classificação geral. Já Tuke, de 28, integra o espanhol MAPFRE, líder da competição, e é hoje o mais próximo da façanha.

"Eu e Blair velejamos juntos há mais de nove anos e somos muito amigos. É um pouco estranho competir contra ele, mas está sendo especial participar da corrida. Gosto das Olimpíadas e da America's Cup, mas a Volvo é um desafio único" - Peter Burling

Juntos, eles foram porta-bandeira da Nova Zelândia nos Jogos Rio-2016, sobraram na conquista do ouro olímpico, assegurado com duas regatas de antecedência na Baía de Guanabara, e repetiram a parceria campeã na America's Cup de 2017, com o Emirates Team New Zealand.

No ano passado, ambos aceitaram convite de tradicionais equipes da Volvo para percorrerem os mais de 83 mil km ao redor do planeta. Acostumados a encontrarem juntos as melhores decisões para vencer as regatas, tiveram de encarar, pela primeira vez, uma rivalidade estranha.

– Minhas inspirações são as pessoas que velejam em alto nível em meu país, como o Tuke. Elas me motivam a ser melhor e me fazem pensar no que eu preciso fazer para evoluir – afirmou Burling, ao LANCE!.

No período entre os Jogos de Londres e a Rio-2016, Burling e Tuke foram dominantes em sua classe. Não só venceram todas as 28 principais competições do calendário, como se tornaram os primeiros velejadores na história a conquistarem por quatro vezes seguidas o título mundial de 49er, em 2013, 2014, 2015 e 2016.

"Foram anos de trabalho muito, muito duro com o Peter. Nós conversamos bastante durante as etapas. É uma situação diferente, mas tentamos compartilhar as experiências. Só conversaremos sobre a campanha olímpica após a Volvo Ocean Race" - Blair Tuke

Os Jogos de Tóquio-2020 são um objetivo possível. Blair conta que a “separação” promovida pela Volvo não significa o fim desta parceria.

– Procuro não pensar na briga particular. Quero vencer o time dele. Temos projetos juntos para o futuro e este é apenas um que nos separou. Mas estamos aprendendo como velejadores – disse Tuke, que usa seus conhecimentos como eletricista a bordo no time espanhol:

– Ter estudado e aprendizado sobre eletricidade foi uma grande decisão, que realmente me ajudou a tornar-se um velejador melhor.

Apesar da desvantagem em relação ao amigo, Burling se motiva com a chance de conquistar algo que nenhum outro velejador já conseguiu. Torben chegou à final da America's, mas ficou com o vice em 2000 e não completou a tríplice.

– Seria incrível. Torben é um grande velejador, de uma família que é referência, tanto que sua filha (Martine) está entre as melhores do mundo. Mas ele não conseguiu ganhar a America's Cup – disse o neozelandês.

O campeão da etapa entre Newport e Cardiff deve ser definido na próxima terça-feira. A competição termina em julho.

Barcos passam até onde o Titanic afundou

A nona das onze etapas da Volvo Ocean Race reserva desafios similares aos que os barcos enfrentaram nos mares do Sul, no trajeto entre Auckland (NZE) e Itajaí (SC). Única brasileira na disputa, a campeã olímpica Martine Grael vive a expectativa de pódio em sua primeira participação na regata de Volta ao Mundo e lembra o que os tripulantes deverão enfrentar nos próximos dias.

– As temperaturas são baixas e vamos passar onde o Titanic afundou. Os ventos são fortes e há muitas ondas também – declarou Martine.

Seu time, o holandês AkzoNobel, é o quarto colocado na classificação geral e tenta superar o Team Brunel (3º). A antepenúltima etapa é muito valiosa, pois vale pontuação dobrada.

– Nós não temos nada a perder. Vamos tentar conquistar mais alguns pontos nesta perna de pontuação dupla. Aqui tem havido muitas manobras e pouco descanso, mas estamos próximos do nosso objetivo e seguimos na luta – afirmou a brasileira.

Após Cardiff, os barcos seguirão para Gotemburgo (SUE). A chegada da última etapa será em Haia (HOL).

Nona etapa segue indefinida

A nona etapa da Volvo Ocean Race, entre Newport (EUA) e Cardiff, no País de Gales, continua indefinida.

Team Brunel, AkzoNobel, Vestas 11th Hour Racing e Sun Hung Kai / Scallywag optaram por aproveitar ao máximo o vento de sudoeste. Já MAPFRE, Dongfeng e Turn the Tide on Plastic decidiram seguir para nordeste, numa rota direta rumo ao objetivo. Até ontem, a distância entre os pelotões era de 555 km. O Brunel liderava, com o AkzoNobel na cola.

– Acho que é a primeira vez que nesta prova vimos uma divisão tão grande – disse o skipper do MAPFRE, Xabi Fernández.

SOBERANIA NA VELA

Peter Burling
Campeão olímpico de 49er na Rio-2016 e da America's Cup em 2017, pelo Emirates Team New Zealand, o velejador tem ainda no currículo uma prata na mesma classe em Londres-2012 e 12 medalhas em Campeonatos Mundiais, sendo sete de ouro, três de prata e duas de bronze. Foi escolhido pela World Sailing, a federação internacional de vela, o atleta do ano duas ocasiões: em 2015, ao lado de Blair Tuke, e em 2017, sozinho.

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Blair Tuke
Parceiro de Burling nas duas conquistas olímpicas e na America's Cup de 2017, o neozelandês ainda soma nove medalhas em Mundiais, sendo seis de ouro e três de prata.

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Torben Grael
O brasileiro chegou muito perto de conseguir a tríplice coroa, mas, como bateu na trave na America's Cup de 2000, quando foi vice a bordo do italiano Luna Rossa, não completou o feito. Ele já havia faturado o ouro olímpico em Atlanta-1996 e ganhou de novo em Atenas-2004, na Star. Na Volvo, conquistou o título em 2008/2009, no comando da equipe sueca Ericsson 4.