Luis Fernando Coutinho
28/07/2016
17:16
Rio de Janeiro (RJ)

Em diversas modalidades esportivas, sejam olímpicas ou não, muitos atletas preferem gozar de privacidade na hora de seus treinos, buscando concentração e principalmente evitando possíveis "espiões" rivais rumo a uma competição. Mas a tradição não se confirma no boxe. Pelo contrário. Na cidade para a Olimpíada Rio-2016, seis delegações da nobre arte têm treinado sob o mesmo teto, no mesmo horário e até promovendo possíveis confrontos olímpicos como preparação. "Nada aqui é secreto".

Na academia Delfim, localizada na Tijuca e dona do único ringue olímpico do estado, seis seleções treinam juntas: Cuba, Venezuela, Azerbaijão, República Dominicana, Côlombia e Porto Rico. Aquecimento, movimentação e até sparring (simulação de luta) entre si. Literalmente sem esconder o jogo ou se preocupar em mostrá-lo aos possíveis adversários olímpicos. O Motivo? Fora a etapa de preparação técnica já concluída, todos os lutadores, independente de sua nacionalidade, vem da mesma escola de boxe: a cubana.

Boxe: José Aldo visita academia Delfim em dia de treino da seleção olímpica de Cuba
               Seis atletas, um ringue (Foto: Luis Fernando Coutinho)


Todas as delegações envolvidas nessa mistura têm treinadores cubanos. Todos se conhecem, são amigos. O principal responsável por unir o útil ao agradável é Isidoro Nicolas, ex-treinador da seleção olímpica de Cuba (de 1993 até as Olimpíadas de 1996, em Atlanta, Estados Unidos) e professor da academia Delfim há três anos.

- Com o trabalho na Delfim, pude trazer todos os cubanos para cá. É um prazer. Aqui encontro meus companheiros de Cuba que estão em outros países. Cada equipe que vem aqui tem um treinador cubano. Isso mostra que Cuba tem o melhor boxe do mundo. E todos treinam juntos, pois estão todos com a equipe completa. Sempre é um trabalho conjunto, não é secreto. Ninguém tem segredo para guardar, a escola é cubana em todos os lugares. Todos têm o mesmo estilo e o treino é diferente da competição - explicou o treinador, que atualmente tem como pupilos nomes do UFC como o campeão José Aldo, Léo Santos e Hacran Dias.

Boxe: José Aldo visita academia Delfim em dia de treino da seleção olímpica de Cuba
Isidoro Nicolas (de boné) posa com equipe cubana de boxe e campeão interino dos penas do UFC, José Aldo (Foto: Luis Fernando Coutinho)


Embora o discurso seja de que o treinamento tem sido algo leve, mais para manter os músculos em atividade antes da competição e dar continuidade ao sacrificante corte de peso, o que se viu foi, ao menos no sparring, foi um clima quente entre as nações. Alguns treinos chamavam a atenção dos curiosos pela ferocidade dedicada. Tensão? Nenhuma. Aplausos dos cubanos para o treino forte desempenhado pelos atletas. Teve Cuba x Azerbaijão, Colômbia x República Dominicana, Porto Rico x Venezuela... Mas nada a ser escondido. Técnico principal da seleção colombiana, o cubano Rafael Iznaga adota o mesmo tom de Isidoro.

- O Treinamento é em conjunto, a maioria se ajuda e o trabalho é livre. Não tem segredo algum. O que foi, já foi. O treinamento duro já foi. Nos ajudamos mesmo - comentou.

Na opinião do cubano Pedro Roque, treinador da seleção do Azerbaijão, a tradição de treinar com equipes de outros países é um trunfo da escola cubana para manter a competitividade em alta, abrindo mão de privacidade ou estratégias secretas.

- É uma iniciativa da escola cubana de boxe. Antes de diversos campeonatos, mundiais jogos olímpicos ou dos campeonatos continentais, existem bases de treinamento com vários países seguindo Cuba. A equipe cubana nunca temeu fazer treinamentos conjuntos com outras nações, coisa que acontece com alguns países europeus. Eles tem a mentalidade de que podem se prejudicar nas competições se enfrentarem outros atletas nos treinos. Escondem um pouco seus atletas e tem resultados ruins. O boxe cubano tem se beneficiado muito disso, pois sempre enfrentamos qualquer um e treinamos com qualquer um. O problema é manter o ritmo competitivo - detalhou.

Pedro Roque treino o Azerbaijão
    Cubano, Roque treino o Azerbaijão (FOTO: Luis Fernando Coutinho)


Roque ainda citou a facilidade para encontrar na internet material sobre boxeadores rivais como motivo para a escola cubana abrir mão da privacidade e apostar na busca pelo treino competitivo e de alto nível.

- Nada (é secreto), absolutamente nada. Há um erro grande. Existem países, dos mais fortes da Europa, que falam que não podem enfrentar nenhum cubano ou outro atleta que classificado, pois "vão copiar minhas técnicas". Isso não existe hoje em dia. Está tudo no YouTube. Todos, todos estão lá. De uma forma ou de outra. Não temos por que esconder os atletas - concluiu.

Além das seis seleções de boxe que já usam as instalações da Delfim, mais 11 equipes são esperadas na academia: Rússia, Irã, Geórgia, Kongo, Bangladesh, Paquistão, Egito, Lituânia, Ucrânia, Bielorússia e Bahrein. Dono da Delfim, Gabriel Ribeiro teve de ajustar os horários das aulas de boxe da academia para administrar a chegada das seleções.

- Os treinos começam às oito da manhã e vão até a noite. É impressionante, eles se entendem com essa situação dos treinos. O Isidoro cuidou de tudo, é um sonho ver a academia assim, cheia de seleções treinando. Isso me deixa feliz. E tem mais equipe para chegar. Vai ficar ainda mais bonito - declarou o proprietário da Delfim.

Gabriel Ribeiro é o dono da Delfim
            Gabriel acompanha treino (FOTO: Luis Fernando Coutinho)


Atualmente, a Seleção Brasileira de boxe treina na Base de Treinamento do Time Brasil, no CCFEx (Centro de Capacitação Física do Exército), onde também se preparam as seleções dos Estados Unidos e da Irlanda.