Tite e Dunga

Tite e Dunga

Carlos Guilherme Nosé
15/06/2016
18:07


Tenho a mania de comparar os assuntos do dia a dia com o mundo corporativo e suas demandas, requisitos, rótulos, etc... Mais uma vez, penso sobre o papel de um líder.

Dias atrás, passamos mais uma vergonha no esporte em que mais éramos admirados e, por conta dele, apelidados de “A pátria de chuteiras”. A derrota, até certo ponto inesperada, para o Peru e a consequente eliminação precoce da Copa America Centenário chamou-nos novamente a atenção para a situação calamitosa da seleção canarinho.

Aliás, o que mais se destacou dentro desse ensaio de drama real, digno de Mario Vargas Llosa? A apatia dos jogadores, a desorganização tática, a qualidade do adversário ou a incapacidade do Dunga na condução do time?

Na transmissão da partida, a câmera oficial insistentemente focava-se na expressão do técnico brasileiro, que boa parte do tempo ficou calado, sem orientar o time, sem inovar, sem arriscar e, principalmente, sem jogar junto com a equipe. Diferente até do comportamento enérgico e tempestuoso que nos acostumamos a ver.


Para jogar junto não necessariamente tem que estar dentro de campo, mas Dunga, ocupando o posto de líder como tal, tinha que estar presente de alma e coração. O jogador tem que sentir a presença do líder dentro de si. A pressão, a inspiração e a motivação para se chegar ao resultado têm que vir de dentro de cada um. Na ausência disso, resulta-se em um time apático, abalado com o resultado negativo e sem poder de reação.
O curioso é que, como jogador, Dunga não era assim. Limitado na parte técnica, não faltava a ele disciplina tática e perseverança. Em outrora com a camisa 8 amarelinha, o gaúcho usaria a mão que deu a vitória aos peruanos para socar o ar na comemoração de um pênalti convertido.

O que mudou, então? Pressão do cargo ou falta de competência para liderar uma nova geração de jogadores?

Peguem o exemplo do jogo do Corinthians x Coritiba, válido pela 6ª rodada do Brasileirão, realizado dias atrás. Jogando em Itaquera, o alvinegro saiu atrás no placar, resultado que se manteve até os derradeiros minutos. E que o Tite fez? Tirou um zagueiro para a entrada de um atacante, sacou um volante e colocou um meia avançado. Além disso, berrou na beira do gramado o tempo inteiro, gesticulou, orientou, sofreu, viveu intensamente aquele momento, até o time virar o jogo aos 49 minutos da etapa final.


Moral da história: Que tipo de líder você quer ser? Ou que tipo de líder você quer ter? Aquele que te mostra um novo caminho, que calcula o risco, toma a decisão e arrisca junto com o time? Ou aquele que não muda o status quo e vê a desgraça chegar aos poucos?
O líder tem que inspirar mudança, inovação e, principalmente, despertar em seus comandados o desejo de fazer melhor, de ser melhor a cada dia. Essa é uma busca incessante. Sem ela, em algum momento ficaremos para trás.

Nós, lideres, temos um papel fundamental em inspirar e trazer confiança ao nosso time. Confiança de que estamos vendo algo além, de saber que se algo der errado estaremos lá para ajudar, redirecionando o rumo da empresa e da sua carreira. Como diz o autor americano Donald McGannon: “Liderança é ação, não posição.”

Reforço aqui que foi-se o tempo em que o líder era visto como alguém “intocável ou inquestionável”. Eles são o pulso da organização. Uma empresa com bons líderes sente a vivacidade, a energia e a vibração fluindo a cada pequena conquista, a cada pequena mudança. Um grupo sem líder é um grupo fadado ao fracasso, que não vive, não pulsa e não se energiza.


O que você tem feito para ser um exemplo de liderança? Está arriscando, motivando e jogando junto com seu time? Pense e reflita sobre isso. Ao longo do campeonato, você pode se credenciar a levantar a taça, ou ser colocado para chorar no banco de reservas.

* Carlos Guilherme Nosé é CEO do Fesap Group, consultoria de executive search e de estratégia de capital humano. Representa as marcas Fesa, Asap e Fesa Advisory.