Daniel Bortoletto
17/02/2016
08:05
Enviado especial a Doha (QAT)

A entrevista marcada com Rodrigo Tabata, em um hotel em Doha, capital do Qatar, vai atrasar. Não por culpa do meia, que chegou ao local no horário combinado. No caminho ele é tietado por Bora Milutinovic, técnico sérvio com cinco Copas do Mundo por diferentes seleções no currículo (México em 86, Costa Rica em 90, Estados Unidos em 94, Nigéria em 98 e China em 2002), e atualmente consultor de futebol no país que receberá a Copa de 2022.

O papo com o jogador brasileiro finalmente começa. E em pouco tempo é interrompido.

- Você é uma estrela. Amo você - diz um catari, antes de se desculpar pela intromissão.

Duas amostras do tratamento recebido por Tabata em sua melhor temporada no Qatar. São 17 gols em 18 jogos, 11 assistências e título praticamente garantido com o Al Rayyan (16 pontos de vantagem, com mais oito jogos pela frente), feito que vai encerrar 21 anos jejum do clube no campeonato local.

O meia, que no Brasil despontou no Goiás em 2004 e depois jogou três anos no Santos, vive no Qatar desde 2010. Entre a saída do Brasil e chegada ao Oriente Médio, ele passou outras duas temporadas no futebol turco. Aos 35 anos, poderia já estar pensando no dia de pendurar as chuteiras e passar a cuidar das cabeças de gado que possui no Brasil. Mas o foco está no Mundial da Rússia.

Após cinco anos morando em Doha, Tabata passou a ter a cidadania catari e já pode defender a seleção local. No ano passado, participou de dois jogos-treino contra clubes austríacos. Agora aguarda a convocação para disputar as Eliminatórias Asiáticas para a Copa.

- Ninguém me falou nada abertamente de que serei convocado, mas pela fase, pelo momento, tudo indica que eu possa ser convocado. Tem ainda o clamor da mídia, dos torcedores que estão querendo que eu vá para a seleção - diz Tabata, que tem contrato com o Rayyan até maio de 2018.

O tal clamor é compartilhado pelo uruguaio Jorge Fossati. O comandante do Rayyan, conhecido no Brasil após passagem recente pelo Internacional, faz coro pela presença de Tabata na seleção do Qatar.

- Respeito a ideia que o atual técnico tem. Mas foram os argumentos que eu inclusive coloquei para que pensassem no Tabata. A primeira coisa que pensavam aqui era a idade dele. Eu coloquei o exemplo que o Pirlo jogou a Copa de 2014 com 34 anos na seleção italiana. Eu achava que sem dúvida nenhuma o Tabata poderia ser hoje o diferencial no Catar, agora, 2016. Vai me perguntar sobre Tabata em 2018? Não sei. Agora, e é agora que tem que lutar pra classificar. Você precisa dele pra hoje. Daqui a dois anos, não sei - analisa Fossati.

Na cabeça de Tabata, jogar a Copa de 2018, já perto de completar 38 anos, é uma realidade possível:

- Dá para chegar na Copa. O nível dos jogadores cataris se elevou. Antes, parecia que você estava jogando contra juniores. Agora você vê que seleção tem corpo, eles parecem jogadores de futebol. Além disso, outras seleções que eram quase impossíveis de ganhar (Austrália, Japão, Coreia, China), não estão no mesmo nível de três, quatro anos atrás. O Qatar deu um passinho para cima. Os caras deram um passinho pra baixo - comenta Tabata.

Nos últimos dias, o nome do argentino Jorge Sampaoli passou a ser bem cotado para assumir a seleção catari. Duas reuniões entre a federação local e o ex-comandante do Chile já aconteceram. E o plano é contratá-lo para disputar as Eliminatórias para 2018 e, independentemente do resultado, ser o técnico do país-sede na Copa de 2022. Caso a vaga inédita para o próximo Mundial seja conquistada, Sampaoli pode ter em um brasileiro o seu camisa 10.

Bate-Bola
Já caiu a ficha da naturalização?
Quando surgiu a proposta de naturalizar, primeiramente eu pensei que seria muito bom principalmente para o meu clube, pois abriria uma vaga para mais um estrangeiro. O time ficaria mais forte. Em consequência disso, pensei: "Se já estamos aqui, agora queremos jogar na seleção, pô!"

Como foi a experiência com a seleção do Qatar em 2015?
Foram dez dias de treino em Viena (Áustria). Eu cheguei num dia e dois dias depois rolou o primeiro amistoso. Entrei 10 minutos contra uma equipe da segunda divisão. No segundo, entrei faltando 30 minutos. Estávamos perdendo de 1 a 0, meti a bola para o gol do empate.

Você vê algum problema em quase toda a seleção do Qatar ser formada por estrangeiros?
O país é pequeno e jovem. A maioria do pessoal é de regiões próxima. O avô veio da Arábia, do Irã, de Omã... Então acho normal e até até natural esse processo da maioria ser estrangeira.

Vive sua melhor temporada?
Acredito que sim. Com chegada do Fossati, ele me colocou mais perto do gol. Por isso tenho feito tantos gols. Antes meu posicionamento era voltar muito para armar. Mas ele disse: "Não fica se desgastando. Deixa os volantes e você fica aqui perto da área. Sua qualidade é maior do que correr pra trás".

Então não pensa mais em voltar para o Brasil?
Tinha ideia de voltar e encerrar carreira no Brasil, no Goiás, onde tenho uma relação muito boa lá. Mas com essa possibilidade você volta a ser um juvenil, volta a sonhar como criança. Eu sei que em 2018 vou estar com 38 anos, mas não me lesiono, me cuido. Começo a visualizar essa possibilidade de classificar e entrar para a história do país. Fico com esse sonho e não vejo mais quando vou parar. Me sinto bem ainda e sempre falei que enquanto achar que estou produzindo, em um nível bom, vou seguir. Se estiver produzindo, o velhinho aqui vai estar lá até o fim.

A presença do Xavi aumentou o interesse pela Liga catari?
Antes o Raul estava aqui. É lógico que quando chega um jogador com o nome e a história do Xavi os holofotes se voltam para cá. Aqui o pessoal é apaixonado por Real Madrid e Barcelona. Para eles é excelente ter tido o Raul, que era do Madrid, e agora o Xavi, que ganhou tudo no Barça.

Viajou a convite do Comitê Olímpico do Qatar