Príncipe Ali, candidato à presidência da Fifa (Foto: Igor Siqueira)

Príncipe Ali, candidato à presidência da Fifa (Foto: Igor Siqueira)

Igor Siqueira
29/01/2016
07:18
Enviado especial a Assunção (PAR)

Ele foi o adversário de Blatter na eleição de maio, e a derrota no pleito não inibiu o príncipe da Jordânia, Ali Bin Al Hussein, de tentar novamente ser o presidente da Fifa. Desta vez, com mais quatro adversários, a estratégia para arrecadação de apoios tem sido diferente, sem apoio institucional da Uefa e tendo concorrência no próprio continente de origem, o príncipe Ali aposta no discurso de coerência, independência e transparência para convencer o mundo da bola.

– Nada me intimida. Luto pelo futebol. E quer saber, acho que sou o único candidato que não precisa de advogado – disse ele, nesta entrevista concedida durante a visita à Conmebol, antes de a entidade anunciar o apoio a Gianni Infantino no pleito de 26 de fevereiro.

Se fosse um médico, qual seria o diagnóstico da Fifa?
Obviamente precisa de tratamento. Mas tem que ser feito apropriadamente. Às vezes o remédio não é gostoso no começo, mas é bom para a saúde. Há muito o que fazer em pouco tempo. Acredito que é preciso acertar dessa vez. Sou o único que está fazendo isso pelo bem e amor ao esporte. Tinha duas opções. Fui eleito pela Ásia para o Comitê Executivo da Fifa. Foi para fazer uma mudança. Mas era muito difícil. Era chamado de “rebelde” na sala. E eu percebi que tinha duas opções: sair ou lutar pela presidência.

Por que era difícil?
Por causa da cultura. Precisamos colocar a Fifa no século 21. Falamos sobre transparência como se fosse um slogan. Mas é uma necessidade. Não deve haver nada escondido. Tem que fazer isso para recuperar a confiança. É a entidade que governa o esporte mais popular do mundo. É uma vergonha estarmos nessa situação. E é preciso ter um presidente que assuma total responsabilidade pela organização e não passe ela.

Essa mudança ocorreria se o FBI não tivesse atuado?
É uma situação emblemática ter o FBI e as autoridades suíças intervindo. É por isso que é uma responsabilidade de todas as associações nacionais escolher o candidato certo. Diante de todos os escândalos que estão acontecendo, é importante voltar aos trilhos. Quero recuperar a confiança de todos os stakeholders do jogo. Não é tão complicado, mas você tem que ter a vontade de fazer isso.

Príncipe Ali, tenta pela segunda vez ser presidente (Foto: Igor Siqueira)
Príncipe Ali, tenta pela segunda vez ser presidente (Foto: Igor Siqueira)

O que é mais difícil: Concorrer contra Blatter ou contra os quatro de agora?
Eu estou concorrendo pelo futebol. Sempre tive essa mentalidade e por isso concorri contra Blatter quando ninguém queria. Quero continuar essa missão e lutar pelo futebol.

O que mudou em relação ao primeiro período eleitoral?
Claro que foi difícil da última vez, mas a situação é muito diferente agora. Ao redor do mundo, as associações estão sentindo a pressão. Tenho visto que a maioria quer mudar. Elas querem ter orgulho por fazer parte da Fifa, trabalhar, desenvolver o futebol também. Para mim, estou muito feliz e confiante com o apoio que tenho. Não estou baseando isso em uma só região ou outra, mas no futebol ao redor do mundo.

Você disse que lutava no Comitê Executivo. Mas quanto teve a chance de lutar na segunda rodada da eleição, desistiu...
Consegui um bom número de apoios e não foi surpresa. Para ser honesto, esperava até mais. Blatter disse na época que as prisões estavam acontecendo por causa da minha relação com os Estados Unidos. Isso assustou alguns e acho que perdi votos com isso. Obviamente eu não sabia o que estava acontecendo. Mas é assim que a política funciona e nós temos que retirar a política do futebol. Uma coisa importante é que cada associação tenha direito de escolher o candidato, levando em conta as ideias mais do que outras coisas.

Você disse que quer a política fora do futebol, mas há muita política ainda...
Tenho viajado pelo mundo, fazendo um esforço para alcançar associações, entender as ideias delas também. Eu também vim de uma associação nacional, fui presidente da entidade do meu país, tenho um ponto de vista diferente. Quero transformar a Fifa em uma organização de serviço para o futebol, na qual colocamos as prioridades das associações, clubes e jogadores. É o que precisa ser feito.

"Tenho visto que a maioria quer mudar. As associações querem ter orgulho por fazer parte da Fifa"

Se sente intimidado na Fifa ou por outros dirigentes?
Eu não me intimido. Vim de uma parte complicada do mundo, minha formação é com gerenciamento de crise. Isso é o necessário agora. Nada me intimida. Vou lutar pelo futebol. Acho que sou o único candidato que não precisa de um advogado.

Somando o tempo da primeira eleição, está há mais de um ano em campanha. Como tem sido?
Perdemos um ano. Muita coisas poderiam ser diferentes do que são agora. Quero que a Fifa volte aos trilhos. Muitos problemas vieram (desde a eleição). O presidente renunciou quatro dias depois. Poderíamos estar trabalhando pelo futebol, em estágio muito melhor. Mas não vamos olhar para o passado. O momento crítico será em fevereiro.

Acha que alguém vai desistir antes da eleição?
Não vou especular sobre ninguém. Estou focado na minha campanha. Tenho certeza que sou o melhor candidato para a posição, devido a minha trajetória, ao fato de que eu venho de uma nação em desenvolvimento no futebol, de outra perspectiva, e tenho boa relação com todas as confederações.