Crislan - Braga

Contratado em julho, Crislan garante que já 'colocou a cabeça no lugar' e está feliz em Portugal (Foto: Luís Vieira)

Olga Bagatini
01/04/2016
08:00
São Paulo (SP)

A temporada 2015 foi uma alavanca na carreira de Crislan. Conhecido como "Neymar do Piauí", o atacante se destacou na disputa do Paulistão pelo Penapolense e foi eleito o craque do interior pela Federação Paulista de Futebol (FPF). O sucesso reverberou: Crislan entrou na mira de grandes equipes brasileiras, mas preferiu assinar com o Braga, de Portugal, para realizar o sonho pessoal de jogar na Europa.

Antes de ser anunciado como reforço dos lusos, em julho, o jogador chegou a acertar um acordo verbal com o Corinthians. No entanto, um apelo direto do presidente do Braga, António Salvador, ao alvinegro Roberto de Andrade desfez as negociações já muito bem encaminhadas. O que mais teve peso na escolha, contudo, foi o receio de Crislan de disputar posição com o peruano Paolo Guerrero, que à época vivia grande fase no Timão.

— A proposta do Corinthians me alegrou bastante, só que, nos bastidores, ninguém sabia que o Braga estava tentando me contratar havia três anos. Já tinha acertado tudo com o Corinthians, estava feliz, de férias. Aí o presidente do Braga foi ao Brasil, falou com a diretoria, aumentou a proposta e eles disseram que iam me liberar — contou o atacante ao LANCE!.


— Eu tinha vontade de disputar o Brasileiro por uma grande equipe, mas também queria jogar na Europa. Eu sabia que em Portugal poderia saltar para a Espanha e outros países. Mas o que mais pesou foi o fato de o Guerrero estar no Corinthians. É um jogador extraordinário, de seleção, e ele estava em ótima fase. Mas depois do destaque no Paulistão, eu queria continuar jogando, e sabia que perderia espaço — admitiu.

Crislan - Penapolense
Jogador foi eleito 'craque do interior' do Paulistão 2015 por bom desempenho no Penapolense (Foto: Rodrigo Villalba/Futura Press)

Crislan não conseguiu repetir o bom desempenho em Portugal. O atleta de 24 anos sofreu uma série de lesões, perdeu espaço com o técnico Paulo Fonseca e só participou de 16 jogos até agora, nos quais marcou apenas dois gols. De longe, viu o impecável Corinthians de Tite, já sem Guerrero, conquistar o título brasileiro de maneira incontestável. E confessou ter passado noites em claro refletindo sobre sua escolha.

— Eu tive que tomar uma decisão difícil. Depois que assinei com o Braga, Guerrero saiu e foi para o Flamengo. Aí eu me vi algumas noites em claro, pensando no Corinthians. Às vezes penso no que poderia ter acontecido, porque todo mundo falou que eu podia ter sido campeão brasileiro. Mas não tenho arrependimentos. As coisas não acontecem por acaso. Coloquei a cabeça no lugar, estou aqui e vou ser feliz — garantiu o piauiense, sem negar a vontade de voltar para disputar o Brasileirão no futuro.

Sobre o desempenho de Vagner Love, que ocupou a vaga de Guerrero após a lesão do garoto Luciano e, no início, irritou a torcida com os gols perdidos, Crislan evitou críticas.

— Love começou errando muitos gols, depois foi decisivo e acabou campeão. Não vou criticar. Mas se naquele momento eu estivesse lá, teria aproveitado a oportunidade — disse o jogador. 

Corinthians, Guerrero, Love, possível título... Tudo isso são águas passadas para Crislan. Recuperado e adaptado ao futebol português, o camisa 9 voltou a ser acionado na última rodada do Português, no triunfo sobre o União da Madeira, e deve ter nova chance nesta sexta, às 16h30, contra o líder Benfica.

Embora o Braga seja apenas o quarto colocado, com 50 pontos - 17 atrás das Águias -, é o único luso que segue vivo nas principais competições locais. Nas próximas semanas, o time tornará a enfrentar o Benfica na semifinal da Copa da Liga, duelará com o Shakhtar Donetsk nas quartas de final da Liga Europa e decidirá a Taça de Portugal com o Porto. 

— Dizem que somos a quarta maior força de Portugal, mas os primeiros já caíram em pelo menos uma das competições em que seguimos firmes. O trabalho está sendo muito bem feito. Espero poder participar mais, voltar a fazer gols bonitos como fazia no Paulistão. Já deu saudade — suspirou.

BATE BOLA COM CRISLAN
'Meu maior sonho é chegar à Seleção'

Como foi a adaptação ao futebol português?
No começo eu tive algumas oportunidades, mas não entendia bem a função que tinha que fazer. A movimentação do atacante na Europa é totalmente diferente da feita no Brasil. Com o tempo, passei a entender melhor, mas infelizmente sofri algumas lesões e fiquei um tempo parado. Agora já estou recuperado, bem adaptado ao clima e à rotina de jogos e ciente do que preciso fazer aqui.

Qual a melhor e a pior parte de morar fora do Brasil?
A melhor parte foi realizar um sonho. Portugal é um país bom de morar. Minha mãe vem de vez em quando e passa alguns meses comigo, isso ajuda muito. É muito gratificante sair do treino e ir pra casa comer o baião de dois da dona Antônia. O ruim é estar longe das pessoas que eu gosto, como meu pai, irmã e amigos, e longe do calor do nordeste.

Como você lidou com a sequência de lesões?
Primeiro tive uma contusão no tornozelo, e quando faltavam dois dias para voltar, sofri uma lesão muscular e fiquei mais de um mês parado. Queria estar em campo ajudando meus companheiros, mas soube ter cabeça para lidar com isso e me recuperar. No dia 18 de março fiz meu primeiro trabalho de reintegração. Treinei muito bem, com algumas precauções, mas feliz de voltar ao grupo. Dois dias depois fui relacionado e entrei no fim do jogo contra o União da Maneira. Basta ter paciência que as coisas vão acontecer.

Tem a esperança de ser titular nos confrontos decisivos?
Quero estar bem. A decisão é do treinador, mas jogador nenhum gosta de estar no banco. Espero estar nas quartas de final, na semifinal da Copa da Liga e na final da Taça de Portugal contra o Porto. No Português, brigar pelo terceiro lugar para garantir uma vaga na Liga dos Campeões. Essa reta final será bem interessante.

Como está o clima nos vestiários diante desse bom momento?
O clima dá ânimo pra treinar. O elenco é muito unido, a gente brinca, mas quando entra em nas quatro linhas para treinar todo mundo fica sério e compenetrado. Posso dizer com convicção que o Braga foi o clube que melhor me acolheu na vida. Geralmente a gente chega em um lugar novo e fica meio de canto, as pessoas não dão confiança. Aqui, desde o primeiro dia eles me abraçaram e me deixaram muito à vontade. A boa fase se deve à essa harmonia. Um corre pelo outro.

Ainda usa a chuteira preta que te rendeu o prêmio de Craque do Interior?
Não. Doei ela para um espanhol que é jogador do Braga e faz projeto legal de juntar chuteiras velhas que a gente não usa mais para levar para pessoas carentes dos países da África. Agora tenho contrato com a Adidas. Ela me fez falta na época, marcou minha vida, mas creio que está nas mãos de alguém que precisa mais do que eu.

Qual foi o melhor momento da sua carreira? E o pior?
A melhor foi no Atlético-PR. Também teve o momento no Penapolense, por causa dos jogos e gols bonitos que eu fiz e a repercussão que isso deu. O pior foi no Náutico. Cheguei bem, fiz três gols em três jogos e depois machuquei o ombro. As questões extracampo e a crise financeira também não ajudavam. A gente ia treinar e dava dó das pessoas que trabalhavam lá e estavam há meses sem receber um real. São problemas que a gente acaba levando para dentro de campo. Tinha um torcedor fanático do Náutico que juntava grana e dava "bicho" para nós. Ele vinha com 300 ou 400 reais para cada um e os jogadores juntavam e davam o dinheiro para o cozinheiro, a tia que lavava roupa, massagista, roupeiro, vigia, enfim, as pessoas que precisavam. Isso partia meu coração, foi o pior momento.

Qual é seu maior sonho como jogador?
Evoluir muito na Europa e chegar à Seleção Brasileira. É difícil, o Brasil tem jogadores excelentes, mas não é impossível. Quando você trabalha com dedicação, as coisas acontecem naturalmente. O Jonas do Benfica, por exemplo, era muito criticado. Hoje é um cara que está disputando a Bota de Ouro com Messi, Suárez e Cristiano Ronaldo. Foi convocado por Dunga. A gente vai se moldando aos poucos, evoluindo aos poucos, e quem sabe um dia pode chegar. Eu acredito nisso.