Romário - senador

Romário entrou no último dia 9 com uma ação no STF para destravar convocações (Foto: Geraldo Magela)

Luiz Fernando Gomes
14/06/2016
07:15
São Paulo (SP) 

A CPI que surgiu em julho do ano passado como uma grande esperança de mudar o futebol brasileiro não está conseguindo nem forjar sua própria história. Desde o início de abril, a CPI do Futebol no Senado, comandada pelo senador Romário (PSB-RJ), está parada por causa de uma questão regimental (leia texto abaixo).

Para resolver a questão, o senador Romário entrou no último dia 9 com uma ação no Supremo Tribunal Federal para destravar a convocação do presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, do ex-presidente Ricardo Teixeira, de sua filha Joana Havelange e do empresário Wagner Abraão, maior parceiro comercial da CBF e suspeito de práticas de lavagem de dinheiro. Mas, mesmo que eles sejam convocados, a chance de a CPI aprovar um relatório contundente é pequena.

Apesar de isso ser uma tradição do Congresso, em poucas CPIs houve uma oposição tão clara - embora sem uma guerra declarada - entre o presidente e o relator. De um lado, Romário tem apostado seu prestígio pessoal na tentativa de demonstrar que o presidente da CBF e seus principais auxiliares estão lesando a entidade com negócios que beneficiariam os dirigentes, mas não o futebol brasileiro.

Romário já chamou Del Nero várias vezes em sessões da CPI de “corrupto”, “ladrão” e “mentiroso”, em especial quando o dirigente foi ouvido no dia 16 de dezembro. Mas o relator, Romero Jucá, colocado no cargo com a bênção da cartolagem, joga no sentido contrário. Sem nem esperar o fim da investigação, Jucá já entregou um documento sem indiciar nenhum dirigente. Em mais de 200 páginas de texto, dedica às irregularidades na gestão da CBF alguns poucos parágrafos – e de forma amena como se não
houvesse culpados.

O relator tem o apoio da grande maioria da comissão. Romário, apesar de ter levantado diversos casos que indicam a prática de conduta supostamente criminosa dos cartolas, vislumbra tão somente produzir ao final da história um relatório paralelo e entrega-lo ao Ministério Público. O que, aliás, Jucá também vai fazer com o seu.

Entenda o que paralisa a CPI do Senado

A CPI do Senado está parada desde 6 de abril quando o presidente do Senado, Renan Calheiros, atendendo a pedido de senadores ligados à bancada da bola, invalidou a convocação de Teixeira e Del Nero, entre outros. As comissões do Senado já se posicionaram contra a atitude de Calheiros, mas ele ainda não a anulou. Por trás da crise, está a falta de apoio político à CPI dentro do Senado.

Desde que conseguiu as assinaturas para criá-la, em 27 de maio do ano passado, Romário vem enfrentando forte oposição ou no mínimo má vontade dos colegas.

O senador deixou claro que desconfiava das intenções dos seus próprios pares de CPI ao criar uma equipe de investigação própria, paralela à oficial – que nem sequer chegou a ser montada, aliás.

A equipe levantou diversas irregularidades, especialmente com base num HD de um computador de Del Nero, apreendido durante uma operação da Polícia Federal em 2012.

Mas, na área política, Romário não conseguiu reverter a situação minoritária em que se encontrava e até a agravou ao perder o apoio de alguns senadores, como Paulo Bauer (PSDB-SC).

Assim, nem mesmo membros da sua equipe acreditam hoje que se  conseguirá aprovar um relatório com as conclusões da investigação. Um relator contra a CPI Indicado pela bancada da bola, o senador Romero Jucá, deixou logo claro
que não queria uma investigação aprofundada. Seu desinteresse foi tanto que no primeiro semestre de funcionamento da CPI, ele nem sequer pediu a senha para acessar os documentos obtidos pela comissão – e que são protegidos por sigilo legal.

Para deixar clara sua posição, o relator não se esquiva de protagonizar episódios constrangedores. Quando Del Nero depôs na CPI, Jucá o chamou sempre de Vossa Excelência, tratamento só dispensado aos colegas ou a altas autoridades públicas. E, naquele momento Del Nero, nem sequer era uma autoridade privada, pois estava licenciado da presidência da CBF.

Mesmo depois que renunciou ao cargo de ministro do Planejamento do governo interino de Michel Temer, ao ser flagrado em gravações com críticas e ações contra a Lava-Jato, o senador continua a ser considerado um dos políticos mais poderosos – e temidos - de Brasília.

Pernambucano, foi nomeado governador biônico no então território de Roraima, e desde então fixou sua base política por lá. Eleito senador, já foi líder do governo em três sucessivas gestões - de Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma. Foi Jucá, aliás, quem comandou a reunião em que o PMDB retirou o apoio ao governo de Dilma abrindo caminho para o processo que culminou no impeachment.

No ano passado, Jucá era tido como um dos mais fortes candidatos à sucessão de Renan na presidência do Senado. Disputava a indicação do seu partido com Eunício Oliveira, do Ceará (que por pouco não foi o relator da CPI do Futebol). Agora, para concretizar o desejo, precisa não ser preso.