Carta do Corinthians sobre a divisão dos direitos de Alyson (Foto: Reprodução)

Carta do Corinthians sobre a divisão dos direitos de Alyson (Foto: Reprodução)

Bruno Cassucci e Gabriel Carneiro
01/05/2016
05:45
São Paulo (SP)

Alyson Motta, de 16 anos, é um jogador desconhecido da Fiel torcida, mas a assinatura do primeiro contrato profissional dele tem abalado o Corinthians internamente nas últimas semanas, a ponto de rachar o grupo político que comanda o clube.  Isso porque um empresário norte-americano alega ter pago 60 mil dólares (R$ 205.8 mil na cotação atual) por 20% dos direitos econômicos do jogador, fatia que nunca recebeu. Ele ainda diz que deu 50 mil dólares por uma carta de procuração do Timão nos Estados Unidos que também não teria validade. Em resumo: o agente diz ter sido enganado e que perdeu o dinheiro.

O empresário em questão é Helmut Niki Apaza, que conduziu a negociação de Alyson com Fábio Barrozo, ex-gerente das categorias de base do clube, que deixou o cargo no último mês, e o conselheiro Manoel Ramos Evangelista, conhecido como Mané da Carne, conselheiro vitalício e ex-assessor da presidência durante a gestão de Andrés Sanchez (entre 2007 e 2011).

Niki procurou o Corinthians alegando ter sido passado para trás pela dupla, que teria ficado com o seu dinheiro. O imbróglio faz com que Alyson não tenha contrato profissional com o clube até hoje.

Alyson Motta com a camisa do Corinthians (Foto: Reprodução)
Alyson Motta com a camisa do Corinthians (Foto: Reprodução)

O LANCE! teve acesso à troca de mensagens entre Barrozo e Helmut Niki, na qual é tratada a forma de pagamento da compra dos direitos de Alyson (três parcelas de 20 mil dólares) e outros detalhes da negociação. O ex-gerente, contudo, nega que tenha recebido dinheiro de forma escusa, embora admita as tratativas. 

- Os 60 mil dólares ele (Helmut Niki) pagou ao Julio, empresário do Alyson, não a mim ou mais ninguém. Eu só entrei nessa história perguntando ao Niki como ele pagaria, se seria deposito em conta... Porque ele tem que declarar - declarou Barrozo.

O ex-gerente afirma que foi solicitada sua "ajuda" no caso depois da mudança da regra da Fifa em 2015, que proibiu a participação de investidores em direitos econômicos de atletas. Desta forma, o empresário norte-americano não poderia ter os direitos do jogador, que mesmo pela lei antiga só poderia ser "fatiado" aos 16 anos, idade que ele completou em março deste ano.

- Esse menino chegou ao clube em 2014. Nessa época os direitos econômicos poderiam ser divididos com investidores. Foi então feito um acordo comercial entre cavalheiros para que quando ele completasse 16 anos seria descrito no contrato profissional dele: 60% dos direitos ao Corinthians, 20% da família e 20% de um empresário dele chamado Julio. Mas a regra mudou. O Julio, então, procurou o senhor Mané falando que tinha uma proposta e eu expliquei a ele que a regra mudou - conta Barrozo.

- O senhor Mané pediu para ajudar esse amigo dele, que é o Julio, e eu comentei a eles que o que poderia ser feito era deixar uma comissão sobre venda futura do atleta. Hoje o direito econômico mudou, é percentual sobre futura venda. Foi isso que foi feito, para respeitar o acordo de cavalheiros. Nesse meio tempo, a família do atleta abriu mão de 20% dos direitos em troca de um salário melhor. Então o Corinthians ficou com 80%, e o Julio com o restante. Foi então que ele vendeu para o Niki esses 20% - completa Fábio Barrozo.

Helmut Niki também alega que pagou 50 mil dólares por uma procuração para representar o Corinthians em negociações nos Estados Unidos. Barrozo afirma que tal valor se refere a despesas que o empresário teve para custear a ida dele e o diretor de futebol de base do Timão, José Onofre, à Miami, na Florida. 

O LANCE! teve acesso a uma procuração assinada pelo diretor-adjunto de futebol Eduardo Ferreira, a qual ele nega ter cobrado. O documento tem data de fevereiro deste ano. Na carta não há especificação sobre assuntos referentes às categorias de base ou ao futebol profissional. A representação seria usada para firmar parcerias com equipes norte-americanas.

- Esta carta é comum no futebol para dar o direito a pessoa falar em nome do clube para aquele determinado assunto. Infelizmente as pessoas querem misturar as coisas colocando a maldade na frente. O que eu fiz foi defender os interesses do Corinthians, quando me foi solicitada a carta eu comuniquei a direção que me liberou para que eu a fizesse, como faço sempre - disse Eduardo Ferreira

Quando esta negociação nebulosa chegou à alta cúpula corintiana, o grupo que comanda o Timão sofreu um racha. Barrozo e Mané da Carne são muito próximos ao ex-presidente Andrés Sanchez, que saiu em defesa dos aliados. Por outro lado, outros membros da direção, como o vice-presidente Jorge Kalil, exigiram providências e entraram em atrito com os demais. Mesmo nas categorias de base, grupos se dividiram em apoio e críticas aos dois lados. Em meio a este fogo cruzado, o presidente Roberto de Andrade trabalha para resolver a situação e não desgastar a imagem do clube, de seu grupo político e de seus companheiros. Fontes ouvidas pelo LANCE! dizem que a relação do mandatário com Andrés Sanchez já foi mais próxima.

Fábio Barrozo nega que sua saída do Corinthians tenha relação com o caso. Como argumento, ele utiliza uma carta de referência que recebeu do departamento de recursos humanos do Timão após pedir demissão.

Mané da Carne é um dos conselheiros mais influentes do Timão. Ele tem trânsito entre os principais dirigentes do clube, costuma estar nas viagens do clube pelo Brasil e no exterior e é muito ligado à base alvinegra. A reportagem tentou contato com ele, mas não obteve sucesso.

O LANCE! também tentou ouvir o empresário Julio, que já não trabalha mais com Alyson, mas não o localizou.