Fellipe Lucena
23/11/2016
07:45
Enviado especial a Belo Horizonte (MG)

Das últimas seis edições da Copa do Brasil, cinco tiveram um time comandado por Marcelo Oliveira na final. Após dois vices com o Coritiba (2011 e 2012), um com o Cruzeiro (2014) e o título com o Palmeiras (2015), o técnico tenta levar o Galo ao topo neste ano. A decisão começa às 21h45 desta quarta-feira, contra o Grêmio, no Mineirão.

Também com três estaduais e dois Brasileiros no currículo, Marcelo recebeu o LANCE! na Cidade do Galo para um longo bate-papo sobre a briga por mais um título, sobre seu trabalho no Atlético - que ele lamenta ainda não ter um time titular fixo, apesar do bom elenco - e sobre as constantes críticas que recebe mesmo sendo um dos profissionais com melhores resultados no futebol brasileiro recentemente.

Veja a entrevista:


LANCE!: Você costuma dizer que não ganhou nada na loteria. Qual é o segredo, então, para estar em outra final de Copa do Brasil?
Marcelo Oliveira:
Não tem segredo. É uma combinação de coisas: o clube, o elenco e o trabalho. O trabalho me sustenta, eu não tenho empresário, não tenho padrinho. Quando cheguei foi pelo trabalho, embora algumas pessoas indiquem o elenco. Então vamos lá. Diziam que o Coritiba tinha um elenco muito bom, só que o Coritiba não chegou mais à final da Copa do Brasil. O elenco do Cruzeiro era muito bom também, mas depois que saímos não chegou mais. E o Palmeiras também não chegou neste ano. Não tem segredo para técnico nenhum, a questão é o trabalho, e o trabalho de equipe. Você depende da comissão, da diretoria, da torcida e dos jogadores. Esse conjunto é que pode levar a uma conquista.

"Quando cheguei foi pelo trabalho, embora algumas pessoas indiquem o elenco. Diziam que o Coritiba tinha um elenco muito bom, só que o Coritiba não chegou mais à final da Copa do Brasil. O elenco do Cruzeiro era muito bom também, mas depois que saímos não chegou mais. E o Palmeiras também não chegou neste ano"

O que você encontrou de melhor aqui no Atlético-MG?
Primeiro que era uma casa que eu conhecia, onde trabalhei muito tempo. Reencontrei muitos profissionais que trabalharam comigo. E uma estrutura que foi ampliada em relação ao tempo em que passei aqui. O Atlético tem hoje todas as condições que deve ter um clube para se trabalhar. Estamos aqui há sete meses, um pouco mais. Embora no Brasil isso seja um tempo grande, tivemos dificuldades nesse período, com convocações, contusões, suspensões. Temos um ambiente bom, um elenco bom, mas não temos um time. Ninguém sabe escalar o time por essas dificuldades.

Assim como no Palmeiras, você teve dificuldades para manter o fôlego do time na Copa do Brasil e no Brasileiro mesmo com bom elenco. Por que?
É muito difícil para qualquer time. Quando um time vai bem nas duas competições, ele pode ter dificuldade mesmo. Tem semanas que jogamos vários jogos decisivos em um período curto. Nós estamos jogando partidas importantes e decisivas para estar entre os três no Brasileiro e vamos ter uma final importantíssima. Temos de administrar isso, tirando um ou outro jogador, mas mantendo a base.

Gostou das mudanças no calendário para o ano que vem?
Acho que ainda não é o ideal, embolam muito as competições. O torcedor cobra, e nós mesmos nos cobramos, para ir bem em todas elas. Deveriam reduzir muito mais o número de jogos, jogador precisa descansar e treinar mais. Às vezes eles passam períodos de um mês ou mais de um mês sem fazer treino de finalização, por exemplo, sem bater falta, sem repetir escanteio, bola parada, porque os jogadores estão cansados e não podem ficar chutando repetidamente. Isso é muito ruim.

Você verificou alguma diferença nos perfis das torcidas de Cruzeiro, Palmeiras e Galo? Qual delas é mais exigente?
Quando estou em um jogo, não fico concentrado em torcida. O torcedor vai se manifestar positivamente quando o time está ganhando. Quando tem dificuldade, alguns vão entender e outros, pela paixão, vão cobrar. Isso é normal. Quando estou no jogo, procuro me concentrar no jogo. Outro dia até alguém falou para mim: “Pô, você precisa falar mais, gritar mais na beira do campo, o torcedor gosta”. Eu falei: “Olha, eu não fiz teatro, cara”. Tenho muita dificuldade com isso, porque aí não estou observando o jogo. Se eu ficar gritando muito, correndo, não consigo observar tanto o jogo. As torcidas dos grandes clubes são apaixonadas, presentes e exigentes da mesma forma.

Percebeu alguma mudança no Grêmio após a troca do Roger pelo Renato Gaúcho?
É difícil fazer essa avaliação à distância, embora as pessoas façam. O Roger é uma revelação como técnico. O time dele jogava de forma bem efetiva, tinha muita posse de bola. Talvez o Renato, pela experiência, deve ter dado uma descontraída no ambiente, passado confiança. Mas o Grêmio é forte com os dois. O Grêmio talvez tenha um time que joga mais junto coletivamente do que o nosso. Neste ano a gente mudou muito por causa de contusões, agora mesmo voltou o Maicosuel, o Marcos Rocha está voltando e tem até possibilidade de jogar a final, pelo menos um jogo. Não é o ideal, mas é o que temos.

Roger e Renato fazem parte de duas categorias de treinador: o estudioso e o boleiro. Concorda com esse tipo de definição?
Não concordo e acho uma grande bobagem. O Brasil tem essa cultura de alguém falar alguma coisa e todo mundo repetir, às vezes até frases prontas. O treinador de futebol tem de ter conhecimento tático, ter bons treinamentos e criar ambiente bom. O estudo e a prática precisam caminhar juntos. Nós não temos a oportunidade de fazer cursos fora, a não ser quando estamos parados, como aconteceu com o Mano Menezes, com o Roger agora. Mas própria temporada, o próprio trabalho efetuado, pode servir de base para você melhorar, reciclar, discutindo aquele trabalho.

Você gostaria de sair do Brasil para fazer cursos?
Eu gostaria de ter esses espaço para fazer. Tudo que você consegue discutir, trabalhar e estudar pode agregar ao trabalho. Acho que é importante, traz novas ideias. Eu não tive ainda esse tempo, mas pretendo, sim, embora eu também não pretenda ficar tanto tempo no futebol.

Mais quanto tempo?
Não tem um período certo, mas é uma profissão muito desgastante, que toma muito o tempo. Funciona assim: se você não se jogar de corpo e alma no trabalho, não for intenso, não adianta. Eu até concentro com os jogadores, é bom para conversar com um, com outro, fazer reuniões. Isso toma muito tempo e te afasta um pouco dos seus familiares. É uma dificuldade que eu tenho, às vezes me culpo um pouco por isso, mas por outro lado eu sou um apaixonado pelo que faço. Tenho apenas uma ideia de não ficar mais muito tempo, mas não sei exatamente quando.

Acha que o futebol é muito cruel? Você tem conquistado títulos todos os anos, mas recebe muitas críticas de imprensa e torcedor.
Do torcedor, não. Acaba que isso é repassado ao torcedor, mas eu ando em Belo Horizonte e sou abraçado por torcedor do Atlético e do Cruzeiro. Quando estava em São Paulo, o torcedor do Palmeiras me tratava bem em qualquer lugar que eu fosse. Na imprensa, você tem muitos programas, ampliou muito, todo mundo luta pela audiência e todo mundo entende mesmo de futebol, mas entende à sua maneira. No dia a dia, as coisas às vezes são um pouco diferentes. Mas eu não tenho problema em ser avaliado, criticado ou elogiado. Não me traz dificuldade.

Alguma crítica foi exagerada?
Mas eu não ouço, cara, porque estou no clube direto. Quando estou no carro, eu ouço mais música. É possível que sim, porque nós desenvolvemos um futebol muito bom com o Coritiba, aliás, todas as grandes equipes que foram a Curitiba perderam, o time jogava muito bem. No Cruzeiro nós fizemos da mesma forma, tivemos melhor ataque, melhor defesa, fomos campeões antecipadamente. No tempo que tive no Palmeiras, nós também tivemos dificuldades com lesões, assim como no Atlético. Não estamos desenvolvendo o futebol que gostaríamos, mas estamos brigando na frente em duas competições e com um ataque muito poderoso.

Você diz que não tem um time titular estabelecido, mas está feliz com seu trabalho no Galo?
O time não consegue ficar bem organizado o tempo todo, às vezes você se desarruma até pela ação do adversário. Eu estou feliz com o trabalho que estamos desenvolvendo, apenas acho que o Atlético não tem um time. Qual que é o lateral-direito? O Marcos Rocha ou Carlos César? Jogou o Léo Silva, o Gabriel jogou muitas vezes, o Erazo várias outras, também saiu machucado. Isso aí dificulta um pouco. Quando você tem oportunidade de jogar frequentemente com o mesmo time, esse time vai se desenvolver quase que naturalmente.

E como é ter Pratto e Fred para revezar no comando do ataque?
Eu tenho brincado com isso até, digo que é um problema e uma solução. É mais solução do que problema. Melhor você ter dois muito bons do que não ter, embora isso aí traga às vezes discussões, porque uns gostam mais do Fred e outros do Pratto. Todos dois têm poder de decisão, de conclusão, com características diferentes. O Pratto tem mais contra-ataque, o Fred é mais referência, de área. Ambos nos satisfazem muito quando jogam.

E a convivência com o Robinho?
Me chamou muito a atenção como ele está feliz aqui, descontraído, como treina com alegria. Ele faz complementos de trabalho, dificilmente sai do treino, não me lembro de um treino que ele ficou fora. Quando chegamos, ele ainda não estava na melhor forma, mas agora tem sido muito útil em todos os sentidos. É experiente, muito técnico, dá condição de outros jogadores fazerem gol e tem feito gols também.

Com o Fred é parecido?
O Fred também encaixou muito bem. Nós nunca tínhamos trabalhado juntos, é um cara bem profissional, bem tranquilo. Sei que é difícil um jogador que recentemente jogou Copa do Mundo e que foi ídolo no Fluminense ficar fora às vezes, mas a gente administra isso conscientizando, o Pratto também já ficou fora, já jogamos com os dois. Esse é o papel do técnico. Melhor você ter grandes jogadores, porque o trabalho do técnico é importante, a parte tática, o clube, os torcedores, mas são os jogadores que resolvem. Para ganhar campeonato, você precisa de um elenco com grandes jogadores.

Quando saiu do Cruzeiro, você disse que gostaria de ficar um tempo parado, mas praticamente emendou trabalhos no Palmeiras e no Galo. O que te move?
O que move é a paixão pelo que faço. Eu imagino que você como repórter também ame o que faz. Se você, por conta própria, decidir ficar fora por um ano, seis meses, certamente vai sentir falta do dia a dia do futebol, dos jogos, de tudo aquilo que você faz. Depois que saí do Palmeiras até consegui ficar dois meses fora, mas houve um apelo muito grande de torcedores do Atlético, de familiares, para que eu aceitasse o convite. É sempre um desafio. Quando você tem resultado com bom desenvolvimento do trabalho é o ideal. É o que busco.

O que fez nesses dois meses entre a saída do Palmeiras e o Galo?
Tentei fazer coisas que não vinha fazendo há anos, como ficar com meu neto à tarde, ir para o clube com meu filho, jogar bola com ele, ir ao cinema, ler um livro com mais tranquilidade. Esse tipo de coisa. Me dediquei mais à família.

"Li o livro do Guardiola. Achei muito interessante, tem coisas muito bacanas, embora o tipo de trabalho lá seja muito diferente"

Algum livro te marcou?
Eu li o livro do Guardiola, que havia ganho. Achei muito interessante, tem coisas muito bacanas, embora o tipo de trabalho lá seja muito diferente. Eles são managers, esses caras contratam. O Guardiola foi buscar informação sobre o Gabriel para contratá-lo, tem uma cota para contratações, diferente aqui do Brasil, onde dependemos muito do resultado.

Dá para aplicar algo do Guardiola no seu dia a dia?
Tem muita coisa que já temos como conceito de jogo. A participação da maioria dos jogadores quando não tem a bola, a distribuição em campo, usando o maior número de jogadores próximos da bola, triangulações pelo lado, saída rápida do time. Acho que o calendário é que aperta muito aqui para que possamos trabalhar mais taticamente. Recentemente eu estava comentando que jogamos muito e alguém me contestou dizendo que lá na Europa também se joga muito. Ele falou: “Andei pesquisando e determinado time jogou 55 jogos”. É um número bom, só que o Atlético esse ano vai jogar 76. O Cruzeiro, nos meus dois anos lá, jogou 70 e tantos também. Dá uma diferença que equivale a uns dois meses de trabalho. Não é fácil.