Vasco x Santos Ricardo

Ricardo Graça busca espaço no time profissional, e já soma 17 partidas nesta temporada (Rafael Ribeiro/Vasco)

Felippe Rocha e Luiza Sá
30/07/2019
07:30
Rio de Janeiro (RJ)

A vida de Ricardo Graça no time profissional do Vasco poderia ter sido minada em fevereiro do ano passado. Contra o Jorge Wilstermann, na altitude de 2.800 metros de Sucre (BOL), ele soube de última hora que jogaria, e teve atuação ruim, assim como toda a equipe que foi goleada antes de, nos pênaltis, avançar na Taça Libertadores. Mas ele quem ficou marcado. O tempo, porém, fez bem ao defensor, hoje com 22 anos. Acumula 17 jogos em 2019, apesar de ser o mais jovem zagueiro. Deixou o time titular somente para o retorno do capitão Leandro Castan, com quem segue aprendendo. Da arquibancada de São Januário, ele contou ao LANCE! a relação familiar que tem com o clube que defende há uma década.

- Eu me arrepio quando começa a música "Camisas Negras" antes do jogo. Começo a cantar no banco, sempre fico feliz. O carinho que eles (torcedores) têm por nós, eu procuro retribuir. Já fui torcedor, sei como é. Quando xingam, precisamos entender. Às vezes, nós achamos algumas críticas injustas, mas eles pagam ingresso e têm direito a protestar e fazer o que quiserem, desde que não prejudiquem a nossa integridade física. O carinho que tenho pelo Vasco é como se fosse pelo meu pai. Por tudo que fez por mim. Se não fosse por eles eu não estaria aqui. O que eu mais amo, o Vasco me proporciona. Só tenho a agradecer à torcida por esse carinho. É uma relação de amor - afirmou o zagueiro.

Ricardo entrou em campo, em 2019, sob as ordens de Alberto Valentim e foi mantido por Vanderlei Luxemburgo. E no caso do veterano, o estilo "desbocado" contagiou o grupo.

- Cara, eu gosto dele. Não é esse xingamento que vocês pensam. Ele xinga, dá "esporro", mas já finaliza rindo. Ele não dá "esporro" e sai. Ele dá o esporro em você e já vai amaciando: "Ricardo, não sei o que, não sei o que lá... meu filho..." Sabe, é um paizão. Não é brucutu. Ele estava explicando o jogo do Grêmio. Teve a arbitragem, claro, mas ele falou, martelando: "Não pode tomar esse gol", deu "esporro", falou e, do nada, soltou uma piada. Todo mundo riu. Ele é experiente e, além do campo, ele sabe gerir o grupo. Tem na mão. Ele é sensacional. De experiência e bagagem o que eu mais gostei - sublinhou.

Veja as outras respostas da entrevista:

Quais as suas maiores lembranças deste tempo aqui?
Sou muito novo, mas comecei muito cedo também. Entrei no Vasco em 2009, tenho 10 anos de clube. A primeira vez que pisei no Vasco foi em fevereiro ou março de 2009, na Rodovia Washington Luís (centro de treinamento que era utilizada pela base). Fui fazer o teste e foi a primeira vez que atuei de zagueiro. Antes eu era meia, volante, até de lateral-esquerdo cheguei a jogar. Coisa de maluco. Teve um jogo, no salão, que joguei contra o Bruno Cosendey, amigo meu que está emprestado ao Criciúma. Eu marquei ele muito bem, ele era o artilheiro. O pai dele disse que o Vasco estava precisando de zagueiro canhoto, meu pai conversou comigo e eu falei: "Vamos lá." Gostei, tentaram me colocar de volante, mas não me adaptei, preferi voltar para a zaga. Minha carreira vem crescendo. Quando comecei, fiquei seis meses aqui, ganhei meu primeiro uniforme e, com um ano, "federei". Depois, virei titular e nunca mais saí. Fui para o time de juniores e, como estava me destacando, meu empresário da época disse para ir para Portugal. Achei que era um projeto legal, mas acabou não sendo. Voltei, tive complicações por conta de documentação e passei quase um ano sem jogar. Sem documento, acabei não indo para a Copinha de 2017. Mas fiz um amistoso com o profissional e marquei um gol. Comecei a fazer a transição, me regularizei, virei capitão dos juniores. Fui relacionado para três jogos do profissional naquele ano, mas não joguei. Em 2018, o Vasco ficou sem zagueiros. Só tinha eu e Luiz Gustavo - Werley e Erazo chegaram depois. Teve um clássico contra o Flamengo que eu digo que foi o jogo que me empregou. Meu contrato estava acabando, o jogo foi 0 a 0, mas eu joguei bem, fui considerado o melhor da partida. Dias depois acertaram a minha renovação e eu fui de titular para a Copa Libertadores. Depois do jogo na altitude da Bolívia eu saí, e é normal sobrar para alguém. Venho dando sequência, esse ano atuei mais e fui bem. Hoje, estou na briga.

Como foi o período em Portugal?
Não me arrependo de ter ido para Portugal. Eu e o Bruno Cosendey, que também foi, tínhamos o mesmo empresário na época. Era o primeiro ano de juniores, nós dois subimos e viramos titulares. Ele de volante e eu de zagueiro. Na base é mais difícil, os adversários são mais fortes. Acabou que fomos bem e o empresário falou que nos juniores do Vasco não acrescentaria nada. Ele disse que, em Portugal, eu jogaria no time B e, depois, poderia ir para o A do Vitória de Guimarães. Com 18 anos, seria uma visibilidade boa. A princípio, era um ano só de empréstimo. Quando cheguei lá, eram dois anos de contrato, mas os valores prometidos já haviam mudado. Eles até pagaram, mas foi preciso fazer uns trâmites. Em vez de ir para o time B, fiquei nos juniores. Nada para reclamar do clube. Acho, na verdade, que o empresário estava começando e eu não tinha um bom estafe. Foi bom para aprender. Não guardo mágoa nenhuma dele, mas não trabalhamos juntos mais. A única mágoa que guardo é que, quando voltei para o Brasil, ele não me ajudou em nada. O irmão dele, que sempre me dava suporte, falou que eu voltei porque estava com saudade da família, não contou a história real. Eu e minha família ficávamos o dia inteiro em São Januário para falar com o Álvaro Miranda, filho do Eurico (então diretor do futebol de base). Foram três ou quatro meses até eu voltar. Tentei de todas as formas: reduzir o salário, pagar multa. O Álvaro é meu paizão. Se não fosse por ele e minha família, eu não estaria aqui. Foi bom para aprender. Hoje eu entendo que, se tiver uma proposta, tem que conversar com o clube e com a comissão técnica para saber. Meu empresário deve ter prometido que ia me vender. Não ficou rescindido o contrato, era um empréstimo, mas deve ter tido uma promessa de valor. Ele prometeu coisas, vacilou comigo e com o clube. Para o clube, eu estava com meu empresário, me aproveitando. O Paulo Reis (do departamento jurídico da época) me escutou, viu que eu tava sendo vítima. Aí o Eurico autorizou meu retorno. São aprendizados.

Foi o momento mais difícil?
Foi, poderia ter acabado com a minha carreira. Se o Vasco falasse que não me queria, eu poderia ter ido para um time menor ou para nenhum clube. É o que o Luxemburgo fala: quando você começa a subir, todos te puxam para cima. Quando desce, todos puxam para baixo. Poderia ter ido para outro clube e jogado melhor ou parado de jogar. Foi mais difícil por questão de estresse, não saber o que fazer. Não sabíamos o que aconteceria. E não foi por falta de qualidade, mas uma injustiça. É tudo um aprendizado. Temos que ter cabeça boa e aprender.

Daqui a dez anos ou dois, eu não serei mais o Ricardo Graça, zagueiro do Vasco, mas o clube continua e a torcida também

Como é a relação com o Vasco?
Em 10 anos de clube, eu fiquei apenas oito meses fora. Estudei aqui, me formei, passava o dia todo aqui. Conheço qualquer atalho de São Januário. Também tem o carinho da torcida. Quando você é da base, tem algo diferente. Te abraçam, aprendemos a história do Vasco. Hoje sou o Ricardo Graça, zagueiro do Vasco. As pessoas me param na rua, tiram foto, me mandam mensagem. Fui parado depois do clássico, e nem joguei. Minha namorada pediu para fechar o vidro porque tinha um pessoal batendo na janela, querendo tirar foto, mas eu falei que precisava dar atenção. Se não fosse por eles, o Vasco não estaria aqui, eu também não. Nós vamos passar. Daqui a dez anos ou dois, eu não serei mais o Ricardo Graça, zagueiro do Vasco, mas o clube continua e a torcida também. Não tem como eu perder um jogo e ficar feliz, ou não comemorar com a torcida depois de uma vitória.

O que fica de lembrança e de aprendizado daquele jogo na altitude da Bolívia?
Todo mundo jogou mal aquele dia, foi um desastre. Não conseguíamos passar do meio-campo, tomamos um gol de escanteio no qual o cara tinha feito o gol quando a gente ainda estava pulando. Foi bizarro, mesmo. Jogar na altitude é difícil. Era a minha primeira vez, a do Evander e do Paulinho também... naquele jogo especifico, eu nem ia jogar, acabou que joguei pela suspensão do Erazo. Mas o que ficou de positivo é que, às vezes, parece que você está no céu e, no futebol, as coisas são muito rápidas. Tínhamos feito dez gols sem tomar nenhum, em três jogos na Libertadores. Eu estava indo bem, mas perdemos lá de 4 a 0 e parecia que ninguém servia. Temos de saber que a torcida é assim: emoção. Comigo faziam montagem com o Ricardo Rocha, diziam que eu era o novo Mauro Galvão, que eu era o melhor zagueiro do mundo... depois do jogo eu não servia mais para o Vasco, era fraco. Ser jogador de futebol não é fácil. Eu sou o único de 1997 que está aqui até hoje. Recebi muita critica nesse jogo. Eu era novato, estava vendo o que falavam e é engraçado. Hoje em dia, depois que joguei bem contra Santos e Avaí, vejo alguns directs que me mandam e tinha gente que tinha me xingado antes dizendo "Te amo", "Melhor zagueiro do mundo". O aprendizado é esse: nunca se subestimar, mas saber também que tem muita coisa para melhorar. E eu falei uma vez, numa entrevista: "Não sou a solução do Vasco". É todo um conjunto. Eu preciso dos meus volantes e dos meus laterais marcando bem para eu me sobressair. O goleiro precisa que os zagueiros marquem bem o atacante para a bola ir melhor para ele. Tecnicamente, na altitude eu acho que não tem muito o que fazer. A perna cansa muito e a bola é muito rápida. O jogo mesmo fica feio de ver. Tem que estar acostumado, focado. Até fomos antes para tentar acostumar. Se eu fosse jogar lá de novo, nem eu nem ninguém ia jogar da mesma forma. Acho que, naquela hora, eu precisava de carinho, de não tirar ninguém, de não duvidar. Porque era o mesmo time que vinha vencendo. Contra a LDU, depois, também na altitude, falhei no gol, mas o Jorginho me bancou contra o São Paulo. Aí no primeiro lance, o Éder Militão cruza, eu vou zerar e a bola entra. A cabeça ficou como? Até minha mãe chegou a ficar preocupada. Mas acabou sendo dos meus melhores jogos naquele ano.

O Zé Ricardo, então treinador, falou que ia te tirar?
Ele já ia me preservar antes daquele jogo. Falou: "Vou botar o Erazo, que é mais experiente, Você nunca jogou na altitude". Ele foi me preservar, mas chegando lá o Erazo estava com uma suspensão e não podia jogar. Tenho certeza que não fez por maldade. Encontrei com ele agora, tem um mês, e ele falou que estava muito feliz de me ver jogando porque eu sempre trabalhei sério, firme, e ele não tinha dúvida de que eu iria assumir esse papel na zaga do Vasco. E ele estava muito feliz, disse que a palavra-chave para mim foi a paciência. Disse que eu tive, fui trabalhando quietinho, sem desmerecer ninguém. Ele disse que tinha certeza que ia acontecer isso. Não guardo mágoa nenhuma, é um cara que eu gosto muito. Eu acho que ele sofreu algumas injustiças. Ele e alguns treinadores sofreram injustiças. Um cara muito bom, treinos muito bons. Tenho certeza que, no próximo trabalho, a carreira vai deslanchar.

Qual característica do Luxemburgo chama mais atenção?
Em termos táticos, ele tem facilidade. É bola, entende muito. Às vezes ele vê uma coisa que você não vê, até de marcação, de pressão. Às vezes ele muda e o bom é que ele é muito aberto. Ele sempre fala, mas pergunta depois. "Está errado? Preferem fazer de outra forma?". Um cara que, além de falar, sabe escutar.

Como é a disputa entre os zagueiros pela titularidade?
Quando eu saí do time, o Vanderlei falou que não era nada técnico, que era porque o Castan tinha mais liderança, e ele é um líder nato mesmo, contagia o ambiente. É um diferencial em campo, nosso capitão. Outros zagueiros têm isso também. O Breno é um líder. É uma pena ele viver com tantos problemas físicos. Seria nível de seleção, capitão. O que o Breno joga é surreal. Inteligência tática, tempo de bola, virar em cima do atacante, não erra passe. Ele é um cara fora da curva. Dentre os que eu vi aqui, é um dos melhores, se não o melhor que eu vi aqui, jogando. Uma pena ter tido os problemas. Todo dia eu pergunto: "E aí, Brenão, vai treinar?". Espero que ele volte o mais rapidamente possível. Só tive coisas boas aqui, não tem vaidade. Todo mundo quer jogar. Em qualquer profissão, todo mundo quer mais. O mais importante é ser para o Vasco. Quando ganhamos um jogo recente, abri a janela do carro, bati foto, tomei banho de cerveja... a gente ganhou. É bom pra todo mundo, no final. Ninguém lembra quem jogou no Palmeiras, lembra que o Palmeiras foi campeão brasileiro. Ou quem jogou no Cruzeiro, lembra que eles ganharam a Copa do Brasil. Quem era o ataque do River Plate? Lembram que eles foram campeões da Libertadores. Isso é bom para todo mundo. Mas na briga por espaço, quanto mais jogarmos bem, mais obrigamos o outro a jogar bem também. Aqui não tem vaidade. Se tiver, o Vanderlei, na hora, vai dar um toque e isso acaba.

O que o Breno joga é surreal. Inteligência tática, tempo de bola, virar em cima do atacante, não erra passe. Ele é um cara fora da curva

O que você acredita que precisa evoluir e quem são suas referências?
Aprendi praticamente tudo aqui no Vasco. Sabia marcar de salão, mas, no campo, não sabia posicionamento do corpo, bola parada... aprendi praticamente tudo aqui. Antigamente era brincadeira. Jogava num campinho no Grajaú, na Light, mas não era profissional. Sempre tem coisa para melhorar. Estava treinando bater falta, lançamento, tenho que aprimorar posicionamento do corpo na hora de correr, bola aérea, correr contra o gol... nunca sabemos tudo. Minhas referências são o Luan, que me ajudou bastante. Planejo fazer um pouco do que ele fez: jogar aqui, me consolidar aqui... ele foi para o Palmeiras, eu não penso em sair do Vasco. Penso em ficar aqui. Se aparecer alguma coisa, vou conversar com a minha família. Tem que ser bom para os dois. É um clube que me acolheu. Internacionalmente, gosto muito do Sergio Ramos, que é um baita zagueiro. Gosto muito do Marquinhos, um cara que não é tão forte e tão alto. Eu e ele temos tudo contra. Assim como o Mauro Galvão. Tem que se superar, estar bem posicionado. Um cara que eu não conhecia até o ano passado, mas vi jogando de perto e virei muito fã é o Víctor Cuesta, do Internacional. Parece um meia que joga na zaga, arrastando bola, driblando, não erra um bote. Uma coisa espetacular. Sempre vejo jogo do Inter para ver se aprendo alguma coisa de habilidade. E ele é "humildão". Falei no jogo contra que fizemos, mandei mensagem, e ele falou: "Você jogou para caramba, continua assim que vai ter uma carreira brilhante". É um cara em quem eu me espelho, virei fã e ele retribui, comenta nas minhas fotos, eu comento nas dele.

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