De volta ao Brasil, campeã olímpica Fernandinha tenta se readaptar

- Matéria
- Mais Notícias
Aos 32 anos de idade e há cinco temporadas fora do Brasil, a levantadora Fernandinha já fazia planos para o restante, ou talvez final, da carreira. No entanto, uma ligação do técnico José Roberto Guimarães mudaria totalmente o rumo de sua vida.
A jogadora foi convocada pela primeira vez para defender a Seleção Brasileira no Grand Prix Feminino de Vôlei, em junho deste ano, competição que antecedeu os Jogos Olímpicos de Londres.
Era a chance de carimbar o passaporte. Com atuações de destaque, a atleta aproveitou a oportunidade e transformou-se na grande surpresa da lista final das convocadas que disputariam a Olimpíada com a amarelinha. Zé Roberto cortou a outra levantadora do grupo, Fabíola, que era praticamente nome certo, e chamou Fernandinha e Dani Lins.
Em entrevista exclusiva ao LANCENET!, a levantadora revelou bastidores da conquista e a emoção de vencer o ouro olímpico. De volta ao Brasil, a jogadora falou também sobre sua readaptação ao vôlei nacional, a constante luta contra as dores na coluna, as perspectivas para a temporada com o Amil/Campinas e os planos para o futuro, que podem incluir ou não os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016.
Confira a íntegra da entrevista concedida por Fernandinha ao LANCENET!:
LANCENET!: Você jogou cinco anos no exterior - quatro anos e meio na Itália e um no Azerbaijão. Como foi a experiência de jogar fora do país?
Fernandinha: A experiência foi muito boa para conhecer atletas de outros países que eu via só na televisão e é diferente jogar contra. E foi até um desafio pessoal, porque todo mundo falava que eu era baixa (a levantadora tem 1,73 m) e eu queria ver se eu realmente atrapalhava no bloqueio e eu vi que não era verdade. Então, para mim, foi muito bom, ver que eu poderia disputar tanto internacionalmente como no Brasil. Isso, para a minha confiança, foi muito bom.
LNET!: Quais as principais diferenças do estilo de jogo entre os países que jogou e o Brasil?
F: Elas estão mais acostumadas a jogar um jogo mais cadenciado, na maioria dos times, tanto na Itália quanto no Azerbaijão. A diferença é que, quando eu encontrei técnicos que gostavam de jogar um pouco mais rápido, eu consegui imprimir um pouco mais de velocidade, mas mesmo assim é um jogo mais cadenciado, tem essa diferença.
LNET!: Sabemos que a Itália é uma potência no vôlei e, tradicionalmente, tem uma liga forte. Mas como é o vôlei no Azerbaijão?
F: Eu não imaginava, mas, ano passado, foi a primeira temporada forte de verdade. Eles pegaram muitas boas atletas, inclusive aproveitaram a crise da Itália e muitas atletas foram embora e a liga do Azerbaijão ficou muito forte. Tinham apenas sete times, o que não era muito legal, sendo cinco times com reais chances de serem campeões e dois mais fracos. Mas foi um campeonato com nível alto e eu me surpreendi.
LNET!: Você já se considera adaptada na sua volta ao Brasil?
F: Não, ainda não. Principalmente no aspecto físico estou sentindo muita diferença. A quantidade de treinos é muito diferente. Lá era praticamente um treino e uma folga, aqui a gente acaba pedindo por folga. E, com relação à parte física, lá era duas vezes por semana. Aqui, todo dia. E eu estou aqui há apenas quatro meses. Cinco anos lá para quatro meses aqui, acho que meu corpo ainda precisa de um tempinho para se acostumar.
LNET!: Como foi saber da sua primeira convocação para a Seleção Brasileira, para a disputa do Grand Prix deste ano? Você ainda esperava por isso?
F: Não, não esperava mais. Quando eu recebi a ligação do Zé Roberto, eu já não esperava mais. Inclusive eu estava fazendo outros planos para minha vida, que não tinha mais nada a ver com Seleção, até me afastando um pouco, não do vôlei profissional, mas com outra metas. E, quando veio a notícia, foi uma surpresa muito grande, graças a Deus.
LNET!: Depois da boa atuação no Grand Prix, você foi a maior surpresa na lista do técnico Zé Roberto para a Olimpíada. Qual foi sua reação?
F: Quando eu fui convocada imaginei que ele quisesse alguma coisa diferente. Claro que eu não tinha certeza, mas imaginei que ele gostaria de me ter no grupo como uma opção para mudar o jogo, que era uma coisa que, de repente, a Seleção não tinha. Acho que meu jogo é diferente da Fabíola e da Dani Lins e acho que ele contava com isso. Então eu imaginava que, se eu estivesse bem, se eu jogasse bem o Grand Prix, ele me levaria, por conta disso. Nem que fosse para ficar no banco e fosse uma opção para inversão, eu imaginava isso. Mas só se eu estivesse bem. Não era certeza.
LNET!: Como foi a recepção do grupo que já estava praticamente formado?
F: Não pretendia fazer amizades ali. Eu fui para jogar e tentar ajudar a Seleção, então o grupo me recebeu normal, acho que não tive grandes problemas. Meu objetivo ali era voleibol, então estava tudo certo.
LNET!: O que passou na sua cabeça depois daquela derrota para a Coreia do Sul, que praticamente eliminaria o Brasil na primeira fase da Olimpíada? Como foi a conversa do grupo para superar aquele momento?
F: A gente se uniu mais ainda, principalmente dentro de quadra. Eu sei que agora que fomos campeãs é muito fácil falar, mas, quando estava acontecendo, as pessoas próximas de cada um de nós ali sabem que a gente não está mentindo. A gente não estava entendendo como aquilo estava acontecendo, porque nós sentíamos que seríamos campeãs. A gente falava: "A gente vai sair desse buraco, a gente não merece isso, a gente vai sair". E teve uma hora que a Jaque, chorando dentro do vestiário, falou: "Eu não estou chorando porque a gente perdeu e a gente está na lama. Eu estou chorando porque a gente vai conseguir ser campeão". Infelizmente não tem um gravador para mostrar, mas a gente estava com essa energia, essa confiança naquele momento.
LNET!: Você acredita que a equipe praticamente ganhou o ouro após aquela vitória épica contra a Rússia, após salvar seis match points? Foi a grande partida para mudar o rumo da competição?
F: Ali foi mais um pedacinho daquela medalha, porque contra a China também não foi fácil. Foi um 3 a 2 e a gente precisava ter ganho de 3 a 1 para depender só de nós. E, mesmo assim, a gente ganhou de 3 a 2, mas já deu confiança para fazer um jogo contra a Rússia, que não era fácil. Ter vencido a Rússia daquele jeito fez com que a gente sentisse que atropelaríamos quem viesse pela frente.
LNET!: Qual você acha que foi o grande trunfo para esta equipe levar o ouro?
F: Eu acredito que tenha sido a união de quando a gente tocou o fundo do poço, o que realmente aconteceu. A gente ter acreditado e você olhava no olho de todo mundo e via que todas continuavam acreditando. Então foi realmente a confiança em cada uma de nós.
LNET!: Você pensa em jogar na próxima Olimpíada, no Rio, em 2016? Como vê seu futuro na Seleção?
F: Eu vou ter 36 anos e acho complicado falar no futuro daqui a quatro anos. Eu evito falar um pouco. Hoje, meu objetivo é o Amil, minha família e, mais para frente, a gente vê o que vai acontecer.
LNET!: Mas a Fernanda Venturini jogou até os 40 anos...
F: Mas a Fernanda Venturini é a Fernanda Venturini, né? Eu realmente evito fazer planos. Vamos ver. Se eu tiver com condições, jogando bem e me sentindo bem fisicamente ainda, pode ser que sim, mas eu prefiro não dizer nada no momento.
LNET!: O Zé Roberto depositou confiança no seu trabalho e te chamou para os Jogos Olímpicos. Novamente vocês estão juntos e pela primeira vez em um clube, o recém-formado Amil/Campinas. Como é sua relação com ele?
F: Muito boa e é uma relação muito nova, também. Eu já tinha falado com o Zé na Itália quando eu jogava contra, mas apenas "Oi, tudo bem?" e "Tchau" e nunca tinha realmente trabalhado com ele. Estamos trabalhando há apenas três, quatro meses, então a gente ainda está se conhecendo. Ele me conhecendo e eu conhecendo a forma que ele gosta de jogar, então é um novo relacionamento para os dois, mas está indo muito bem.
LNET!: O que você espera dessa temporada com o Amil/Campinas?
F: Esse grupo é muito bom, um grupo guerreiro. A gente joga "manchetebol" nos treinos e ninguém quer perder, se matam para ganhar. Então eu acho que isso é uma qualidade muito positiva. Eu espero um ano muito bom e esse grupo vai crescer ainda mais.
LNET!: Como vê o nível das outras equipes brasileiras, que disputam o Campeonato Paulista e a Superliga?
F: Eu acho um nível bom, a gente sabe que são mais ou menos sempre aquelas mesmas equipes que são mais fortes, com chances de título e acho que quem tiver melhor mesmo vai ganhar. São quatro times mais ou menos em busca desse título. Mas sempre tem os azarões que vêm por fora e podem brigar. Ano passado, a Superliga foi super equilibrada, com jogos sensacionais nas fases finais. E eu acho que esse ano não vai ser diferente.
LNET!: Quando você pensa em parar de jogar?
F: Quatro anos atrás eu falei que ia jogar só mais um. Naquele um, eu falei que ia mais dois. Então eu evito falar, porque eu não sei. Meu corpo está me surpreendendo. Tenho problemas na coluna, mas hoje estou sabendo lidar, administrando, trabalhando bem. Então eu vou jogar até quando meu corpo permitir.
LNET!: Quais são seus problemas na coluna?
F: Eu tenho um desvio de vértebra na lombar, que se chama espondilolistese. É um escorregamento bem acentuado. E tenho três deslizamentos de vértebra no pescoço. Então eu tenho que ficar sempre me cuidando bem. Sofri muito nos primeiros anos na Itália, pela sequência menor de trabalhos físicos e pelo frio. Mas, de dois anos para cá, eu conheci pessoas que me ajudaram muito e eu consegui estabilizar as dores da coluna.
LNET!: Você consegue jogar sem dores?
F: Sem dores não. Hoje eu tenho 32 anos e é diferente o problema hoje do que há uns anos. Tem o tempo que vai agravando também, mas eu me sinto melhor, por exemplo, do que há cinco anos. E eu acho que se conhecer é importante. Faço pilates, me sinto bem forte e eu acho que, se eu me mantiver assim, eu vou decidir parar de jogar e não meu corpo. E é isso o que eu quero.
Com a palavra: José Roberto Guimarães - Técnico do Amil/Campinas e da Seleção Brasileira
"É uma levantadora que tem uma grande experiência, principalmente em nível internacional, já jogou cinco anos fora do Brasil. Como característica, é uma levantadora muito veloz, com uma velocidade grande no tocar na bola. Ou seja, a bola dela realmente viaja. O time, para jogar com ela, tem de ter uma perna rápida, movimentos rápidos, porque ela imprime essa velocidade e precisão, que eu acho que é o forte dela. Nesses quesitos ela pode ajudar muito. É uma levantadora que tem coisas muito importantes"
- Matéria
- Mais Notícias















