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'Sobre os custos, peço que vejam o todo', diz CEO do Pan de Toronto

Dia 01/03/2016
03:03

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O fato de Toronto sediar a edição mais cara da história dos Jogos Pan-Americanos não é motivo de preocupação para Saäd Rafi, diretor executivo do comitê organizador do evento canadense.

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CEO da entidade desde janeiro de 2014, o dirigente se baseia no legado que ficará para o Canadá para justificar os 2,4 milhões de dólares canadense (algo em torno de R$ 5,9 bilhões) provenientes de verba pública e privada. Deste montante, 1,4 bilhão será gasto pelo comitê.

Nos últimos meses, o Canadá viveu algo parecido com o que o Brasil passa neste momento, com a preparação para a Olimpíada Rio-2016. Lá como cá, os gastos com arenas e outras obras foram criticadas pela opinião pública.

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No entanto, em entrevista concedida ao LANCE! ontem em Toronto, Rafi preferiu exaltar os benefícios que a comunidade e o esporte canadense terão daqui em diante.

Saäd Rafi, diretor executivo do Pan de Toronto, entrou no comitê organizador em janeiro do ano passado (Foto: Divulgação)

O diretor executivo não quis dar conselhos ao Comitê Rio-2016. Mas disse que, pelo fato do Canadá começar a erguer suas instalações com antecedência (algo não feito no Rio), isso ajudou para que o Pan conseguisse começar dentro dos eixos. Confira a entrevista abaixo:

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LANCE!: Até o momento, qual avaliação você faz dos Jogos Pan-Americanos de Toronto?
Saad Rafi: Em primeiro lugar, posso dizer que estamos emocionados com a resposta que estamos tendo do público. Acho que o evento começou a entrar de vez na mente das pessoas no início do revezamento da tocha pan-americana. E então, a tocha chegou a Toronto nos cinco dias prévios ao início das competições, e houve a cerimônia de abertura, que foi um lindo show. Ali as pessoas começaram a observar e dizer "vai acontecer algo especial aqui". Em segundo lugar, o time canadense está indo muito bem nas competições, o que motivou as pessoas a quererem participar. Para assistir aos Jogos, o preço é razoável também, com ingressos mais baratos a 20 dólares canadenses (cerca de R$ 50), com meia-entrada para menores de 16 anos e maiores de 65. Você utiliza seu ingresso para pegar o transporte público de graça. Nós não poderíamos estar mais orgulhosos.

L!: Em termos de venda de ingressos, qual foi o impacto que vocês tiveram?
SR: Há dois dias (domingo), alcançamos 1 milhão de ingressos vendidos. Foi um ótimo recorde para nós. Nossa carga total é de 1,2 milhão para o Pan, e 200 mil para o Parapan.

L!: Então, 200 mil ingressos ainda estão disponíveis.
SR: Na verdade, sobraram entradas para as preliminares do futebol. Nós não iríamos conseguir encher um estádio de 23 mil lugares para aquelas partidas. Nossa meta é chegar a 1,1 milhão até o fim dos Jogos.

L!: Como você disse, o Canadá está tendo bons resultados no Pan. Qual o tamanho do impacto disso em termos de audiência?
SR: Desde que o Canadá foi escolhido para sediar o Pan, a proposta era de enviar o melhor time possível para a competição. Este deve ser o maior time canadense que já disputou uma competição. Mas não foi somente o Canadá que veio com uma equipe forte. Países como Brasil e Cuba também trouxeram muitos competidores de alto nível. E isso faz a competitividade crescer. Houve um jogo entre Peru e Canadá no vôlei masculino em que o número de torcedores peruanos era maior do que o de canadenses. O fantástico é que muitos países têm gente aqui assistindo.

L!: O que você acha que o Pan apresentou de positivo?
SR: Uma das coisas que corresponderam as expectativas foram as arenas em si e o campo de jogo. Ficamos muito contentes com isso. Todas as pessoas com quem eu falei, sem exceção, falaram que a Vila dos Atletas está em um nível olímpico, e fica no centro da cidade, o que é uma ótima combinação. É bom ter esse tipo de feedback, pois tudo o que fazemos é pelos atletas e treinadores. Mais de 50 recordes pan-americanos foram batidos. Tivemos uma piscina muito rápida no Centro Aquático, alguns nadadores olímpicos competiram ali e disseram que era uma piscina no nível das melhores do mundo.

L!: E o que você acha que poderia ter sido melhor em termos de organização?
SR: Como um comitê organizador, você sempre tenta consertar aquilo que não saiu como planejado. Passamos muito tempo organizando tudo, mas a questão do transporte sempre é um desafio nos primeiros dias. Tenho orgulho de nossa equipe, alguns trabalham a noite inteira para que tudo esteja pronto na manhã seguinte, especialmente no centro de transportes na Vila dos Atletas, para que eles não tenham um estresse desnecessário, cheguem a tempo para o aquecimento e deem o seu melhor. Acho que agora estamos em 98% de nossa efetividade, o que é um número padrão para o Comitê Olímpico Internacional (COI). E quando digo 98%, isso representa que os ônibus não cheguem não mais do que cinco minutos depois do combinado. A maior parte dos atrasos são de sete a oito minutos. Sempre podemos fazer melhor, e continuamos a trabalhar para isso.

L!: Vocês fizeram algum tipo de ajuste no transporte durante o Pan?
SR: Sim. Por exemplo, nós temos um sistema em que as equipes podem solicitar ônibus previamente para treinos, especificando o horário e o dia que desejam o transporte. Isso tem funcionado, mas às vezes os times não fazem esse pedido, e aparecem lá querendo pegar um veículo. Então, para isso, colocamos ônibus de 15 em 15 minutos. Se um arqueiro aparece para pegar um ônibus para treinar e tiver perdido o último transporte, 15 minutos depois ele terá transporte disponível.

L!: Por que o comitê organizador escolheu colocar as arenas em diversas cidades? Tem a ver com a divisão de custos com as cidades-sede?
SR: Não foi isto o que guiou nossa decisão. Aqui costumamos dizer que há uma Grande Toronto. Aqui as pessoas saem de casa de outras cidades para trabalhar em Toronto. É o que acontece em muitas outras cidades do mundo, como Washington e Nova York. Outra razão para isso foi dividir a oportunidade de construir arenas que não sirvam apenas para treinamento de atletas, mas que fiquem para as comunidades. Meu exemplo favorito é o Velódromo. É uma arena bastante específica, que fica em Milton. Esta cidade tem uma comunidade ciclística incrível. A arena foi aberta em janeiro para o público, e vive sempre cheia, desde a manhã até a noite. Não há mais lugar para pedalar lá. Todas as reservas de horários ficam preenchidas. E a arena tem três quadras de basquete para crianças, nos fins de semana. Foi uma grande ideia espalhar o evento por cidades vizinhas e também em universidades.

Ciclistas pedalam no velódromo pan-americano localizado na cidade de Milton (Foto: AFP/Geoff Robins)

L!: O legado está focado nas comunidades, nos atletas, ou é uma mistura?
SR: É um pouco de cada. Novamente o Velódromo, ele será a casa do ciclismo canadense. Atletas e treinadores se mudaram para Milton. O Centro Aquático será a sede do Instituto de Esportes de Ontário, que servirá para treinos de reabilitação de alta performance. Os esportes paralímpicos também farão parte desse legado. Nos esportes de inverno, tivemos bons legados depois dos Jogos de Calgary (em 1988) e Vancouver (2010). Mas o legado atual dos esportes de verão era bem anterior, da Olimpíada de Montreal (em 1976).

L!: De onde surgiu a ideia de colocar a pira do Pan de Toronto no meio de uma praça, destoando de outros grandes eventos esportivos?
SR: Realizamos a festa de abertura no Rogers Centre, um estádio grande o suficiente para fazer uma cerimônia de impacto, e que possui cerca de 45 mil assentos. Por isso escolhemos esse local. Depois que decidimos por esse estádio para as cerimônias, vimos que não havia como deixar a pira lá, pois o Toronto Blue Jays (time de beisebol que atua no Rogers Centre) jogaria lá durante o Pan. Ao mesmo tempo, queríamos uma pira que as pessoas pudessem compartilhar. Vimos a pira que foi feita para a Olimpíada de Inverno de Vancouver, que também foi nesse modelo. Fizemos uma pira bonita que está chamando a atenção, especialmente à noite.

L!: O Pan de Toronto será o mais caro da história, com um custo de 1,4 bilhão de dólares canadenses (valor que não conta a Vila dos Atletas, e alguns serviços) e recebeu críticas da imprensa canadense por isso. Qual foi sua reação diante disso?
SR: Eu não sei quais foram os custos das edições anteriores. Sempre fomos transparentes quanto a isso. E nós sempre enfatizamos a questão do legado. Você tem que ver o que ficará, como as instalações. Gastamos 57 milhões de dólares canadenses a menos do que prevíamos, quase 10% do valor destinado para as construções de arenas. Arrecadamos impostos, incentivamos o turismo espotivo. E estas instalações ficarão para as comunidades, em lugares onde as pessoas gastarão com comida e compras. Construímos um estádio em Hamilton, sendo que a última vez que algo semelhante foi erguido lá aconteceu em 1930, para os Jogos da Comunidade Britânica. Sempre que falam sobre esses problemas, eu sempre digo para olharem para o todo, não apenas para os custos mas também para os benefícios.

L!: Você tem algum conselho para o comitê organizador da Olimpíada Rio-2016?
SR: O Brasil tem um histórico de eventos, com o Pan de 2007. E agora também com a Copa do Mundo e a Olimpíada de 2016. A Olimpíada de Verão tem mais de 200 países, é um evento muito grande. Aqui são apenas 41, das Américas e do Caribe. Não acho que estou muito qualificado para dar conselhos a Carlos Arthur Nuzman e sua equipe. Eles têm uma experiência muito vasta. O que eu sei é o que eu fiz. Não tenho créditos sobre o que foi feito antes da minha chegada ao comitê de Toronto. Mas o que me deixou satisfeito foi quão cedo as instalações começaram a ser construídas (em 2010). A Vila foi entregue em fevereiro, quase seis meses antes dos Jogos começarem. Isso nos ajudou muito a fazer os eventos-teste. Fizemos teste até na Vila, assim como no Velódromo. Tivemos atrasos em algumas arenas, mas cada situação é diferente uma da outra. Se fôssemos repetir tudo de novo, com certeza iniciaria as obras bem cedo, como fizemos aqui.

L!: Você acha que Toronto pode receber uma Olimpíada no futuro?
SR: Sei que o Comitê Olímpico Canadense e seu presidente, Marcel Aubut, é um grande entusiasta para ter uma Olimpíada de Verão no Canadá outra vez. Acho que ele é bastante positivo para que Toronto seja uma sede olímpica. Ele é um grande apoiador e líder do esporte neste país. Deixo nas mãos do comitê canadense e outros líderes para dizerem o que podemos ou precisamos fazer para isso. A Agenda 2020 do COI tem agora uma visão clara para o futuro, em que não se exigirá campanhas milionárias para sediar uma Olimpíada. Isto é algo inteligente e visionário. Mas não cabe a mim decidir.

L!: De qualquer forma, isto é um assunto em pauta no Canadá?
SR: Sim. O prefeito de Toronto (John Tory) já fez perguntas a respeito disso. Mas em primeiro lugar precisamos fazer uma boa edição dos Jogos Pan-Americanos. Queremos fazer isso, e bem. O prefeito também é um entusiasta desta ideia. Mas, repetindo, há outras pessoas que podem falar melhor sobre isto.

L!: O Pan de Toronto também está sendo marcado pelo alto número de casos de doping. Como está sendo o trabalho em conjunto com a Odepa e a Wada neste sentido?
SR: Em uma entrevista na semana passada, houve uma entrevista coletiva com membros da Odepa, em que eles explicaram da melhor forma esta situação. Estamos fazendo exames em um número dentro dos padrões internacionais, em testes antes e durante as competições. Houve uma revisão das substâncias que constam na lista de itens proibidos. É um mundo que deixo nas mãos de quem o regula.

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