Maratona de risco: lutadores são expostos ao perigo

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A morte de Jefferson Gonçalo, aos 39 anos, no dia 6 de outubro, lançou luz à rotina da maior parte dos pugilistas que vivem à margem da elite do boxe no Brasil. Muito distante de casos excepcionais, como Acelino Popó Freitas, a maioria dos profissionais fazem pelo menos uma luta por mês e aumentam o risco de tragédias como a de Jeca, que morreu quatro dias após passar mal durante o combate com Ismael Bueno, em Salto, a 104 quilômetros da capital São Paulo.
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O fato suscitou crítica de Popó a respeito da maratona, dias após o óbito de Jefferson ser confirmado. Supercampeão mundial dos pesos super-pena e leve, entre 1998 e 2004, o ex-boxeador disse ser um absurdo que entidades permitam e que pugilistas se submetam a esse risco.
– Popó foi um dos que ligaram. Mas ligar e abrir a boca para falar um monte de besteira... Ele disse que lutava duas vezes por ano (antes de encerrar a carreira) e que meu irmão não podia ter lutado 36 ou sei lá quantas vezes. Mas vê se no início da carreira, quando ele ainda era desconhecido e não tinha patrocinadores fortes, era assim? – disse Natal Gonçalo Neto, irmão e treinador de Jefferson, ao ser questionado se alguma personalidade do boxe havia entrado em contato.
De acordo com o cartel de Popó registrado no site Boxrec.com (reconhecido pelas principais entidades do esporte), ele fez 17 lutas nos três primeiros anos de carreira, até conquistar o primeiro cinturão. Mas no auge da carreira, entre 2001 e 2004 (dos 26 aos 29 anos), participou de uma ou duas lutas por ano.
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Também nas suas três primeiras temporadas, Jefferson disputou as mesmas 17 lutas – também de acordo com o site. A diferença é que, de janeiro de 2007 a 6 de outubro deste ano (dos 36 aos 39 anos), atuou em outros 20 combates.
Quase sempre, é o próprio pugilista o responsável pelo acompanhamento da carreira e da saúde.
– A maioria das entidades do boxe solicita exames periódicos em janeiro e eles têm validade de um ano. Jefferson havia apresentado o dele, além de ter feito outros, porque tinha muitos cuidados com a saúde. E até passava isso para os alunos (da academia onde dava aulas) – diz Reinaldo Carrera, presidente da Liga Paulista de Boxe.
Jefferson havia lutado dois meses antes
Jefferson Gonçalo teve um intervalo de 55 dias para se recuperar da última luta que havia feito, em Buenos Aires, no dia 7 de agosto. Ele perdera para o argentino Diego Gabriel Chaves, de 24 anos, por decisão unânime dos jurados, após 12 rounds de um duro combate.
Chaves vinha de 14 vitórias em 14 lutas, sendo 12 por nocaute. Ele voltou a lutar no último dia 30, e venceu por nocaute técnico o colombiano Jose Mosquera.
Segundo o presidente da Liga Paulista de Boxe, Reinaldo Carrera, como Jeca havia perdido por pontos, o prazo de 55 dias era suficiente para que ele participasse de um novo combate:
– Ele perdeu por pontos e foi lutar em outubro, dois meses depois. Nada fora do normal. Foi uma fatalidade.
Exames extras, além do exigido anualmente, são solicitados aos pugilistas só em caso de derrota por nocaute.
Bate-Bola com Natal Gonçalo (irmão e ex-técnico de Jeca)
L!: Ele estava com 39 anos. Estava com planos de parar de lutar e começar a promover lutas?
Natal Gonçalo: Sim. Se não fosse a última luta, aquela (contra Ismael Bueno) seria uma das últimas. Aquele evento daria um bom rendimento. Além da luta dele, outros garotos da academia iriam lutar.
Jefferson Gonçalo dava aulas em academia de Salto e já havia profis-sionalizado alguns de seus alunos. Era o terceiro evento que ele havia organizado em parceria com a Liga.
L!: E como reagiram os alunos da academia onde ele dava aulas?
N. G.:Está um pouco complicado por enquanto. Com essa situação, mais de 80% dos alunos se afastaram da academia. Aos poucos, a gente espera que tudo volte ao normal.
L!: Alguma personalidade da elite do boxe ligou para você ou para a família?
N. G.: Popó ligou. Mas ligar, abrir a boca para falar um monte de besteira... Ele disse que lutava duas vezes por ano e que meu irmão não podia lutar 36 ou sei lá quantas vezes. Mas não dá para comparar. Meu irmão buscava o lugar dele ao sol, nunca teve patrocínio. Popó tinha um patrocínio forte à frente dele. O que Popó falou é ridículo. Deixou a gente muito chateado. Por que ele não tenta lembrar como era no início da carreira dele, quando não tinha patrocínio nem dinheiro sobrando? Paciência!
Vítima pode ser campeão ou amador
Frankie Campbell (EUA)
Peso pesado – agosto/1930
Morreu em decorrência da luta contra o compatriota Max Baer. No filme "Luta Pela Esperança" (2005), que conta a história do boxeador norte-americano Jim Braddock, Baer é apresentado como assassino impiedoso.
Becky Zerlentes (EUA)
Amadora – abril/2005
Professora de geografia econômica, morreu em decorrência de nocaute no terceiro round em luta com a compatriota Heather Schmitz
Cho Yoi Sam (CDS)
Peso mosca – janeiro/2008
Morreu uma semana depois de ter vencido o indonésio Heri Amol, em decorrência de derrame que sofreu após a luta na qual defendia o título pela Organização Mundial de Boxe.
Daniel Aguillón (MEX)
Peso pluma – outubro/2008
Morreu cinco dias depois de ter permanecido em coma induzido, em decorrência de nocaute na luta contra o compatriota Alejandro Sanabria.
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