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Jorginho: 'É hipocrisia dizer que não estou nem aí'

Cassano - Milan x Fiorentina (Foto: Giuseppe Cacace/AFP)
imagem cameraCassano - Milan x Fiorentina (Foto: Giuseppe Cacace/AFP)
Dia 28/10/2015
06:04

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No futebol, o espaço entre o céu e o inferno é um triz. Bem sabe Jorginho, técnico da Portuguesa, que atualmente disputa o Paulistão Chevrolet e a Copa do Brasil, mas vive situação difícil em 2012. Após o título incontestável da Série B do Campeonato Brasileiro do ano passado, com extrema folga na liderança em relação aos adversários, a Lusa ainda não se acertou nesta temporada.

No Paulistão, a equipe que enfrenta o Linense neste sábado, no Canindé, ainda luta contra o rebaixamento à Série A2. Na última rodada, no próximo domingo, visita o Mirassol. Já na Copa do Brasil, enfrenta o Juventude-RS nesta quinta-feira, também em casa, tendo que reverter a derrota sofrida por 2 a 0 em Caxias do Sul, para avançar à terceira fase da competição.

Outro episódio abalou o clima entre jogadores, comissão técnica e diretoria. Seis jogadores treinam separados do grupo desde segunda-feira, após pedido da diretoria do clube, que alegou "falta de comprometimento aos treinamentos". O Sindicato de Atletas Profissionais do Estado de São Paulo (Sapesp) já notificou o clube e pede a reintegração dos jogadores ao elenco. Caso contrário, punições previstas na Constituição Federal poderão ser aplicadas.

Antes incontestável, a 'Barcelusa' gera críticas e desconfiança dos torcedores, que estão afastados das arquibancadas do Canindé. Mas, segundo Jorginho, é algo que deve ser encarado com normalidade.

- O que acontece é que, se você perde uma engrenagem, já era. A máquina pode não funcionar do mesmo jeito. A cobrança atrapalha - revela o treinador.

Jorginho, em entrevista exclusiva ao LANCENET!, falou sobre o momento conturbado que vive a Lusa, traçou metas para a sequência decisiva e falou sobre seu futuro no clube e na profissão.

LANCENET!: Qual foi o primeiro objetivo traçado para 2012 ao ser campeão da Série B? Recebeu muitas propostas de outros clubes?
Jorginho: Tentar sempre melhorar em relação ao que faço em uma competição passada. Independentemente se foi boa, ruim ou média, tem sempre que melhorar. Não tive propostas, pois primeiro tive que resolver com a Portuguesa. Aqui eu não fiz contrato, achei que não tinha necessidade. A diretoria concordou. esse ano eles queriam fazer um contrato, e eu também quis, pois não vou ficar a vida inteira. Quando eu sair daqui, eu posso querer voltar, e não quero ter problemas agora.

LNET!: Para você, qual foi o principal mérito da Portuguesa na Série B em 2011?
J: Acho o seguinte, o treinador é uma coisa na qual eu não consigo ver mérito. Quem jogam são os atletas, o mérito é totalmente dos atletas. A gente dá uma idéia, eles compram e executam direitinho. Quando nao conseguem, a culpa é de todos, mas principalmente do treinador. Uma coisa que aconteceu ano passado conosco, será dificil de acontecer com qualquer equipe. Eram jogadores desconhecidos, e quando esses jogadores são bons, vão embora. Quando não tem jogador, ninguem é mágico, não consegue fazer nada sozinho. O treinador tem pouca porcentagem. Mérito da diretoria também, que acreditou.
Tem que conseguir administrar a vaidade dos jogadores, que não é fácil. seja em time grande, com pouco ou muito dinheiro, seleção, não importa. Aquele grupo não tinha vaidade.

LNET!: Então a Portuguesa de 'ressaca'?
J: Acho que saíram muitos atletas daqui, que foram felizes. E os outros que chegaram não conseguiram ser felizes também. Talvez alguns tenham começado o ano de forma legal, ganharam um amistoso, ai acharam que poderiam ganhar um pouco mais. Os adversários, principalmente do interior, são formados por muitos jogadores que estavam na Série B e que perderam pra gente. Talvez entravam falando que os 'os caras são feras' e o nosso time achou também que podia ganhar sempre. Como em alguns jogos que poderíamos ter ganho, e não conseguimos por um erro ou outro. Isso deixou eles inseguros, aí começou a complicar um pouquinho.

LNET!: E o afastamento dos jogadores?
J: Ninugém afastou de fato. A diretoria fez um pedido, e por mais argumentos que eu tentasse impor, os resultados não estavam de acordo. Estamos tristes, mas estamos treinando normalmente. Hoje, por exemplo (sexta-feira santa), ninguém gostaria de treinar, mas jogamos com 10 na quarta-feira (contra o Juventude, pela Copa do Brasil) uma boa parte do jogo e o desgaste foi complicado pra jogar amanhã.

LNET!: Como você lidou com a perda de peças importantes do time de 2011, como o meia Marco Antônio, apontado como o armador da equipe?
J: O Marco foi bem porque ficou aqui durante três anos. Ele colocou na cabeça, em uma conversa que tivemos, que ele tinha que se dedicar à profissão dele, pois estava ficando próximo da idade e teoricamente ficaria mais lento . Estava há três anos na Portuguesa e precisava ganhar alguma coisa. Aí ele se dedicou ao máximo. Quando há alguém que possui uma certa experiência em relação aos os outros atletas mais jovens, a responsabilidade destes desaparece. Naquele Santos com Neymar e Robinho, os jogadores mais simples jogam sem responsabilidade. Eles começam a jogar bem, mas quando têm que ter responsabilidade, é difícil pois a cobrança é muita. Tem atleta que não aguenta. Todos que vieram jogar aqui, nós achamos que são bons jogadores, mas alguns infelizmente não dão certo.

LNET!: Como lidaram com o apelido de 'Barcelusa'?
J: Nem ajudou nem atrapalhou. Colocamos na cabeça que não era isso, tínhamos nossa limitações. Se nós conseguíssemos correr e nos igualar à força dos adversários, daria certo. Tivemos muito tempo para trabalhar. A única peça que chegou depois foi o Edno. Os outros já estavam, e nós tínhamos um bom entrosamento. De fazer jogada, insistir na jogada. Um padrão de jogo. O que acontece é que, se você perde uma engrenagem, já era. A máquina pode nao funcionar do mesmo jeito. A cobrança atrapalha. Incomoda a qualquer um. Ninguem gosta de ser cobrado pois somos seres humanos. É hipocrisia falar eu não estou nem aí. É mentira, p...! Ninguém gosta, ninguém faz para perder. E ninguém desaprende. Você elogia A, B e C, e depois critica falando que o cara não sabe. Essas coisas só acontecem pois o futebol é muito exposto.

O futebol você joga com o coração, e muitas vezes não é só isso. Você tem que ter razão. As pessoas têm de compreender que uma pressão dessa, custa muito para vida de outra pessoa. Tem torcedor que morre no estádio de enfarto. O futebol não foi feito para morrer, foi para nos divertimos e também vivermos dele. Não podemos viver apenas do trabalho. Não existe coisa mais importante na vida que o ser humano. As coisas só existem porque o ser humano existe. Talvez eu esteje na contramão, mas não consigo pensar de outra forma.

LNET!: E a torcida, que anda sumida...
J: Estão tristes e chateados. A pior coisa para nós é eles se manterem longe do estádio. Tem gente que xinga, eles ficam putos e vão embora. Mas quando você não vê ninguém, é como um artista entrar no palco e não ter plateia. O gostoso no futebol é ter bastante gente, o nosso torcedor está incomodado e preocupado. Estamos reciosos, pois, volto a dizer, somos seres humanos.

LNET!: Como fazer os jogadores manterem o foco em uma sequência de jogos tão decisiva?
J: Eles têm que aprender, apesar de alguns serem jovens e outros mais velhos, que no futebol existe uma pressão tamanha, que se eles não lidarem com isso da melhor maneira possível, não vão conseguir jogar. Os mais velhos não vão conseguir esticar a carreira em bons times, e os mais jovens não vão chegar lá na melhor fase, que para mim é dos 25 aos 32. Tem coisas absurdas que acontecem, como o Messi e o Neymar. Para mim, são como Ronaldo e Romário, é difícil você ter explicação. Os jogadores 'normais' conseguem a maturidade nessa idade. Eles tem que aprender com o momento.

LNET!: Em uma carreira tão curta, como é ver o outro lado da moeda de uma hora para outra?
J: Já vi isso como jogador. Uma vez me falaram: "Jorge, agora vc é treinador, que maravilha". Não, eu não sou treinador e sim estou treinador. O técnico nunca fica, ele está. Pois quando os resultados não são bons, ele vai embora. Quando são, ele é gênio. Eu não me preocupo com isso, vi tantos treinadores maravilhosos serem execrados, e depois vangloriado por aquelas mesmas pessoas. Fazer é muito mais difícil que falar, há momentos em quais não conseguimos fazer.

LNET!: Que lição você tira deste momento conturbado?
J: A lição que fica é que cada vez fico mais experiente. Descobrindo características de atletas que eu não queira lá na frente, ou algum que eu não quis pegar e depois me arrependi. Ir sempre aprendendo, nas horas boas e ruins.

LNET!: Cumprirá o contrato até o final?
J: Se tudo der certo, sim. Se não for bom para a Portuguesa, não. Se eles acharem, como continuam achando, que está sendo bom, não tem problema nenhum errar, faz parte de qualquer trabalho. Erramos hoje, quem não garante que podemos acertar amanhã? Ninguém garante que estará vivo no outro dia. Como eu vou saber, se amanhã não sei se estarei vivo? Por exemplo, estava com minha mãe no hospital de manhã, e as cinco horas da tarde minha irmã me ligou e disse: "vem pra cá rápido que a mamãe está indo". Cheguei, e algumas frações de segundo após isso ela veio a falecer. Quem somos nós para falar alguma coisa no futebol ou na própria vida? A tendência é que eu fique, até a Portuguesa achar que não.

LNET!: E seu próximo objetivo?
J: Levar o mais possivel, tenho 47, devo trabalhar como técnico até os 62. Tenho 15 anos de carreira. Depois começo a ficar antiquado, velho resmungão, e logo eu que já sou resumungão (risos). Tenho que viver um pouco, o futebol acaba com a sua vida, acaba com a sua chance de viver um pouco, nos priva de muita coisa. Você não sabe se volta para ter essas coisas. Se vc volta, volta de outra forma. Para essa vida eu não volto mais, pode ser que no dia em que eu pare de trabalhar, eu venha a falecer no dia seguinte. Mas a ideia é essa, esticar minha profissão ao máximo possivel

LNET!: Não pensa em Seleção Brasileira?
J: O que eu não consigo é me ver na Seleção Brasileira. Já tenho que dar satisfação à uma torcida. Imagina tem que dar satisfação à um pais todo? Amanhã pode ser que eu mude, mas infelizmente eu não consigo. Acho que realmente eu tenho muitas qualidades, mas essa aí, não. Não consigo me ver, não dá. Encontrei o Mano (Menezes) no aeroporto, o meu dirigente perguntou para ele: "e a nossa Seleção?". Acha que eu vou ter paciência pra isso (risos)? Não não, quero trabalhar e viver dia a dia.

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