Guardiola: uma obsessão no caminho do Santos

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Para ser tricampeão mundial no domingo, o Santos terá de vencer uma obsessão. Considerado um dos melhores técnicos do mundo na atualidade, Guardiola chega a assustar pelo desenfreado desejo por vitórias.
Metódico e fissurado por organização, Guardiola virou o Barça do avesso. Até assumir a equipe principal, em 2008, sua experiência como treinador se resumia a um ano à frente do time B. Ainda assim, assumiu responsabilidades ligadas até à estrutura do clube.
Foi a mando dele que as obras do CT de Sant Joan Despí foram apressadas. Contratado em julho de 2008, determinou que a inauguração acontecesse em janeiro.
Um dos pilares do técnico em seu trabalho é a privacidade. A seu ver, era fundamental tirar os treinos do Camp Nou, onde aconteciam aos olhos de todos. No CT, possui campo exclusivo e fechado. Jornalistas podem acompanhar apenas 15 minutos – os do aquecimento.
A relação com a imprensa, aliás, revela outra forte característica sua: o espírito democrático. Em três anos e meio, Guardiola concedeu apenas uma entrevista exclusiva, à Fifa. No vestiário, não é diferente. Um de seus segredos para gerir egos de astros mundiais é proibir regalias. Nem Messi tem privilégios.
Os benefícios são compartilhados por todo o grupo. Por exemplo, o fim da concentração na véspera dos jogos. Como forma de retribuição à confiança que tem do elenco, Guardiola permite que, antes das partidas, os jogadores façam o que bem entender. Acredita que ele seguirão outro valor que guarda: o bom senso.
É possível ver dentro de campo os mesmos princípios que o treinador aplica fora dele. Uma das primeiras coisas que disse ao elenco barcelonista foi que, em sua equipe, todos correm. Seu ideal de jogo se baseia na coletividade, em que o talento individual é apenas um complemento.
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A proposta vem de sua passagem anterior pelo Barça. Durante os 17 anos em que foi jogador do clube, absorveu a necessidade do jogo bonito. Não por uma questão de estilo, mas por verdadeiramente acreditar ser o caminho mais curto para a vitória.
De fato, parece ser. Em três temporadas, Guardiola levantou três títulos espanhóis e dois europeus, além de outros sete canecos. Todos frutos de uma obsessão.
Obsessão desde garoto
A personalidade vencedora de Guardiola vem desde garoto. Quando tinha 15 anos, foi eleito o melhor jogador de um torneio em Sant Gabriel. Recebeu o troféu das mãos do presidente do governo catalão, Jordi Pujol. O menino chorava, mas não de emoção: na última partida, havia perdido um pênalti.
– Ele vive tudo intensamente, é pura paixão. Ele é assim. A paixão é seu elemento de vida desde pequeno – conta Juan Manuel Lillo, técnico e amigo de Guardiola desde os tempos de jogador.
"Intenso" resume bem a relação entre Pep, como é conhecido, e Barça. Chegou com 13 anos ao clube, onde literalmente viveu e pelo qual atuou até os 30 anos.
Hoje, seu discurso transparece claro orgulho e respeito pelo Barça, do qual herdou valores como caráter, compromisso e identificação com a cultura catalã.
– Ele está no Barça há muito tempo, possui grande identificação, entende o clube. Sua passagem anterior foi uma etapa importante para chegar ao Guardiola de hoje – afirma Nadal, ex-zagueiro e companheiro de clube.
Pep se via dirigente
Antes de ser técnico, Guardiola quase foi dirigente do Barça – ideia que lhe agradava mais do que o banco de reservas. Em 2003, recém-aposentado, o ex-volante foi convidado para a candidatura do publicitário Luis Bassat à presidência do clube. Pep seria diretor esportivo, caso a chapa saísse vencedora.
Bassat foi derrotado por Joan Laporta, eleito para o primeiro de seus dois mandatos à frente do Barça. O dirigente, curiosamente, foi quem contratou Guardiola para assumir a equipe principal, em 2008. Porém, só tomou a decisão após ser persuadido por seu estafe.
Laporta pretendia contratar um técnico mais experiente. Chegou, inclusive, a enviar emissário para conversar com José Mourinho, hoje no rival Real Madrid.
Dentro do clube, a pressão era pela contratação de Guardiola. Em seu único ano no time B, reorganizou sua estrutura e levou-o à Terceira Divisão. O trabalho era considerado impressionante. Pesava contra Pep a inexperiência, que em momento algum o atrapalhou.
– Fala-se muito em falta de experiência, mas, para mim, contra talento não tem argumento. O talento dele supria qualquer necessidade – elogia o ex-lateral Sylvinho, jogador do Barça até 2009.
Caso de doping 'resume' treinador
Para o amigo Juan Manuel Lillo, um episódio define com perfeição quem é Guardiola. No início de 2002, o então volante do Brescia, da Itália, foi suspenso por quatro meses após ser flagrado em exame antidoping por uso de nandrolona. Sete anos depois, o já técnico provou sua inocência.
Guardiola foi pego em testes feito após partidas contra Piacenza e Lazio, em 2001. O espanhol negou desde o início o uso da substância e lutou por sua inocência, mesmo após cumprir a suspensão.
Em outubro de 2007, a Justiça italiana acatou pedido de revisão da sentença. Dois anos depois, o Tribunal Nacional Antidoping da Itália confirmou a absolvição de Pep.
– Ele demonstrou ser homem, lutou até conseguir provar que era inocente. Esse é Pep! – afirma, emocionado, Lillo. – É uma pessoa muito íntegra. Muito se fala dele agora que ganha. Vivemos esse problema de só se falar bem quando se ganha.
Em março de 2010, Guardiola foi multado pela Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) em 15 mil euros (R$ 36,3 mil) por supostamente chamar um árbitro de mentiroso. O técnico negou a ofensa. Imagens de TV apoiaram Pep. Em setembro, a punição caiu para 1,5 mil euros (R$ 3,6 mil).
Fora de campo, outro Pep
A concentração à beira do campo e o foco no trabalho deixam a impressão de que Guardiola vive apenas de futebol. Errado. Amigos contam que, ao contrário do que se pensa, o treinador consegue, sim, se desligar do ambiente profissional.
Pep, dizem, é aficionado por cinema e literatura. Inclusive, vive os hobbies da mesma forma que o trabalho: intensamente. Um deles lhe rendeu uma relação de 22 anos. Interessado por moda, Guardiola conheceu sua esposa numa loja de grife, ainda jovem. Juntos, o casal tem três filhos.
Seu semblante no meio futebolístico também é distinto do que exibe diante dos amigos. Ao invés de fechado e calado, Pep é extrovertido e companheiro. No entanto, não deixa de dizer o que pensa e de defender o que acredita.
– É um grane amigo – diz Lillo.
Confira bate-bola exclusivo com Juan Manuel Lillo, técnico e amigo de Guardiola:
LANCENET!: Como e quando o senhor conheceu Guardiola?
LILLO: Nós nos conhecemos quando eu era técnico do Oviedo, há muitos anos. Depois de uma partida, ele veio ao meu vestiário e perguntou por mim. Disse que admirava muito minha equipe, até lembrou uma partida da temporada passada contra o Salamanca que eu treinei. Disse que gostaria de manter contato e, desde então, somos muito próximos. É como um filho para mim.
LNET!: Naquela ocasião, Guardiola já demonstrava interesse em ser treinador no futuro?
Naquele momento, não. Mas está claro que sempre foi sua vocação. Sua vocação é mais para treinar do que para jogar. Ele conhece bem o jogo e sabe se cercar de boas pessoas para trabalhar.
LNET!: Guardiola dá a impressão de que poderá ficar para sempre no Barça. O senhor acredita nisso?
As coisas mudam de uma hora para outra. Mudamos o tempo todo, estamos passando por constantes mudanças. Ninguém sabe o que acontecerá no futuro.
LNET!: Está claro que Guardiola vive muito intensamente sua carreira. Ele suportará por muito mais?
A pessoa tem de saber suportar as coisas que vive em busca de um objetivo. Foi assim no seu caso de doping. Esse é um valor que está muito vivo dentro dele. Continuará enquanto tiver objetivos.
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