ESPECIAL: Zé Maria quer uma unidade só para esporte
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O sonho do ex-lateral Zé Maria, que trabalha na recuperação de menores infratores, é a construção de uma unidade da Fundação Casa apenas para a prática esportiva. Com aparelhagem e materiais de primeira linha, o local receberia jovens que se destaquem em futebol, futsal, vôlei, basquete, handebol e atletismo. Segundo ele, há projetos neste sentido, mas "falta vontade política".
- Com uma estrutura dessas, os meninos chegariam mais preparados para os testes nos clubes e teriam uma motivação a mais para deixar as outras unidades e se dedicar ao esporte - explica.
Nessa unidade também haveria psicólogos especializados na recuperação voltada ao esporte e outros profissionais, como preparadores físicos e fisioterapeutas.
CONFIRA O BATE-BOLA COM ZÉ MARIA
L! - Como você começou a trabalhar na Fundação Casa?
Em 1999 (quando ainda era Febem), me chamaram para entregar o troféu de uma competição e depois acabei recebendo um convite para auxiliar em palestras e outras atividades em uma unidade (Tatuapé). A coisa foi caminhando de uma forma que eles mesmo se comprometeram em me adaptar lá.
L! – No que consiste o seu trabalho na Fundação?
Fui para fazer a coordenação em uma unidade. Fui como coordenador de turno e arrumava um horário para fazer campo. Fiz pátio, toda a trajetória de um funcionário comum. De conversar com a mãe... Você olha e já percebe uma atitude esquisita. Chamava para uma conversa na coordenação quando se realizava uma operação. Eu usava muito do que eu fui no passado. Minha trajetória. Comecei no mato, tive de ralar pra caramba para chegar onde cheguei. Consegui dar para a minha família o que ela não tinha. Tento mexer com o lado emocional deles. Tem que ter trabalho, disciplina respeito.
L! – Então, quando você foi para a Fundação, não foi para lidar especificamente com o esporte?
Não, mas eu tinha uma flexibilidade para fazer o esporte.
L! – E hoje, qual é a sua função?
Estou numa posição mais definida. Trabalho na gerência do esporte e eles me deixam bem solto. Faço contato, a seleção do futebol, acompanho todas as atividades esportivas, não só na capital, como também no interior.
L! – Há quanto tempo nessa nova função?
Seis anos. Saí da unidade do Tatuapé e vim fazer essa atividade na sede.
L! – Hoje você não fica fixo em nenhuma unidade?
Não. Faço um monte de atividade. Acompanho palestras, atividades... Fico mais na área de esporte. Sou mais um contato na área de esportes, secretarias, clubes. Percebo quem tem uma qualidade, um destaque, e tento encaminhar para uma atividade que ele pratica: futsal, voleibol, mas mais futebol, que é uma área em que tenho uma flexibildiade muito boa. Aí levo para treinar no Nacional... a Portuguesa tem aberto as portas de uma forma maravilhosa, o Corinthians também. Esse projeto do CNJ também ajudou muito. Hoje está meio deslocado, mas abriu as portas em São Paulo para que fizéssemos contato com o Santos, Palmeiras, São Paulo, Corinthians. Levamos os adolescentes para memoriais. Tem ainda uma atividade no Corinthians, nas quadras, nas piscinas. É um trabalho no qual você cria a expectativa neles para inserir na sociedade, participar de eventos na cidade. Para que saiam da unidade. Um percurso que antigamente era muito difícil de fazer.
L! – Érica Teixeira Matias, hoje com 21 anos, e Diego Lima da Conceição, 20, foram dois dos adolescentes que você resgatou, não?
Diego foi visto dentro da unidade da Vila Maria. Uma unidade terrível e ele era um dos "testas" dos grandes movimentos que aconteciam. Mas com a inserção do esporte, começou a praticar a atividade. Foi aí que os funcionários começaram a falar com ele. "Você tem potencial, sai dessa vida", essa coisa toda. Com a Érica foi mais ou menos a mesma coisa. Alegretti, que fazia o trabalho dentro das unidades, me disse que ela tinha qualidade. Fomos a Botucatu, fizemos contato com o clube, e a contrataram. Ela ficou dois anos no clube, que agora foi para São Manuel.
L! – E Clóvis Ambrósio dos Santos Júnior, 28, que também foi profissional?
Foi outro adolescente terrível, em 2001, 2002... E acabou o Juventus uma oportunidade. Ele foi se comovendo com as possibilidades que poderia ter, virou profissional. Hoje ele parou. Está trabalhando, mas saiu do crime. São os três que nós temos contato, fizemos amizade com a família. Clóvis era atacante, hoje mora em Pirituba (na Zona Oeste de São Paulo).
L! – Como está a situação de Diego hoje?
Diego passou pela Portuguesa, terminou o contrato, e ele quis ir embora. Foi um problema de disciplina de horário.
Nota da redação: Dias depois da entrevista, Zé Maria fez contato com o Nacional e Diego está fazendo testes no clube.
L! – Ele pegava vários ônibus para treinar na época da Portuguesa, né?
Mas eu andava sete quilômetros a pé, quando tinha 13 anos. Quando quebrava a bicicleta, eu tinha de ir a pé. Também tive uma história difícil. Quando ele veio para a Portuguesa, ainda era interno. Depois, quando saiu da unidade, apareceu um empresário que arrumou uma casa em Mauá. Quando ele sai da unidade, não é mais responsabilidade nossa. Tentamos ainda fazer os contatos, encaminhar, orientar, mas quando tem empresário, a gente sai. Aí tem alguém que vai resolver o problema dele. Diego é uma questão de tempo para dar certo. Esteve em Rio Claro, fez alguns jogos, mas como o time foi desclassificado, acabou indo embora. Agora vou voltar a procurar um time para ele. Ele vai sem ônus, por uma ajuda de custo. Tem 20 anos, é uma idade de definição. Se quer jogar bola, vai ter que se sacrificar. Vamos tentar acomodá-lo próximo da atividade e ele tem de aprender a andar com as próprias pernas. É um menino bom. Teve problemas seríssimos na infância, mas pensa em fazer coisas boas, tem uma boa cabeça. Só não deu aquele brilho, aquele estalo. Mas dá para jogar em times bons.
L! – E a Érica?
Também teve alguns problemas. Fomos em Botucatu. Conversamos com ela. "Pô, já conseguiu subir até o último degrau, agora vai pisar na bola?". Não é o melhor salário, mas tem casa, amizade, conceito bom. Era muito bem conceituada na cidade. Era convidada para shows, eventos, levava as amigas dela. Teve uma volta à sociedade. Passou a ser olhada como uma pessoa que não era mais de Febem. Virou uma cidadã botucatuense. Estava estudando, mas já começou a dar os problemas. Não está mais estudando. E aí que começam a aparecer as pessoas do mal. Acabam voltando às origens, e é terrível. Agora está em São Manuel. Botucatu ela ainda tem um conceito. Em São Manuel, está bem, mas meio relaxada. Não é mais a mesma pessoa. Não voltou às drogas, mas quando começa a perder o foco, acaba imaginando que está correndo o risco.
L! – E a Copa Casa, da qual você faz parte e organiza?
Mudou o estímulo da própria Febem ao esporte. Antes só havia atividade interna. E dentro do Tatuapé. Com esse evento da Copa Casa, todas as unidades começam a participar e os internos podem sair para outros lugares.
L! – Como funciona a caça a talentos?
Buscamos todo tipo de parceria. Tudo passa pela gerência. A unidade faz contato conosco, o gerente passa para mim e eu vou olhar. Caça talento não é bem o termo. Caçamos o espaço para dar oportunidade ao jovem que tem potencial. Não sabemos se vai virar um atleta. Pensamos em fazê-lo mudar de vida. Tirar desse caminho ruim. Dessa mente poluída do mal.
L! – Você viu alguns meninos com potencial nessa Copa Casa?
Vamos fazer contato com o Olé de Ribeirão Preto. A seleção da Febem deste ano joga lá com uma equipe sub-17 ou sub-18 do Olé. Vão ficar com os professores, dando uma olhada, para ver se tem adolescentes que podem ficar lá por um período de experiência. Vamos levar 18 jogadores. Tenho certeza de que pelo menos três vão fazer mais do que três treinamentos e serão observados de perto. Já fizemos também contato com o Corinthians para um período de testes.
L! – E como foi a recepção no Corinthians?
Eles falam: "Zé, se você olhou e achou que tem potencial, pode trazer". Isso ajuda muito. Minha história no futebol. Mas levamos dizendo que é um moleque que não tem condicionamento físico. Então, tem de ser bem olhado. Em vez de fazer um treino só, faz três, quatro. Tem o Juventus também na nossa agenda. Alguma coisa vamos encontrar para eles.
L! – E como é o processo de seleção?
Eu vi 99% dos jogos deste ano. Só não vi um jogo em Santos, porque coincidiu com o horário de outra partida em Americana. Mas depois acabei vendo os jogadores em outros jogos.
L! – O que essa competição representa para os meninos?
Muitos deles ainda nem jogaram no melhor campo da cidade (do interior) deles, mas neste evento já jogamos no Maracanã, Morumbi e em todos os grandes estádios de São Paulo, por meio dessa parceria com a FPF. Tem a oportunidade também de trazer os familiares para assistir aos jogos. São oportunidades que estamos dando.
L! – O que mais lhe marcou nesses mais de dez anos?
Passei por momento terríveis. Rebelião de 1999 foi terrível, no Tatuapé. Em 2003, também foi muito terrível no Tatuapé. Estávamos fazendo um treinamento no campo com os adolescentes e, neste momento da rebelião, os meninos continuaram treinando. Teve uma hora em que perdemos o controle, mas era uma forma de entretê-los enquanto aconteciam os movimentos. Muitas vezes estava tendo problema na unidade, criava-se um torneio rápido de mata-mata, com quatro ou cinco equipes, e os moleques acabavam não se envolvendo (na rebelião). Então quando terminava o torneio, a rebelião já estava mais ou menos controlada. A maioria que gostava do esporte acabava não participando desses movimentos.
L! – Mas a Tropa de Choque entrava na unidade e os moleques continuavam jogando?
Não estavam nem aí. Aquele barulho todo e o jogo continuava. Quando a tropa chegava, eles tinham medo. Estavam cercados. Não tinham como fugir mesmo. Então se mantinham ali.
L! – E quem não participava da rebelião e ficava jogando bola, não era cobrado pelos outros internos?
Não. Pelo menos na unidade do Tatuapé, onde eu trabalhei e presenciei rebeliões, isso nunca aconteceu.
L! – Vocês têm medo de que algum adolescente aproveite essas atividades externas, como a Copa Casa, para tentar fugir?
Eu lembro da primeira Copa que nós fizemos. Foi terrível. Funcionário com medo de sair, por causa de tentativa de fuga, briga. Hoje é o contrário. O funcionário pede para acompanhar. A presença da família ajuda muito. Eles acompanham os jogos. Um trabalho social muito bom.
L! – Além do futebol, o que mais a Fundação oferece?
Tem todas as atividades esportivas, além de capoeira, e culturais, como teatro, um segmento enorme. Não é só esporte. Todo tipo de atividade, inclusive cursos técnicos.
L! – Como você acha que os meninos lhe veem?
A princípio, como um ex-jogador, porque os funcionários falam. Os pais também lembram de mim. Temos a oportunidade de conversar com os pais, falamos para dar amis atenção aos meninos, e que o esporte é uma das chances que tem de sair do crime. Conheço uma série de centros esportivos que têm ex-jogadores fazendo atividade. Orientamos para procurarem um caminho bom.
L! – Também há casos de meninos que não deram certo no esporte e se recuperaram de outra forma?
Vários. É um grande prêmio que nós recebemos. Muitos deles saem e acabam voltando para o crime também. Recebemos muitas notícias ruins, de quem voltou para o caminho errado e morreu. Esse é o lado triste, mas quando vê o lado positivo, é gratificante saber que esse trabalho tirou dezenas e dezenas de adolescentes para um caminho melhor.
L! – Vem olheiros vê-los?
Na Copa passada veio aqui um do Palmeiras. Levamos o menino para treinar no Palmeiras, mas acabou não dando certo.
L! – Por que não?
O problema nosso é condicionamento físico. No meio em que o pessoal está melhor preparado, os meninos têm dificuldade. Tem que ter uma readaptação. É uma briga que estamos tendo agora, para ver se conseguimos uma unidade específica para ter uma atividade mais frequente com esse pessoal que tem mais qualidade. Fazer um núcleo de esportes e tentar aproveitar em todas as modalidades esses jovens que percebemos que tem qualidade. Pelo menos se dá uma condição melhor para eles numa unidade diferenciada, e até participar de algum torneio. Você cria uma motivação a mais. Se conseguirmos esse espaço, fica bem melhor.
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