'A arquibancada é a rua!': Futebol potencializa protestos pelo Brasil
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A bola pegou força e ultrapassou os estádios da Copa das Confederações. Ganhou ruas e manchetes. Do país e do mundo inteiro. E o time agora tem centenas de milhares de jogadores. Mas o que têm a ver as manifestações que eclodiram nas principais cidades do Brasil com o futebol?
Tudo.
Com ingressos caros, desorganização, promessas de infraestrutura e mobilidade urbana não cumpridas, além de estádios superfaturados (as reformas do Mané Garrincha e do Maracanã custaram mais de R$ 1 bilhão cada), os eventos a serem realizados no país daqui em diante evidenciam muitas das mazelas nacionais e são incorporados ao conjunto de alvos das críticas. Por ser a principal manifestação cultural brasileira, o futebol provoca engajamento e reação maiores.
– É evidente que os protestos têm um peso grande por estarem associados ao futebol. Esse esporte redefiniu a nossa postura diante do mundo. O futebol é politizável, pode ser tornar uma moeda com valor político. E está sendo assim nesse momento – comentou o antropólogo Roberto DaMatta, referência no assunto e autor do livro "Universo do Futebol: Esporte e Sociedade Brasileira".
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O dia 17 de junho de 2013 foi histórico. O ponto alto do amanhecer de protestos que já vinham ocorrendo neste início de Copa das Confederações, no entorno e longe dos estádios. Até mesmo em locais que não são sedes neste ano. Mais de 100 mil pessoas inundaram o Centro do Rio de Janeiro. Em São Paulo, cerca de 65 mil tomaram conta da Avenida Paulista. Já na capital Brasília, os aproximadamente dez mil manifestantes subiram na cobertura do Congresso Nacional. Milhares de cidadãos também se mobilizaram em Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba...
A lista de episódios é grande, assim como a de insatisfações. Não é só o gasto excessivo com os eventos esportivos. Não são apenas os R$ 0,20 do aumento das passagens de ônibus. É a reivindicação por melhorias na saúde e na educação. Um combate de fato efetivo à corrupção. A crítica à truculência policial. A não aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 37, que limita o poder de investigação do Ministério Público. E muito mais:
– Vi duas guerras mundiais e a depressão de 1929. Vivi a Revolução de 1932. Sobrevivi a Ditadura. Acreditem, não é só por R$ 0,20 – afirmou Dona Nair, de 101 anos, já famosa na internet pela foto viralizada em que segura um cartaz com esses dizeres.
Além de potencializar a questão no cenário interno, o futebol expõe os protestos para o mundo, por meio da cobertura das Copas. A presença da imprensa internacional no Brasil está acima do comum, e a repercussão lá fora de tudo o que acontece aqui é ampliada. Não à toa as manifestações estampam as capas da versão online do "El País" (ESP), do site da "BBC" (ING), do portal da "CNN" (EUA), entre outros veículos de comunicação estrangeiros de peso.
- Era óbvio que as manifestações seriam feitas nesta época. Não haveria situação mais propícia para que elas saíssem na mídia e chamassem a atenção de todos os países do planeta. Acho curioso que o governo não dê o devido valor a essas manifestações. Quando escolheram se candidatar para sediar esse tipo de competição, deveriam ter se preparado para deixar um legado positivo para o povo. Com o que se apresenta hoje, obras superfaturadas e tarifas elevadas, a população começou a se mostrar - comentou a socióloga Heloísa Helena Baldy dos Reis, professora da Unicamp e membro da Academia LANCE!.
Infelizmente, nem tudo foi pacífico. Houve registros de vandalismo em praticamente todas as manifestações, protagonizados por uma parcela ínfima dos envolvidos no quadro geral. No Rio, indivíduos mais radicais invadiram o prédio da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), depredaram o local, destruíram duas agências bancárias próximas e ainda atearam fogo num carro. Em São Paulo foi gerado um forte tumulto em frente ao palácio do governo, com a tentativa de invasão. Por outro lado, a polícia reagiu com bombas de gás lacrimogêneo e sprays de pimenta. O Ministério Público já garantiu que irá investigar as ações de ambas as partes.
Mas no plano mais amplo, o saldo foi positivo. A mobilização via redes sociais se consolidou nas ruas. Com novas ações já agendadas para os próximos dias, a tendência é de que as manifestações aumentem. Antes dos episódios históricos desta segunda-feira, autoridades e dirigentes tentaram abafar a questão, alguns até fazendo pouco caso. Mas agora tudo mudou.
O futuro do Brasil está em jogo, e a bola precisa ir para frente.
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