Muricy Ramalho

Após desabafo com amigo e promessa de saída, Muricy resolveu seguir no Tricolor (Foto: Erico Leonan/saopaulofc)

Rafael Franco
10/12/2021
15:55
São Paulo (SP)

Em uma conversa de áudio que foi vazada nesta sexta-feira (10) nas redes sociais, o coordenador de futebol do São Paulo, Muricy Ramalho, revelou a sua insatisfação com a atual situação financeira do Tricolor e apontou que ele e o técnico Rogério Ceni pediriam demissão de seus cargos para o próximo ano.

Horas mais tarde, porém, em uma reunião com a direção do São Paulo e com o presidente Julio Casares, o dirigente e o treinador acabaram selando as suas permanências para a próxima temporada. Foi o que indicou o próprio coordenador de futebol são-paulino, que confirmou a veracidade dos áudios em live com com os jornalistas Arnaldo Ribeiro e Eduardo Tironi.

Nos áudios, Muricy conversa com um interlocutor chamado Vladimir. O coordenador destacou que a conversa com a cúpula tricolor o convenceu a seguir trabalhando para o clube em 2022, apesar da grave financeira atual.

Em balancete divulgado em seu site oficial no mês passado, o São Paulo confirmou o aumento de sua dívida em R$ 71,3 milhões, no acumulado de todo o ano até setembro, fato que fez o déficit total subir para R$ 630 milhões, valor descrito neste relatório. Antes disso, ao final de 2020, o clube já havia tido uma elevação de sua dívida em R$ 129,6 milhões, valor deixado pela diretoria anterior do Tricolor, quando então acumulou um déficit de R$ 606 milhões.

– Realmente é meu sim (o áudio vazado), um desabafo com um amigo que tenho. Quis dizer o que o torcedor está sentindo, muita tristeza. O mês foi muito duro, mexeu demais com a saúde da gente. Não é fácil um clube desse brigar numa situação dessa. Rolou esse desabafo, mas queria dizer que estamos trabalhando muito aqui. Hoje tivemos uma conversa legal com Rogério, com (Carlos) Belmonte (diretor de futebol), um cara incansável, o Rui (Costa, também diretor de futebol), o Nelson (Ferreira, diretor adjunto), e claro, o presidente (Julio Casares), que está atrás de recursos para tentar mudar essa situação - revelou Muricy ao confirmar sua permanência para o próximo ano.

Nos dois áudios vazados antes desta reunião com a cúpula são-paulina, Muricy deixa claro o seu descontentamento com a ausência de investimentos previstos para a temporada de 2022 e se mostrava convicto a pedir demissão. E chegou até a citar um tradicional rival do Tricolor como exemplo ao apontar que o mesmo conseguiu superar seus problemas financeiros, contratar reforços de peso e depois fechar a sua campanha entre os cinco primeiros do Brasileirão.

- Fala, Vladimir! E aí, beleza? Sufoco, né, puta que pariu! A torcida ajudou pra caralho de novo, entendeu. Só que é o seguinte, cara: o São Paulo não pode estar nessa merda que está. Uma merda. E não vai ter perspectiva, sabe. A gente percebe no discurso do presidente: "Ah, não tem dinheiro, não tem nada". O Corinthians também não tinha dinheiro no começo do ano, contratou quatro jogadores diferentes e está na Libertadores e o caralho - disse Muricy no início de sua conversa com o interlocutor, ocorrida após o time são-paulino ser batido por 2 a 0 pelo América-MG, na quinta-feira à noite, em Belo Horizonte.

- Então, pra você eu posso falar: o Rogério também faz a mesma pergunta pra ele, eu também, e vai ter uma negativa também de investimento, e eu não vou ficar mais, porque é muito sofrimento, cara. Tenho uma história lá, você sabe, Rogério Ceni também tem uma história, a gente ia ficar marcado que o time caiu pela primeira vez, cara. É muito risco, entendeu!? E outra: trabalhamos pra caralho. As pessoas não têm ideia do que a gente trabalha lá - continuou Muricy em uma das mensagens de áudio vazadas nesta sexta-feira.

E o coordenador de futebol também estava convencido de que os dirigentes do clube não conseguiriam apontar saídas para o São Paulo se reforçar e se tornar uma equipe mais forte para a próxima temporada. E ele revelou incômodo com as últimas campanhas do time no Brasileirão, sendo que neste último só se livrou do rebaixamento na penúltima rodada e depois fechou sua participação em 13º lugar, com 48 pontos, seu menor número em 19 edições do torneio dentro de seu formato atual, que foi adotado a partir de 2003.

- É isso, cara. Eles não quiseram sinalizar que vai ter algum investimento, não dá, e o Rogério também não vai ficar. Porque não, eles ficam batendo cabeça aí, fica brigando pra não cair todo ano. Eu fiquei mal, é o meu time, pô! Empresa esquece, os conselheiros não deixam. Investidor também, os conselheiros querem investidor, mas não querem que dê palpite, é difícil - reclamava Muricy, para depois admitir que está cansado com o desgaste que vem acumulando na função de coordenador de futebol do São Paulo.

- Fico trabalhando que nem maluco, os caras não têm ideia do trabalho que eu tenho. Às vezes convencer jogador, essas coisas, graças a Deus a gente saiu desse pesadelo aí (risco de rebaixamento à Série B), mas não vou arriscar mais a minha história e nem minha saúde - afirmou Muricy em um trecho do áudio.

Após o jogo contra o América-MG, Rogério Ceni também havia deixado claro que só continuaria no comando do time se contasse com investimentos que tornassem possível reforçar o elenco tricolor. E, ao que parece, essa promessa ocorreu por parte dos dirigentes são-paulinos em reunião nesta sexta-feira.