Montagem - Raulzinho, Nenê, Cristiano Felício NBA

Raulzinho, Nenê, e Cristiano Felício são os únicos brasileiros na temporada atual da NBA (Reprodução/Divulgação)

Leonardo Damico*
22/10/2018
09:05
Utah (EUA)

Se por um lado a National Basketball Association (NBA) vem crescendo em número de telespectadores Brasil afora, um outro fator chama atenção. A temporada que se iniciou na última terça-feira têm apenas três atletas brasileiros; Raulzinho, no Utah Jazz; Nenê Hilário, no Houston Rockets; e Cristiano Felício, no Chicago Bulls. O baixo número de atletas do país é o menor desde a temporada 2009/2010. Mas quais são os motivos que explicam esse êxodo de brasileiros na Liga americana?

Histórico de Brasileiros na NBA
Os dois primeiros brasileiros a se aventurarem na NBA foram Rolando, pivô que atuou pelo Portland Trail Blazzers na temporada 1988/89; e o ala-pivô João José Viana, mais conhecido como Pipoka, que jogou pelo Dallas Mavericks três anos depois de Rolando. Contudo, foi a partir dos anos 2000 que o número de brasucas por lá aumentou.

Nenê foi o primeiro a aportar na liga americana na temporada 2002/2003, quando foi draftado pelo Denver Nuggets. Depois do pivô outros atletas do país chegaram na NBA nos anos que sucederam, como Alex, Anderson Varejão, Leandrinho, Baby, Marquinhos, Tiago Splitter, Fab Melo, Scott Machado, Vitor Fevarani, Bruno Caboclo, Marcelinho Huertas, Lucas Bebê, Cristiano Felício e Raulzinho.

Crescimento da NBA no Brasil x Decréscimo de jogadores na Liga
Um estudo realizado pelo 'IBOPE' constatou que o número de pessoas no Brasil que assistia aos jogos da NBA cresceu 17% da temporada 2016/17 para a última, que consagrou o Golden State Warriors como campeão. Ainda conforme o estudo feito pelo Instituto no meio do ano, cerca de 21 milhões de pessoas consomem a liga americana, o que equivale a quase 30% da população atual do país.

No entanto, enquanto a porcentagem de consumidores do basquete americano só aumenta, o número de brasileiros na liga só diminui. As temporadas de 2015/16 e 16/17 foram as que mais tiveram brasileiros, nove no total. Porém, no último ano esse número diminuiu para cinco e hoje é de apenas três. O LANCE! conversou com o ex-jogador do Flamengo e hoje comentarista de NBA dos canais SporTV, Marcelinho Machado, que comentou sobre esse decréscimo de brasucas na competição.

- A gente não pode tirar uma conclusão em cima de uma temporada para outra, mas devemos ficar atentos. Estamos formando muitos jogadores, mas a nossa forma de trabalhar no basquete de base tem que ser melhorada. Poderíamos estar produzindo muito mais atletas do que fazemos atualmente. Torço muito pelo Raulzinho, que foi meu companheiro na seleção, além de ser um craque, vem evoluindo muito. - disse o ex-jogador da Seleção Brasileira.

Marcelinho Machado
Marcelinho foi multicampeão com o Flamengo (Reprodução)

Envelhecimento da safra consolidada
Um dos fatores que explica essa quantidade tão baixa é o envelhecimento dos principais brasileiros que atuavam na liga. Dentre todos os jogadores citados anteriormente, somente Anderson Varejão (36), Nenê (36), Tiago Splitter (33) e Leandrinho (35) tiveram carreiras consistentes na NBA, ficando pelo menos sete anos no torneio. No entanto, todos esses ou já se aposentaram ou estão se encaminhando para o fim da carreira.

Primeiro brasileiro a ser campeão na NBA, com o San Antonio Spurs, Tiago Splitter foi o único dessa geração que já se aposentou. Um ano depois de Splitter, foi a vez de Leandrinho, que está atualmente sem clube, levantar o troféu Larry O'Brien e se sagrar vencedor da liga. Apesar de não ter conquistado nenhum título, Nenê é quem está há mais tempo na NBA (16 temporadas), e Varejão, que atuou por 13 anos no torneio, joga hoje no Flamengo. Elogiado por Marcelinho, Raulzinho também falou com exclusividade ao L!.

- Esta safra foi sensacional. Eles deixaram um importante legado aqui, de que é possível um brasileiro que começa carreira no país chegar à NBA. Eles abriram as portas para mais atletas chegarem à liga americana no futuro. Acho que a mensagem que passaram é que, apesar do Brasil ser reconhecido pelo futebol, o país também pode criar grandes jogadores no basquete. - comentou o armador do Utah Jazz.

Dificuldade de adaptação e migração para campeonatos menores
Se o quarteto teve continuidade na liga, não se pode dizer o mesmo de alguns dos últimos brasileiros que tentaram a sorte por lá. Nas temporadas recentes, o pivô Lucas Nogueira, conhecido como Lucas Bebê; os armadores Scott Machado e Marcelinho Huertas; e o ala Bruno Caboclo se aventuraram na NBA, mas não conseguiram se firmar. Machado e Caboclo ainda estão nos Estados Unidos, mas na G-League, liga de desenvolvimento do basquete americano.

Os casos de Huertas e Lucas Bebê são mais complicados. O armador, que foi duas vezes campeão da Copa América com a Seleção Brasileira, recebeu uma oportunidade no Los Angeles Lakers em 2015, mas acabou não convencendo e voltou para o Baskonia, da Espanha. Assim como Huertas, Lucas Bebê também não impressionou nas três temporadas em que ficou no Toronto Raptors e se transferiu para a Espanha recentemente, para atuar no Montakit Fuenlabrada. Raulzinho também falou sobre esse processo de adaptação.

- Dificuldade tiveram muitas. A língua foi uma das principais, no início, foi muito complicado se comunicar, até com os companheiros de equipe. A quantidade de jogos (82 na temporada regular) também pesa bastante e você faz viagens constantes. O atleta está sempre jogando, treinando e acaba tendo poucos dias de descanso. Mas confesso que quando cheguei, o dia a dia da liga era muito cansativo. - revelou o brasileiro de 26 anos.

Raulzinho Neto - Utah Jazz-EUA
Raulzinho está em sua quarta temporada no Utah Jazz (Divulgação)

Necessidade de maior consumo do basquete no país
De acordo com estudo realizado pelo 'Atlas Esporte', o mais completo até hoje realizado na última década, a modalidade mais praticada no Brasil é o futebol com mais de 30 milhões de adeptos. Contudo, o basquete não se encontra nem entre os 10 primeiros no país. Segundo o especialista dos canais 'ESPN', Gustavo Hofman, é preciso que aconteça no Brasil um incentivo ao consumo do esporte, para que mais jovens se interessem em jogar.

- Um ponto importante que pode explicar essa queda é o número de pessoas dentro do esporte. Os responsáveis pelo basquete nacional precisam ter um olhar mais carinhoso para a modalidade e fazer com que mais gente se envolva, não só dentro das quadras mas fora delas também. É preciso aumentar os praticantes e consumidores de basquete no Brasil, principalmente dentre os mais jovens. - disse o comentarista, que emendou criticando a monocultura do futebol no país:

- Por aqui, existe uma monocultura do futebol, só o futebol tem a atenção de todos. É um ciclo vicioso, o torcedor só quer saber sobre isso, logo a imprensa só fala do mesmo, os patrocinadores só investem neste esporte e assim por diante... Essa escrita tem que ser quebrada, pois é danoso para o esporte como um todo no Brasil. O futebol sempre será o mais querido, mas é necessário o maior interesse e investimento em outras modalidades. - complementou o jornalista ao L!.

Contraste com a ascensão do NBB
Um outro ponto que vai na contramão deste decréscimo de brasucas na NBA, é o crescimento do Novo Basquete Brasil. Criado em 2008, o NBB só fez crescer nas últimas temporadas e diferente de seu início, quando tinha pequenos patrocínios e poucos meios de transmissão, hoje é um dos esportes com mais atenção da mídia e de parceiros.

Recentemente, a liga acertou patrocínio com a Caixa Econômica Federal até 2020, o que renderá ao torneio um total de R$ 22 milhões. Sky, Avianca, Nike e Penalty são outras grandes empresas que investem no basquete nacional. No viés televisivo, a NBB teve um grande ganho também e agora conta com três canais fechados (SporTv, ESPN e Fox Sports), um aberto (BAND), além das transmissões ao vivo do torneio via Twitter e Facebook.

- A exposição que o NBB terá nesta temporada é espetacular. No caso específico da ESPN, toda terça uma partida será transmitida, mas outros dois canais fechados, um aberto e as mídias sociais também mostrarão algumas partidas e isso para o basquete nacional é sensacional. Seis dos sete dias da semana vão ter jogos da NBB e esse novo modelo adotado para temporada pode fazer crescer o público. - disse o comentarista da 'ESPN', Gustavo Hofman, que teve o discurso corroborado por Raulzinho.

- Eu passei só três anos no NBB, mas o pouco tempo que passei lá foi muito importante para o meu crescimento e serviu como vitrine para eu chegar na Euroliga e depois conseguir um espaço na NBA. A liga no Brasil está crescendo muito, com maiores patrocinadores e a volta de grandes jogadores que atuaram na Europa e nos Estados Unidos, como Varejão, o que só faz aumentar o nível do torneio. - complementou Raulzinho, que renovou com o Utah Jazz até o fim da temporada 2019/20.

Anderson Varejão
Anderson Varejão atuou no Cleveland Cavaliers, no Golden State Warriors e voltou ao NBB para defender o Flamengo (Reprodução)

Modelo de investimento desde a formação acadêmica
Diferente do modelo brasileiro, o formato com que o esporte e a educação caminham no Brasil não é dos melhores. Nos Estados Unidos por exemplo, o atleta é incentivado, através de bolsa de estudos, a praticarem esportes por suas respectivas universidades e colégios, e têm todo o suporte necessário para praticá-lo, não deixando a formação acadêmica de lado.

No Brasil o esquema não é esse. Os jovens que sonham em se tornarem esportistas de alto nível enfrentam grandes dificuldades para se inserir nesse meio. Uma das muitas intempéries é falta de estrutura e incentivo por parte do governo, desde as categorias de base, que não fornecem o apoio que o atleta precisa. Esporte e educação não andam de mãos dadas e muitos jovens tem de escolher um deles para dar seguimento a carreira.

- O Brasil e o Mundo não seguem o modelo norte-americano. Clube e escola são coisas distintas por aqui. No Brasil, se uma criança quer jogar basquete ela procura um clube. Nos Estados Unidos os dois são um só, desde o Middle School, que lá é o ensino fundamental, o que na minha opinião funciona melhor, tanto que os principais atletas do esporte estão lá. - analisou Hofman.

Novo ciclo da Seleção Brasileira e jovens promissores
Durante as últimas décadas o Brasil revelou alguns grandes jogadores, como os já citados que participaram da NBA, como outros grandes atletas como Marcelinho Machado (ex-Flamengo), Guilherme Giovanonni (Corinthians), Valtinho (ex-Brasília) e Nezinho (Vasco da Gama). Mas assim como a safra da NBA, estes ou já se encerraram a carreira, ou se encaminham para o final dela.

Atualmente, a Seleção Brasileira e o NBB atravessam uma mescla de atletas mais jovens com outros mais experientes. Com vasta bagagem na NBA e hoje pivô do Flamengo e da Seleção Brasileira, Anderson Varejão fez um balanço sobre o atual cenário da equipe do croata Aleksandar Petrovic e aproveitou para citar alguns promissores atletas que vem se destacando no NBB.

- Qualquer processo de renovação requer tempo e trabalho duro. Temos uma Seleção Brasileira hoje que mescla juventude e experiência, jogadores com mais bagagem, com experiência internacional, e jovens que estão buscando espaço, mostrando qualidade e com um futuro muito promissor. Acho que o trabalho está sendo bem feito pelo Petrovic, um técnico experiente, com muito conhecimento e que tem feito a equipe evoluir jogo a jogo. - disse Varejão ao L!.

- Temos meninos como o Yago, de 19 anos, do Paulistano que já é uma realidade, vem jogando em alto nível no clube e com a camisa do Brasil; o Didi, também de 19 anos, do Franca, que é outro garoto que começa a despontar, a mostrar seu talento; e outros como Benite e Augusto, por exemplo, já com um pouco mais de rodagem, atuando fora do país. Todos esses junto a jogadores mais experientes como eu, Leandrinho e Alex, que já estamos há mais tempo, podem crescer ainda mais. - finalizou o pivô de 36 anos.

Yago e Didi NBA (Foto: Divulgação)
Yago, do Franca (à esquerda) e Didi, do Paulistano (à direita) são grandes promessas do basquete nacional (Foto: Divulgação)

*Sob supervisão de Jonas Moura