Marco Aurelio Costa Vieira

Marco Aurélio Costa Vieira (foto) deverá assumir secretaria de esportes do governo Bolsonaro (Imagem: Divulgação)

Luiz Fernando Gomes
04/12/2018
07:30
São Paulo (SP)

Pode haver inúmeras razões para discordar-se da indicação, ainda não oficializada, do general Marco Aurélio Costa Vieira para a secretaria de esportes do governo de Jair Bolsonaro. O incômodo excesso de militares no primeiro e segundo escalão do Planalto certamente é uma delas. E é um fato, já que estão chegando a dez os homens de farda por lá. Também se pode reclamar da perda de status da pasta, antes um ministério autônomo e agora vinculado ao Ministério da Cidadania, junto com a secretarias de Cultura e Desenvolvimento Social, uma miscelânea sem dúvidas bastante questionável.

Sejamos justos, contudo: do que o presidente eleito não pode ser acusado é de colocar na pasta alguém que não tenha ligação com o esporte. Muito ao contrário, o general-secretário tem muito mais envolvimento com o assunto que boa parte - se não, todos - os ministros nomeados nas últimas décadas pelo governo central.

Por ironia, vale lembrar, o último nome do ramo a comandar o esporte brasileiro não foi um ministro, mas sim um secretário. E já lá se vão 20 anos. O iatista Lars Grael ocupou o cargo de Secretário Nacional de Esportes no governo Fernando Henrique Cardoso, em 1998, dando início a uma trajetória muito bem-sucedida e respeitada na vida pública – mais tarde seria também secretário de esportes do governo de São Paulo na gestão de Geraldo Alckmin.

Antes de Lars, na história recente do país, nomes de peso como Zico e Pelé também ocuparam cargos na Esplanada dos Ministérios. O Galinho, durante a presidência de Fernando Collor, foi Secretário Nacional de Esportes nos anos de 1990 e 1991, estabelecendo políticas públicas importantes e inovadoras. Seu projeto mais conhecido foi a "Lei Zico", que modificou a estrutura do futebol brasileiro e promoveu a modernização da legislação desportiva, criando o Conselho Superior de Desportos – entidade destinada a fazer cumprir a própria lei– e organizando a Justiça Desportiva.

Já Pelé foi ministro extraordinário dos esportes, em 1995, no governo de FHC. Sua gestão ficou marcada pela lei que levou seu nome, aperfeiçoamento do que fora deixado por Zico, que estabeleceu o fim do passe, diminuindo o poder do clube sobre os jogadores, um passo importante para a modernização do futebol brasileiro. Ambos, tanto o Rei quanto Zico, deixaram o governo desgastados e pressionados pela cartolagem e a chamada bancada da bola – até hoje atuante, diga-se de passagem, nos corredores, nos gabinetes e no submundo de Brasília.

O fato é que, se um sujeito vai ser ministro ou secretario, pouca diferença faz. O importante é que tenha um mínimo de intimidade com o assunto. E gente como Agnelo Queiroz – aquele que construiu em Brasília o estado mais caro e suspeito da Copa de Mundo de 2014 -, Orlando Silva, Aldo Rebelo, George Hilton e Leonardo Picciani, que ocuparam a pasta desde a sua separação do Turismo em 2003, nada tinham a ver com o esporte, foram indicações políticas quase todas ligadas ao PC do B e depois ao MDB. Talvez a única exceção desse período tenha sido Ricardo Leyser, interino por dois meses antes das Olimpíadas do Rio, um administrador de fato com atuação na área esportiva.

O general Marco Aurélio Costa Vieira, que deve transformar-se no homem forte do esporte nacional, é doutor em Ciências Militares com ênfase em Logística e Gestão e ocupou o cargo de diretor de Educação Superior do Exército entre 2009 e 2012. Até aí, pouca coisa a ver com esporte. Mas ele foi também diretor-executivo de operações dos Jogos Rio-2016, período em atuou no planejamento de todo o evento, e diretor executivo do revezamento da tocha olímpica, funções em que era subordinado diretamente ao então presidente do COB e do comitê organizador Carlos Arthur Nuzman.

Nem tudo, porém, são credenciais positivas. Costa Vieira teve seu nome citado em uma denúncia, ainda não devidamente respondida, sob suspeitas de irregularidades na compra de um simulador de combate pelo Exército, um caso que também envolve um outro general de primeiro escalão, ninguém mais do que o vice-presidente eleito, Hamilton Mourão. Cabe, antes de assumir, esclarecer o assunto. E se culpado for um mínimo de coerência espera-se do presidente em buscar outro nome. O ex-presidente do Atlético-PR, Mário Celso Petraglia também já foi citado e a volta de Lars Grael reúne a preferência da comunidade esportiva nacional.