Homenagens às vítimas foram colocadas em frente à entrada do Ninho do Urubu

Ninho do Urubu (Alexandre Araújo)

LANCE!
22/02/2019
09:19
Rio de Janeiro (RJ)

O incêndio do Ninho do Urubu, que vitimou 10 atletas das divisões de base e feriu outros três, completa duas semanas nesta sexta-feira, e muitas perguntas permanecem sem respostas. O sinal mais claro foi a indignação dos familiares após a audiência de mediação proposta pelo Flamengo, que, por sua vez, adotou o silêncio e só se posiciona através de pronunciamentos e notas desde então. O desacordo com as famílias por conta da indenização é um capítulo a mais do episódio mais triste da história do clube, como o próprio presidente Rodolfo Landim avaliou horas depois do trágico acidente.

Aquelas poucas palavras ainda na entrada do Centro de Treinamento  e, posteriormente, uma rápido na sede do Ministério Público do Rio de Janeiro, foram as aparições do presidente ao público até agora. Nos primeiros dias após o ocorrido, o mandatário esteve próximo das famílias, que foram alocadas pelo clube no Rio de Janeiro. Depois, Reinaldo Belotti, CEO do clube, fez um pronunciamento na Sede da Gávea, e Rodrigo Dunshee, vice-presidente geral e jurídico, iniciou uma coletiva também na sede do Ministério Público do Rio, mas a abandonou ao se irritar com as perguntas. Desde então, apenas notas oficiais estão sendo enviadas à imprensa e publicada nos meios oficiais do Rubro-Negro.

O apoio amplo e irrestrito aos familiares sempre foi colocado como prioridade pela diretoria do clube em suas manifestações. A ideia da diretoria da Gávea é de "que os familiares sejam indenizados de forma justa e no menor período de tempo possível, minimizando a dor e o sofrimento", mas, com as tratativas dadas como encerradas pelas famílias, o caminho indica a via judicial, que pode se arrastar por anos e prolongar o drama das famílias, além de arranhar a imagem do clube.

A declaração de Rodrigo Dunshee à "Coluna do Flamengo", na noite da última quinta-feira, em que afirmou "não fazer parte disso" também não ajudou em todo esse processo que se encontra em andamento.

Agora, o compasso é de espera por avanços tanto nas investigações quanto nas negociações com a família. Paralelamente a isso, ainda há o risco de o Ninho do Urubu ser interditado por completo - até o momento, o local está proibido apenas de receber atividades da base, mas continua recebendo atividades do profissional.

Com menos de dois meses de gestão, a UniFla enfrenta o primeiro grande desafio, e tem passado longe de ser os problemas relacionados ao departamento de futebol. 

Relembre o caso:
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O incêndio no alojamento nas divisões de base aconteceu no dia 8 de fevereiro e vitimou 10 atletas do Flamengo, de 14 a 16 anos. Três jogadores precisaram ser internados - Cauan Emanuel e Francisco Dyogo já receberam alta médica -, sendo que Jhonata Ventura segue aos cuidados do Centro de Tratamento de Queimados do Hospital Municipal Pedro II. O quadro do jovem é estável. Além deles, treze jovens escaparam do incêndio sem qualquer tipo de ferimento.

No dia 13, o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro determinou a suspensão de todas as atividades das categorias de base no CT George Helal, o Ninho do Urubu, proibindo a entrada, permanência ou participação de qualquer criança ou adolescente no local até julgamento do mérito. A decisão é do juiz Pedro Henrique Alves, da 1ª Vara da Infância da Juventude e do Idoso.

Em caso de descumprimento, está prevista multa única no valor de R$ 10 milhões em relação ao Clube de Regatas do Flamengo e multa única e concomitante no valor de R$ 1 milhão ao presidente Rodolfo Landim. A decisão do TJ-RJ foi liminar parcial em ação civil publica do MPRJ que corre desde 1 de abril de 2015. Cabe recurso ao Flamengo em segunda instância.

A decisão está sendo respeitada. Após o incêndio, as atividades da base foram e a expectativa para que os jogadores se reapresentem na quinta-feira, dia 21. Contudo, sem a estrutura do Ninho do Urubu, a operação com atletas de fora do Rio de Janeiro deve permanecer suspensa. O clube entende que não há condições de receber centenas de atletas da base em outro local que não o CT.

O Flamengo se pronunciou em três momentos desde o trágico episódio. No dia do incêndio, o presidente Rodolfo Landim fez um emocionado - e curto - pronunciamento à imprensa na entrada do CT. O mandatário classificou o caso como "a maior tragédia nos 123 anos do Clube de Regatas do Flamengo".

No dia seguinte, na Sede da Gávea, quem falou foi o CEO Reinaldo Belotti, que coordenou o comitê de gestão de crise desde o início. O executivo reforçou a prioridade do clube no suporte amplo e irrestrito às vítimas e familiares e, com base em documentos, garantiu que o incêndio nada teve a ver com as condições da estrutura do alojamento das divisões da base no CT George Helal.

Nestes dois primeiros momentos, o clube não abriu espaço para perguntas. No dia 15, Rodrigo Dunshee, vice-presidente e vice-jurídico do Rubro-Negro, falou rapidamente após a reunião com os órgãos públicos e ressaltou que a atual gestão assumiu o poder apenas no começo de 2019. Após o pronunciamento, porém, Dunshee se irritou com as perguntas e retirou-se, dando fim à coletiva.

No dia 21, Flamengo e Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, Defensória Pública e Ministério Público do Trabalho não entraram em acordo quanto ao valor das indenizações a serem pagas às famílias das vítimas fatais. Segundo o MP, a oferta do clube ficou de R$ 300 mil a R$ 400 mil mais um salário mínimo por 10 anos à cada família, enquanto os órgãos públicos desejam o pagamento de R$ 2 milhões para um salário de R$ 10 mil até a data em que os atletas mortos completariam 45 anos.

Neste mesmo dia, o Ministério Público do Rio de Janeiro e a Defensoria protocolaram o pedido de urgência para que o Juizado Adjunto do Torcedor e dos Grandes Eventos determine o bloqueio de R$ 57,5 milhões das contas do clube da Gávea e a imediata interdição do Centro de Treinamento George Helal. Ainda não houve decisão judicial quanto o caso, e os atletas profissionais do Flamengo continuam treinando no Ninho. A direção entende que não há risco em realizar atividades diurnas nos campos e reforça que não está havendo utilização noturna de nenhuma estrutura do local.