Marcio Porto
04/10/2018
06:15
São Paulo (SP)

Aos 34 anos, Ralf é um jogador realizado no Corinthians. Ídolo da torcida, participou das principais conquistas dos últimos anos. Mundial, Libertadores, Recopa, Brasileiro, Paulista. É uma amostra do histórico vitorioso do clube recentemente. Mas em sua grande galeria ainda falta uma conquista, que ele está próximo de conquistar agora: a Copa do Brasil. A proximidade mexe com o jogador, acostumado a ter um discurso de poucas palavras.

Mas Ralf tem muito a dizer. Em entrevista exclusiva ao LANCE! em meio à preparação para para decidir o título que lhe falta contra o Cruzeiro, contou como as críticas e um suposto menosprezo mexeram com o grupo e foram importantes na ida à final. Ele também destacou a importância do trabalho do técnico Jair Ventura, que fez a defesa até voltar a se falar, e projetou encerrar a carreira no Timão. Acompanha a entrevista:

Como está se sentido no momento no clube, após recuperar a posição?
Muito feliz por estar chegando a mais uma decisão, mais uma final, 180 minutos que podem estar decidindo nossa vida. Querendo ou não é o único título que falta para mim no Corinthians e fico feliz por estar jogando, recuperando a forma física, taticamente e tecnicamente, e também por ter a confiança do professor, cara que está chegando agora e já está agregando conhecimento também, e buscando melhorar a cada dia mais.

O que representaria esse título para você?

De suma importância. Esse seria diferente por não ter. Um título que a gente bateu muitas vezes na trave e estamos tão perto que nem imaginamos. São 180 minutos e um título que para mim ficará para o resto da vida.

Como chega o Corinthians?
Chega forte, todo mundo falava que desacreditado, muita gente não estava depositando confiança na gente, sempre falava de Flamengo e outros times, e a gente sabe que se deixar chegar, a gente complica mesmo. Claro que vai ser 180 minutos de muita luta, muita entrega, mas temos tudo para fazer dois grandes jogos e ter o título em casa.

Esse movimento de passar que vocês não eram favoritos mexeu com o grupo?
Com certeza, ninguém gosta de ser atacado. Quando falaram que a gente não tinha condições, fomos brigando, e pelo mérito conseguimos, chegamos. E agora sabemos que é decisão, o Cruzeiro vai respeitar nossa equipe, porque sabem da força do Corinthians, jogando decisão em casa, e sabemos que teremos um grande desafio também.

Em qual momento esse movimento de vocês despertou?
Não sei qual jogo foi, mas teve jogo que veio até a torcida e até eles mesmos falaram que estavam precisando do nosso time, de resposta, antes do Colo-Colo. E você vê, a gente não conseguiu a classificação, mas fizemos um baita jogo, e não conseguimos porque perdemos o jogo no Chile. E com isso colocamos em mente que nesses jogos decisivos não podemos tomar gol, foi assim contra o Flamengo. Não saindo perdendo, você tem grande chance diante do seu torcedor, força máxima, conseguir o resultado dentro de casa.

Qual foi a importância do Jair nesse cenário?
É um cara novo, que veio para agregar. Ele gosta de desafios também. Ainda não conseguiu títulos, mas vem buscando. Ele a comissão vem buscando a melhora a cada dia mais. A gente sabe que é difícil, por não conhecer os jogadores. Já encaramos o Palmeiras fora, com fase não tão boa, só perdendo, e isso fez que ele mexesse com nosso brio também e remasse com o treinador. Não que com o Loss não estava tendo, mas as vitórias não estavam aparecendo. E mesmo perdendo para o Palmeiras, jogamos bem. E se o Jair tiver a oportunidade de ficar para o ano que vem, fará um grande trabalho.

O Cássio disse que o Jair resgatou o estilo de jogo do Corinthians. Concorda?
Concordo. A gente sabe que nossa força sempre foi de não tomar gols, sempre ganhava de meio a zero e classificava. E ultimamente estava tomando cada gol bobo, e a gente mesmo se cobrou. Não podemos tomar esses gols bobos e não ter força para reagir. Quando você toma, fica difícil para reagir. E você não saindo perdendo, tem grandes chances de sair com a vitória. E ele resgatou isso, essa ênfase que era de conseguir os gols e não tomar.

E como ele fez isso?
Foi um pouco de cada coisa. Tanto na conversa, mas claro que temos de trabalhar, fazer no campo. Ele vinha fazendo esses trabalhos para a defesa, fechar linha, diante do Flamengo foi difícil, mas ele até cobrou do gol que tomamos de empate, a bola passou debaixo do Clayson, e ele falou para fechar o corredor e deixar a parte de fora aberta. E para a gente é mais fácil, e ele vem cobrando no dia a dia. A gente não está sofrendo tantos gols, contra o Flamengo ainda conseguimos a vitória, e desgastou muito. Conseguimos um grande jogo e uma classificação.

Ela mantém uma linha de quatro na defesa, como os antecessores. Tem semelhanças com Tite, Carille?
É igual o modo como ele fala, até de a gente ir conversando, coisa que não vínhamos fazendo. A gente não vinha conversando, orientando um ao outro e por isso tinha derrota. E não adianta depois culpar, porque quando ganha a culpa é de todos, e quando perde é de todos. A gente está com a linha de quatro fechada ali, e mais um volante, para fechar no funil, com cinco jogadores fica mais fácil de estar fechado e não tomar gols.

Como consegue trocar o chip para o Flamengo?
É difícil, tanto que a gente pensou no Flamengo, na classificação para a final, e já pensamos: imagina não passar e ter de pegar o Flamengo de novo, com pressão, em casa, diante de nosso torcedor, mas graças a Deus não foi isso que aconteceu. Mas é da mesma forma, inevitável não pensar, você é ser humano, mas tem de buscar não pensar ao máximo.

Como tem de se comportar nos dois jogos?
Temos de jogar com tudo o primeiro jogo fora, porque se não tomarmos o gol como foi contra o Flamengo, temos grandes chances de pegar o caneco. Sabemos que precisaremos de muita concentração em Minas, vai ser difícil, tanto pela qualidade do Cruzeiro e a quantidade de torcedores, como vai ser. Mas é jogo de equilíbrio, e vamos tentar sair vencedor diante de nossa torcida.

Dá para dizer que a estratégia terá de ser a mesma de contra o Flamengo?
Sim, vamos no intuito de fazer um grande jogo e conseguir a vitória. Mas se a gente não conseguir a vitória, vamos ficar muito feliz com o empate, porque sabemos que é muito difícil empatar com eles lá.

Quais os planos para o futuro no Corinthians?
Difícil querer antecipar algo que está pela frente. Tenho de pensar no momento, estou feliz aqui, penso em renovar no ano que vem, ficar aqui, me aposentar aqui, mas primeiro conquistar esse título, até para valer de renovar. Mas não sei o que o destino me reserva, tenho de pensar no momento. Depois vou ver o que Deus prepara para mim. Ainda não pensei em pós-carreira, se aposentar, enquanto estiver rendendo, quero ajudar o Corinthians.

Ainda se vê vestindo outra camisa de time no Brasil?
Ah difícil, toda minha entrega, conquistas foram através do Corinthians. Eu não me vejo com outra camisa que não o Corinthians, tanto que voltei e fiquei muito feliz que foi para o Corinthians. Clube que me abriu as portas para o mundo, seleção. Então quero permanecer aqui, me aposentar, aqui me sinto feliz.

Qual a principal virtude desse grupo?
Não só esse como todas as vezes foi é a união. Sempre nos fechamos aqui, desde o Mano. Quem está melhor vai jogar, quem não está vai ajudar também. E um ajudando o outro, assim é o futebol. Um exemplo é o Douglas, que não poderá jogar a final. A lealdade é o diferencial do Corinthians. único clube que eu peguei que um liga para o outro, quando está atrasado, e liga perguntando. E isso faz a diferença, e levo para toda a minha vida, essa união.

O Pedrinho é o melhor jovem com quem você já trabalhou?
Pedrinho é acima da média, pela idade, potencial que tem, pelo porte físico que tem. Mas creio que o Arana foi fundamental aqui, o Malcon, Léo Jabá, cada um com sua característica. O Pedrinho é diferenciado, temos de dar total confiança para continuar fazendo isso, ter alegria para jogar, e também o Jair está conversando com ele para ele ajudar na marcação também, na idade dele é difícil só atacar, tem de saber marcar também.