David Nascimento
10/10/2016
16:12
Rio de Janeiro (RJ)

O Vasco, em São Januário, promoveu na tarde desta segunda-feira, ao lado do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, o lançamento do Relatório da Discriminação Racial no Futebol de 2015. O documento foi elaborado pelo Observatório em conjunto com a Esefid (Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança), ligada à UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). E com números preocupantes: em pleno 2015, o número de casos de racismo, por exemplo, no futebol, aumentou de 20 para 35.

Marcelo Carvalho, presidente do Observatório, esteve em São Januário e apresentou aos jornalistas os números colhidos ao longo da elaboração do relatório. O aumento de 75% impressiona. Simultaneamente, apenas um caso foi punido pelo Tribunal de Justiça Desportiva. Em outros dois, o agressor foi preso, identificado e liberado pela polícia após pagamento de fiança. Em outro, a Federação local suspendeu preventivamente o acusado. E nos demais casos de racismo, nenhuma esfera passível de punir o fez (confira na galeria acima gráficos representativos sobre a evolução).

- O caso de racismo é noticiado, gera repercussão, mas não encontramos informações das punições. Existe lei contra o racismo, mas não há ninguém preso. O problema existe, mas o que a gente faz com esse problema? Se não debater, lutar contra isso, vai continuar existindo. O pior a se fazer é o silêncio, todos precisam lutar contra este tipo de acontecimento – afirmou Carvalho.

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Os casos têm um registro maior na região Sul do Brasil. Rio Grande do Sul liderou a lista com nove registros em 2015 (já tinha liderado em 2014, com cinco). Casos de homofobia, xenofobia e em outros esportes além do futebol também foram registrados no relatório. Presidente do Vasco, Eurico Miranda esteve na mesa durante o debate e relembrou a importância histórica do clube no combate aos mais variados tipos de discriminação.

- Temos que nos esforçar para que a discriminação venha a ser extinta no Brasil. O Vasco tem tradição histórica em colaborar. No Vasco, o de gravata e o de chinelo são completamente iguais. Respeitamos as tradições. Vem desde a base há tempos. Mas tenho muito medo quando começam a misturar as coisas, de que comece a derivar. Eu cito esse negócio de chamar de bicha. Isso nem é brasileiro, começou no México. Aqui no Brasil chamar de bicha não pode ser ofensa num jogo de futebol. A gente chama de bicha até quem não é - dissertou o presidente do Vasco.

O zagueiro Jomar representou os jogadores do Vasco e contou um caso de racismo que viveu já como atleta.

- Já sofri racismo no meu ex-clube, quando fui substituído. Eram um branco e um negro. Me chamaram de macaco. Ali fiquei pensando: “Qual palavra vou dar para ele? Deus te abençoe.” Tomei meu banho tranquilo, e a primeira coisa que fiz foi abraçar a minha mãe, chorando. Não posso levar essa coisa adiante, tenho que procurar esquecer. Temos que dar um basta nisso – afirmou o zagueiro vascaíno.

Procurador-geral do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, Felipe Bevilacqua foi outro a falar durante o debate e garantiu um compromisso de que atuará pessoalmente nos casos cabíveis contra os tipos de discriminação que possam a vir a ocorrer no esporte brasileiro.