Alex Sabino -
25/07/2016
08:30
São Paulo (SP)

Marinho fez gol pelo Vitória contra o Cruzeiro. Não se lembrava disso. Perguntou à repórter qual havia sido o placar da partida . Ele sofrera pancada na cabeça e caíra desacordado em campo. Teve uma concussão.

O volante alemão Kramer foi campeão do mundo há dois anos, no Brasil. Mas não tem qualquer recordação. Ele foi substituído ainda no primeiro tempo da final com a Argentina após um choque com adversário. Não tem na memória nada da decisão, seu maior momento na carreira. Nem da festa do título, que aconteceu a seguir.

São dois casos de um problema que preocupa cada vez mais a comunidade médica envolvida no futebol: as lesões cerebrais.

- O médico do Vitória pode não ter visto que o jogador (Marinho) caiu desacordado. Mas o protocolo, nesses casos, é tirá-lo da partida. O problema é que nem sempre o médico vê que o jogador ficou desacordado – explica o neurologista Renato Anghinah, do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Se o atacante recebesse uma nova pancada durante o jogo, no mesmo local, enquanto o cérebro estava em processo de inflamação, corria risco de morte.

- Meu pai foi campeão do mundo. Morreu sem se lembrar que sequer havia sido jogador de futebol – constata Dawn Astle ao LANCE!.

Ela é filha de Jeff Astle, integrante do elenco da Inglaterra que venceu a Copa do Mundo de 1966. Ele morreu em 2002, aos 59 anos, após definhar fisicamente com problema de demência.

- Ele morreu quando estava com 59. Mas parecia um homem de 90 anos. Minha mãe lhe mostrava as fotos de quando era jogador, ele olhava e perguntava: “quem é esse?” – completa Dawn.

A família doou o cérebro do autor de 174 gols em 361 partidas pelo West Bromwich Albion para a Universidade de Glasgow. O neuropatologista Willie Stewart descobriu que Astle não havia morrido em decorrência de Alzheimeir, como se imaginava. Nenhum especialista havia detectado até então que ele tinha Encefalopatia Crônica Traumática, doença comum a esportistas que sofrem repetidos choques com a cabeça e repetidas concussões.

"Ele morreu quando estava com 59. Mas parecia um homem de 90 anos. Minha mãe lhe mostrava as fotos de quando era jogador, ele olhava e perguntava: “quem é esse?”


Dawn criou a Jeff Astle Foundation para pressionar as autoridades. Pede que estudos sejam realizados sobre quais os impactos a longo prazo de contusões na cabeça e possíveis sequelas.

- Você pode ter uma concussão e não perder a consciência. Há diferentes níveis. Você vê muitos jogos que um jogador bate com a cabeça no adversário. Parece leve, mas imagina ter um número de pancadas começando com as categorias de base. São mais de 20 anos de repetidos choques… - afirma Anghinah.

CBF e Federação Paulista têm grupos de estudos para debater lesões. Os números da Confederação Brasileira são que as contusões na cabeça só não são mais comuns do que as na coxa nas Séries A e B.

O cérebro de Astle foi um dos três doados à ciência até hoje para estudo do impacto que o futebol prode provocar no cérebro. Outro foi do ex-zagueiro brasileiro Bellini, campeão mundial de 1958. A análise do jogador, morto em 2014, mostrou que os repetidos choques também fizeram com que ele morresse com demência causada pela Encefalopatia Crônica Traumática.

À Jeff Astle Foundation, a Federação Inglesa respondeu que s bolas até a década de 80 eram de couro e mais pesadas, especialmente em dias de chuva. Hoje em dia, o material sintético, as torna mais leves e menos perigosas.

- Eles (as autoridades) têm medo do que um estudo independente vai mostrar. Querem sempre descartam as nossas preocupações. Vão deixando para depois – reclama Dawn.

- Não há qualquer estudo que comprove que a bola atual é mais segura do que a de antigamente. Qualquer afirmação é palpite – analisa Willie Stewart, que fez a análise do cérebro de Astle.

Quando o jogador desmaia em campo e é claro o problema, há um protocolo estabelecido, mas nem sempre respeitado. Tirá-lo da partida e levá-lo para o hospital imediatamente. Mas e as contusões que não são graves, mas se repetem no decorrer dos anos e não são visíveis?

- Na NFL (futebol americano), NHL (hóquei no gelo) e NBA (basquete), os médicos norte-americanos fazem uma avaliação médica na pré-temporada que inclui tomografias da cabeça. Mesmo que o atleta aparentemente esteja normal, é possível fazer uma comparação de qualquer mudança de um ano para outro. Há um histórico – explica Anghinah.

No futebol, não há.

Em 2004, cinco especialistas realizaram estudo com 53 jogadores em atividade na Holanda. O objetivo era verificar mudanças cognitivas. A conclusão foi que o futebol profissional pode prejudicar o funcionamento do cérebro e os atletas estudados tiveram perda de memória, planejamento e processamento de percepções no decorrer das temporadas.

- Se a bola for cabeceada corretamente, não é suficiente para causar uma concussão. Mesmo em crianças e adolescentes, que não têm força necessária para fazer a bola viajar muito rapidamente. A concussão pode acontecer se o jogador receber uma bolada na cabeça inesperada. O mesmo para choques com outros jogadores – assegura o médico Donald Kirkendall, especialista em medicina esportiva na Universidade de Duke, nos Estados Unidos.

As lesões cerebrais não diagnosticadas já custaram caro (financeiramente) em outros esportes. Por não ter tomado providências para proteger os atletas, a NFL, liga de futebol americano, foi processada. Em 2013, foi obrigada a fazer um acordo. Pagou US$ 765 milhões (R$ 2,5 bilhões pela cotação atual) para encerrar o assunto e investiu em pesquisa para calcular o impacto dos choques na cabeça dos jogadores em atividade.

- O que vimos até agora é apenas a ponta do iceberg. Novos casos vão aparecer se nada for feito – constata Dawn Astle, com a lembrança do pai que morreu sem se lembrar que foi campeão mundial.


BATE-BOLA
Renato Anghinah,  neurologista do Hospital das Clínicas

1. O futebol no Brasil está preocupado com contusões na cabeça e lesões cerebrais dos jogadores?
Começou a preocupar mais quando foi descoberto que Bellini morreu com Encefalopatia Crônica Traumática. Existe um congresso médico organizado pela CBF antes de cada Campeonato Brasileiro. Desde 2015, foi inserido o tema da concussão.

2. Qual a orientação em caso de concussão?
Se o jogador perde a consciência, o jogador tem de ser retirado de campo. Existe algo que se chama “crise do segundo impacto”. No primeiro choque, há um processo inflamatório no cérebro. Se houver um segundo impacto no mesmo local pouco tempo depois, aquela inflamação pode acelerar e até causar a morte.

3. O risco no futebol é o mesmo do futebol americano?
A gente não sabe. Na cultura dos esportes americanos, a concussão já está muito presente. Há a consciência de que um protocolo deve ser seguido. No futebol, a Fifa é um pouco resistente a mudanças.