Davizinho

Davizinho e Gabriel Medina: amizade baseada na paixão pelo surfe (Foto: Divulgação)

LANCE!
19/06/2016
19:57
Rio de Janeiro

Ele é considerado o Gabriel Medina do surfe adaptado. Aos 10 anos, David Teixeira, o Davizinho - vice-campeão mundial de surfe adaptado, realizado pela International Surfing Association (ISA), em La Jolla, na Califórnia, Estados Unidos, em 2015, ficando atrás apenas do americano Jesse Billauer, de 36 anos - é referência no esporte no Brasil e no mundo. Ele nasceu com a síndrome da banda amniótica, uma má formação nos braços e nas pernas, mas superou ondas gigantes nos primeiros anos de vida como preconceito e dificuldades de locomoção para se tornar atleta e inspirar pessoas. Integrante da Equipe Furnas, Davizinho dá palestras em escolas públicas, participa de clínicas em comunidades carentes e ajuda a divulgar o esporte.

A síndrome da banda amniótica é uma desordem congênita rara, causada pela formação de faixas e cordões de tecido fibroso, que aderem ao feto. Não é hereditária, tem causa acidental e atinge uma a cada 1.200 pessoas. A mãe de Davi, Denise Teixeira, soube do diagnóstico do filho no quinto mês de gestação e, com atitude positiva e apoiada pela família, sempre o incentivou a praticar esportes como forma de socialização e também para auxiliar no seu desenvolvimento motor.

Davizinho começou no skate, em 2014, e migrou para o surfe ano passado. Com menos de um ano e meio de prática, já participou de campeonatos nacionais e internacionais e concretizou o sonho de conhecer seu grande ídolo, o campeão mundial Gabriel Medina. Hoje, Davizinho é quem incentiva a irmã, Ana Carolina, de 19 anos, a praticar a modalidade. Em conversa com o Lance!, Denise falou sobre a descoberta da rara doença, o início do filho no esporte, a rotina de atleta e os planos para o futuro. E Davizinho mandou um recado sobre o segredo do seu sucesso: "Nunca desista dos seus sonhos! Na minha vida existem três palavras mágicas: fé, força e determinação. Se não vencermos nós mesmos, não vencemos mais ninguém. Eu corro atrás de todos os meus sonhos. Um dia ainda vou ser igual ao Medina e a gente vai pegar muita onda junto."

Início no esporte
"O Davizinho sempre gostou de esportes radicais. Primeiro foi a natação, depois o skate e agora dando prioridade para o surfe. Ele pega onda há apenas um ano e 6 meses. Tudo começou com uma pranchinha de bodyboard que comprei para incentivá-lo, pois sempre gostou de aventuras. Quando um surfista chamado Souto o viu na praia com aquela pranchinha, achou interessante e brincou com ele: "Vamos dar uma volta nessa prancha aqui?" E quando o Davi olhou, era a prancha de bico como dos surfistas profissionais, a prancha dos sonhos dele. Então, aceitou o convite do Souto. Na hora, fiquei meio desesperada, pois achava que ali não era legal, bem na reserva da Barra, muito perigoso. E lá foi o Davi com o surfista. Na primeira onda que ele desceu, o Souto ficou maravilhado de ver o equilíbrio, a força de vontade e a determinação do pequeno Davi. Na hora de ir embora, ele se aproximou do Davi e, emocionado, ofereceu a sua prancha de presente. A partir daquele momento, tive de procurar uma escolinha de surfe. Não foi fácil, pois muitos professores não sabiam como lidar com ele e ficavam com medo. Até que consegui a primeira escolinha de surfe no Recreio. Paralelamente, ele também treinava no Adapt Surf (escola de surfe adaptado na Barra da Tijuca). Com apenas três meses no esporte, ele foi convidado a participar do Campeonato Mundial de Surfe na Califórnia."

Mundial da Califórnia
"Aceitamos o desafio de ir para o Mundial da Califórnia, mas sem saber como. Faltavam três meses para viagem e não tínhamos condições financeiras, mas Davi queria muito e fui atrás do sonho do meu filho, buscando patrocínio com pessoas amigas. Uma semana antes da viagem, já estávamos com visto, passaporte e não sabíamos falar inglês. Fomos na cara e na coragem. Primeiro, Davi foi convidado a assistir à etapa de surfe do Gabriel Medina, em Trestlles, na Califórnia, e depois partimos para La Jolla, para participar do Mundial Adaptado, que foi um sucesso. Ele competiu com atletas mundiais que tinham o triplo da idade dele e, das cinco baterias, conseguiu o primeiro lugar em quatro. Somente na última, quando se deparou com um leão marinho maior do que ele em sua frente, ficou desesperado e não conseguiu mais descer a onda. Então, eu e a irmã dele entramos no mar e gritamos: 'Vai Davizinho, você consegue!' Ele nos olhou, voltou para onda gritando: 'Eu consigo!' e lá foi ele para o vice-campeonato."

Gravidez
"Foi uma gravidez muito desejada e acompanhada. Soubemos no exame morfológico do quinto mês de gestação da má formação do nosso pequeno Davi. Foi um choque. No começo, nos desesperamos. Senti como não tivesse mais saída, que não pudesse pisar no chão... Mas, esfriando a cabeça, e ouvindo a minha filha, que sempre repetia que queria um irmão do jeitinho que viesse, ganhei forças para superar os dias que se passaram até a chegada do Davi. Pela ultrassonografia, os médicos não sabiam como ele viria, se teria ao menos um dos pés ou a perna, não dava para ver a parte de baixo, só os bracinhos com a má formação. Aparentemente, embaixo ele seria normal. E o médico me alertou que ele poderia nascer e morrer alguns dias depois, porque não se sabia se havia algum comprometimento dos órgãos internos. Mas, graças a Deus, Davizinho nasceu somente com má formação externa, não tem problemas internos."

Preconceito
"Lidar com as pessoas não foi muito fácil no início, pois a curiosidade e a falta de respeito eram grandes e incomodavam quando eu saía na rua com meu filho. Tive, então, que primeiro me mudar, deixar as pessoas pra lá e mostrar que o meu amor por ele era muito maior que a opinião delas. E também não queríamos que o Davizinho fosse visto como um coitadinho. Desde pequeno, ele já era muito inteligente, esperto e decidido. Eu sempre acreditei que, se Deus permitiu que ele viesse, era para fazermos a diferença na sociedade. Por isso, luto e continuarei lutando pelos sonhos dos meus filhos."

Aceitação
"O Davi sempre se aceitou e lidou com as suas limitações muito bem. Ele se acha muito bonito e tem muito orgulho dele próprio. "

Rotina
"A sua rotina não é nada fácil. Como bom atleta, depois das suas atividades escolares pela manhã, Davi faz os treinos de surfe e natação e, quando sobra um tempinho, sobe nas rampas com skate. Ele leva a vida de um garoto normal da sua idade: gosta de jogar videogame, de ir ao cinema, viajar e brincar com os amigos. "

Exemplo
"Sentimos que hoje ele faz a diferença na vida das pessoas, que incentiva e inspira. A irmã, por exemplo, começou a praticar esportes por causa do Davi."

Reconhecimento
"Fico muito feliz quando pessoas nos param na rua, como aconteceu recentemente. Andando no ciclovia da Barra, um homem parou e pediu para tirar uma foto com ele, porque o seu filho tinha sofrido um acidente, mas não queria sair de casa... Contar a história do Davi é uma grande motivação. Muitos surfistas no Facebook mandam comentários dizendo que tinham deixado de surfar, mas voltaram depois de ver a história dele. Elogiam a determinação. Cada vez que leio comentários como esse, tanto eu como o Davi, ficamos emocionados. Saber que realmente estamos conseguindo inspirar pessoas com ou sem problemas físicos é maravilhoso."

Futuro
"O Davizinho sonha ser, além de surfista profissional, engenheiro robótico e ministrar palestras quando for adulto. No surfe, o próximo desafio dele é o Duck Festival, em agosto, no Havaí. Em outubro, ele vai disputar novamente o Mundial de Surfe Adaptado, na Califórnia."