No clima olímpico, Gabriel Medina inicia preparação para temporada no Centro de Treinamento Time Brasil

Gabriel Medina treina no COB antes da busca pelo tricampeonato do Circuito Mundial (Foto: DANIEL SMORIGO/WSL)

Jonas Moura
15/03/2019
07:00
Rio de Janeiro (RJ)

Determinado a contar com a força máxima do surfe nos Jogos Olímpicos de Tóquio-2020, o que pode fazer a diferença no quadro de medalhas, o Comitê Olímpico do Brasil (COB) decidiu não esperar o resultado das disputas políticas da Confederação Brasileira de Surfe (CBSurf) e estabeleceu uma aproximação com os principais nomes do Brasil.

Se antes a rotina de Gabriel Medina, Filipe Toledo e Italo Ferreira parecia um mundo paralelo ao dos esportes gerenciados pelo COB, hoje o público pode acompanhar nas redes sociais os treinos do surfista bicampeão do mundo nas instalações do Centro de Treinamento do Time Brasil, no Parque Aquático Maria Lenk, no Rio de Janeiro.

O processo para se aproximar da elite do surfe, que estreia no programa olímpico, não é simples. Embora os atletas costumem exaltar a chance de representar o Brasil nos Jogos, o foco é o Circuito Mundial (WCT), promovido pela Liga Mundial de Surfe (WSL, em inglês). É lá que estão os maiores nomes, as condições ideais e os prêmios valiosos.

Articular a classificação dos astros ficou mais difícil em meio à briga travada entre o presidente da CBSurf, Adalgo Argolo, e seu vice, Guilherme Pollastri, que no final do ano passado conseguiu liminar para afastar o mandatário por 40 dias, sob a alegação de má gestão. Em janeiro, o baiano barrou a medida nos tribunais e retomou o poder. Desde então, as partes batalham na Justiça pelo cargo, em uma novela longe do fim.

Na prática, o dia a dia da confederação pouco interessa para Medina e companhia, insatisfeitos com o comando do esporte no país. Mas o COB liga o alerta, visto que a classificação para Tóquio-2020 começará a ser definida na temporada deste ano.

Mundial de Surf - Gabriel Medina
Medina está focado no Circuito Mundial (Foto: DANIEL SMORIGO/WSL)

O Comitê Olímpico Internacional (COI) estabeleceu critérios de elegibilidade para os Jogos, como ter "um bom relacionamento" com sua confederação nacional e a Associação Internacional de Surfe (ISA, na sigla original em inglês). E condicionou a presença dos surfistas em Tóquio à participação em eventos paralelos ao WCT.

– Nós estabelecemos contato direto com os principais atletas no sentido de compreender a dinâmica de preparação e buscar que problemas de ordem política não interfiram no que nos interessa, ou seja, que o Brasil seja representado pelos melhores nos Jogos – disse Jorge Bichara, diretor de esportes do COB, ao LANCE!.

Hoje, Medina trata diretamente com o órgão máximo do esporte olímpico do Brasil sobre preparação, calendário e demais conflitos de datas para que todos os requisitos sejam cumpridos. E a aproximação anima os dirigentes.

"Entendemos que há uma disputa judicial em andamento e respeitamos as posições. A Justiça determinará quem tem razão. Enquanto isso, temos feito ações para neutralizar os efeitos na preparação" - Jorge Bichara, diretor do COB

– Estamos em contato com a confederação, tanto com o atual presidente, quanto com o vice. Entendemos que há uma disputa judicial em andamento e respeitamos as posições. A Justiça determinará quem tem razão. Enquanto isso, temos feito ações para neutralizar os efeitos na preparação – falou Bichara.

Testes animam surfista

Medina passou as últimas duas semanas no CT do Time Brasil, onde realizou testes físicos e avaliações científicas. Nos próximos dias, ele embarca para Gold Coast, na Austrália, palco da abertura do Circuito Mundial, entre 3 e 13 de abril. Saiu motivado.

– Todos esses detalhes fazem diferença na minha performance. São detalhes que nunca tive acesso na vida. Vou poder melhorar o que eu tenho de ruim. Eu sempre procuro melhorar e isso é fundamental. Está sendo uma experiência incrível – afirmou o bicampeão mundial (venceu em 2014 e 2018).

Se os critérios de classificação para Tóquio-2020 forem mantidos, o surfista terá de encarar algumas maratonas. Disputar os Jogos Mundiais da ISA de 2019 e 2020 é um dos requisitos para se tornar "elegível" na qualificação. A edição deste ano do torneio, sem apelo para a elite, acontece em setembro, em meio ao WCT.

O torneio de surfe em Tóquio-2020 contará com 40 atletas, sendo 20 por naipe. Cada país pode inscrever no máximo dois nomes por gênero. De acordo com o sistema definido pela ISA e pelo COI, os primeiros 10 homens elegíveis e as primeiras oito mulheres elegíveis no WCT 2019 garantem a classificação.

As demais vagas serão preenchidas nas edições de 2019 e 2020 do ISA World Surfing Games, no Pan de Lima (para o campeão de cada naipe) e na Copa da Nação Anfitriã (para campão de cada naipe, caso os japoneses não consigam a qualificação dentro dos outros critérios).

– Estou indo para Austrália para a primeira etapa do Circuito, mas com bastante foco nos Jogos Olímpicos. É o começo de um trabalho longo e duro, mas que começamos aqui. Quero estar em Tóquio representando o Brasil. Falta pouco, cada dia que passa falta menos, então agora é continuar esse trabalho, treinar e buscar a classificação. Se Deus quiser, a gente se vê no Japão – disse Medina.

COB ainda "salva" outras confederações

Não é só o surfe que precisa da "mão" do COB para evitar que os atletas fiquem fora das principais competições, em momento crucial para a obtenção de vagas em Tóquio-2020.

A Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), a Confederação Brasileira de Basquete (CBB) e a Confederação Brasileira de Taekwondo (CBTKD) estão há meses impedidas de receber repasses da Lei Agnelo-Piva. 

A medida, em alguns casos, é decorrente da falta de prestação de contas até mesmo de gestões anteriores. Enquanto as entidades tentam solucionar as questões, o COB executa os projetos que deveriam ser feitos pelas confederações, como a viagens e toda a logística de eventos e treinamentos no exterior.

– Algumas confederações estão em ações conjuntas diretamente com o COB por impedimentos de receber recursos. Nós tentamos colaborar para impedir que as ações de representação internacional do Brasil sofram algum tipo de interrupção. Algumas têm situações transitórias – afirmou Bichara.

O IMBRÓGLIO NA CBSURF

Mico internacional
No ano passado, o COB ofereceu apoio logístico para a CBSurf durante a preparação para os Jogos Mundias da ISA, que aconteceram em Tahara (JAP). A confederação recusou, não conseguiu a tempo a documentação necessária para comprovar os gastos com recursos da Lei Agnelo-Piva para a viagem e cancelou a ida da delegação, horas antes do embarque. O torneio deu duas vagas em cada naipe no Pan de Lima-2019, que por sua vez garantirá aos campeões de cada naipe um lugar em Tóquio-2020.

Ação na Justiça
Em dezembro do ano passado, o vice Guilherme Pollastri obteve liminar para afastar o presidente Adalvo Argolo na Justiça do Distrito Federal. Em janeiro, o grupo do primeiro lançou uma moção de apoio, subscrita por mais de 200 atletas. O texto dizia que a comunidade havia testemunhado "a precariedade e irregularidades das gestões sucessivas do presidente" e criticava o baiano por "relegar nosso esporte ao atraso e nossos atletas, gestores e profissionais à condição de vítimas de um sistema obsoleto, pernicioso e nocivo ao seu desenvolvimento".

Reviravolta
No final de janeiro, a Justiça do DF reformou a decisão liminar que havia afastado Argolo do comando da entidade. Em reação, Pollastri convocou uma assembleia com as federações para articular um impeachment. O presidente não reconheceu o encontro, acusou o opositor de "malandragem" e disse que tomaria medidas cabíveis diante dos atos do vice, que o acusa de não prestar contas e de não haver reunião entre os conselheiros fiscais na confederação.

Convocação
Em decisão publicada na última quarta-feira, Argolo convocou o Conselho Fiscal a se reunir no próximo dia 21 de março, na sede da CBSurf, em Salvador, para emitir um parecer anual sobre o movimento econômico, financeiro e administrativo e o resultado da execução orçamentária, conforme prevê o estatuto.