Marcio Porto
15/06/2018
07:45
Enviado especial a Sochi (RUS)

Quem não o conhece e vê Roberto Firmino exibir seu sorriso reluzente na concentração da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo nem imagina que o atacante do Liverpool (ING), de 26 anos, é de uma timidez assustadora. Desde sempre. Natural de Maceió, Alagoas, Firmino é o único representante nordestino entre os 23 convocados para a Copa e se tornou um dos "Homens de Gelo" de Tite com a marca da superação que tanto acompanha os nascidos naquela região. A timidez, ainda bem, é só fora de campo, porque dentro o jogador de 26 anos nunca se intimidou com os zagueiros adversários e driblou a fome para disputar o Mundial e ser o 13º personagem da série do LANCE! sobre o grupo que tentará o hexa na Rússia.

ROBERTO FIRMINO, MAS PODE CHAMAR DE ALBERTO


Firmino passou pouco tempo no Brasil depois que virou profissional, mas o suficiente para marcar a vida de Hemerson Maria, seu treinador nas categorias de base do Figueirense, clube que o projetou. As lembranças daquele menino que chegou no sub-17 e menos de dois anos depois era vendido para o futebol alemão seguem vivas na memória. As do primeiro dia, então, são especiais.

- No primeiro treino dele, ele fez dois gols de bicicleta. Fez um no primeiro toque na bola, depois passou o jogo fazendo jogada de efeito: caneta, chapéu. No fim, dominou uma bola, deu outro chapéu e fez de bicicleta. Era um talento assustador - lembra Hemerson, atualmente técnico do Vila Nova na Série B.

Impressionado com o garoto que chegou do CRB de Alagoas, o treinador se esforçou para não perdê-lo de visto, pois poderia estar diante de uma joia. Estava.

- Quando ele entrou no ônibus, toda hora eu olhava para trás, para ver se ele estava no ônibus, porque não poderia deixar escapar. Foi um trajeto de 40 minutos, eu olhei para trás umas cinco, seis vezes, para ver se ele estava lá. Logo que desembarquei, peguei ele pelo braço, e levei na diretoria: "Não deixa esse menino sair daqui, escapar, porque é um fenômeno" - assegura Hemerson. 


Assustadora também era a timidez do garoto, que esbanjava o sorrisão, mas tinha dificuldade para se comunicar. A timidez externa outra característica de Firmino: a humildade de quem cresceu diante de muita dificuldade. Essa faceta era tão presente, que rendeu uma história curiosa com Hemerson. Hoje reconhecido como astro pela torcida do Liverpool, que o chama de Bobby Firmino, adaptação inglesa de Roberto, Firmino por um tempo foi chamado por outro nome. E nem se importava.

- Eu fiquei chamando ele umas duas semanas de Alberto. Era Alberto vem cá, faz isso. Ele me atendia, tinha sempre aquele sorriso dele até hoje. Aí teve um dia que o preparador físico falou que era Roberto. Aí fiz o teste: "Alberto vem cá. Teu nome é Alberto ou Roberto?" Ele disse: "Roberto". E eu: "Por que você não me disse?" Ele: "Tudo bem, professor, estou aqui".

segundo Hemerson, o forte sotaque nordestino contribuía para Firmino quase nunca se expressar seja com ele ou os companheiros. No shopping, então, era um problema.

- Ele ia no comércio comprar roupa de frio e tinha vergonha de falar com a vendedora. Ele pedia para os meninos, apontava a roupa que queria usar, e eles que falavam com a vendedora - conta.

Bem diferente da desenvoltura apresentada em campo, que conquistou Tite. Foi demonstrada no amistoso contra a Croácia, quando marcou o gol de cobertura na vitória brasileira por 2 a 0 em Liverpool. E nos treinos em Sochi tudo que Firmino menos é no campo é tímido.

Hemerson Maria
Hemerson Maria, treinador de Firmino na base


A PROMESSA DE UMA VIDA

A dificuldade na comunicação não impediu que o menino de Maceió voasse baixo. Mas não foi fácil. De família extremamente humildade, Firmino tinha dificuldade para se alimentar na infância e desse período tirou a principal lição da vida. Ai deixar a capital alagoana para tentar a sorte no futebol de Santa Catarina, ele fez uma promessa para si mesmo. E a chegada à Rússia para a disputa de uma Copa do Mundo é a prova de que ele foi muito além dela.

- No campeonato sub-17. fomos campões, e a gente daria um período de férias para eles irem para a casa, porque teria a Copa São Paulo logo depois, em 2009. Roberto não quis ir para casa, fazia sete meses que ele não ia para Maceió. Aí perguntei o porquê, e ele disse: "Minha família é muito pobre, tenho coisas para melhorar, e só vou para casa quando for alguém na vida - conta Hemerson Maria.

Fica fácil entender porque o atacante antecipou sua apresentação à Seleção para a Copa após ser vice-campeão da Champions League com o Liverpool. Firmino não só se tornou alguém na vida, como virou um dos principais atacantes do futebol europeu e briga com Gabriel Jesus por uma vaga no ataque da Seleção. Sorte de Tite e da Seleção, que podem usufruir do talento do menino tímido que voltou para casa bem diferente do que saiu.