Marcio Porto*
17/07/2018
05:13
Em Moscou (RUS)

"Ontem eu sonhei que estava em Moscou..."

...Descendo para o Gorky Park, ouvindo o vento de mudança. Como na música "Wind of Change". Você não conhece Wind of Change? É uma épica e bela canção do Scorpions, consagrada banda de rock alemã. Além de linda, tem um significado especial para o sertanejo aqui e é ótimo instrumento para entender um pouco mais da Rússia e de Moscou, agora já na ressaca depois da final da Copa vencida pela França. 

O Gorky Park é um dos maiores e mais famosos de Moscou. É gigante. Reúne milhares de pessoas por dia. Tem inúmeras atividades de lazer, desde pingue-pongue, quadras poliesportivas, skate, etc. Até um espaço adaptado com areia para prática de vôlei de praia. Durante minha visita, tinha muito nego jogando, inclusive franceses que estendiam com orgulho a bandeira do país campeão da Copa. Há também belos lagos, diversos restaurantes e bares em meio às muitas árvores, muito ar puro, muita beleza. É um passeio encantador, essencial para se viver com plenitude a capital russa e entender melhor os costumes de seus habitantes. Ou para sentir, como eu senti, o "vento de mudança". 

Wind of Change, a canção do Scorpions, foi escrita no início da década de 1990. A banda engajada nas causas políticas e sociais aproveitou o complexo contexto histórico da época para escrever um dos hits mais tocados no mundo, inclusive lá em São Sebastião de Lagoa de Roça, cidade do Sertanejo. Foi a primeira música internacional que ouvi na vida, em meio a tanto forró. Você deve imaginar a dificuldade para as coisas chegarem por lá na década de 1990, né? Não tinha essa de MP3, Spotify, Youtube. A música começa com um assobio inconfundível, que você certamente já ouviu por aí. Eu, claro, passei a visita toda ao parque que inspirou a música assobiando ou tentando assobiar esse começo. Você lembra, né? A gente não pode ver uma vergonha que já quer passar. 

Mas a canção vale à pena. Fala das mudanças do mundo com o fim da Guerra Fria, da União Soviética e do Muro de Berlim. Era o sepultamento do comunismo dando lugar a novas tendências, e aquela passagem pelo Gorky Park, ao lado do rio Moskva, representava a mudança que viria pela frente. Não tem como você não pensar nisso diante desse cenário histórico. 

O comunismo da União Soviética acabou, mas suas marcas estão presentes no parque. Logo na entrada, você avista acima um busto de Vladimir Lenin, o primeiro líder da União Soviética, morto em 1924, quatro anos antes da inauguração do Gorky Park. Sua face está em volta da foice símbolo do período soviético. Há ainda muitas marcas do período em toda a Rússia e a discussão sobre qual tempo era melhor permanece. Não entremos nessa. 

Vale a reflexão do "vento de mudança" que permeou toda a Copa na Rússia. Agora, nos passos finais da caminhada, fica a sensação de como as coisas se alteram a todo o momento e temos de estar abertos às novas experiências, aos avanços, ao mundo que está em nossa volta. A França foi campeã com um time jovem, formado em sua maioria por filhos de imigrantes, uma mistura de raças, sonhos, trabalho. Uma grande mensagem. Os russos também tiveram de mudar, se abriram para o mundo. O país certamente não será o mesmo depois dessa experiência e quem o visitou também não. 

Se você um dia pensa em ir a Moscou, não pense duas vezes. Vá! Dê um passeio pela história e não se esqueça do Gorky Park para sentir o vento de mudança. A reflexão é sempre válida, ainda mais assobiando. 

Vou continuar peregrinando pela capital russa e logo mais volto com a despedida daqui. A Copa acabou e a ressaca é grande. Mas tem mais coisa aí!

"Ontem eu sonhei que estava em Moscou..." Não era sonho, não!

*Marcio Porto é repórter do LANCE! desde 2008 e está em sua segunda cobertura de Copa do Mundo - a primeira foi no Brasil. Paraibano de São Sebastião de Lagoa de Roça, cidade de pouco mais de 11 mil habitantes, irá desbravar as terras russas com a sede e fome do sertanejo. Cabra da peste que é, trará os relatos aqui para você! Simbora!