Neymar

Neymar saiu de campo acusando racismo (Foto: Franck Fife/AFP)

Leonardo Barreto*
15/09/2020
13:50
Rio de Janeiro (RJ)

Os casos de racismo no futebol não são isolados. No último domingo, Neymar foi a nova vítima. O craque brasileiro revelou ter sido chamado de "macaco" por Álvaro González, na derrota do Paris Saint-Germain para o Olympique de Marseille, pelo Campeonato Francês.

Após a partida em que saiu vitorioso por 1 a 0, o Olympique de Marseille divulgou uma nota apoiando González e dizendo que o zagueiro "não é racista" e que "demonstrou pelo seu comportamento diário desde que entrou para o clube, como já testemunharam os seus companheiros". Além disso, acrescenta que "O Olympique de Marseille é o verdadeiro símbolo do anti-racismo no desporto profissional francês".

Será mesmo? Um clube que, ao ter o jogador acusado de racismo (com vídeos do lance), defende o ativo do clube e se diz ser "o verdadeiro símbolo do anti-racismo". Neymar foi a vítima do momento, mas os casos são extensos. Não só na França, mas também na Espanha, Itália e outros lugares. É difícil se colocar como anti-racista se você não ajuda a combatê-lo, principalmente em momentos como estes. O primeiro passo é parar de tentar colocar a vítima como culpado.

Após o jogo, Neymar admitiu a agressão que o levou a ser expulso nos acréscimos da partida. No Twitter, o brasileiro revelou que seu único arrependimento é "não ter dado na cara" de González. O camisa 10, que já havia conseguido unir os brasileiros durante a Liga dos Campeões, teve mais uma vez o apoio da maioria nas redes sociais.

Alguns ainda insistem em dizer que o craque se joga em campo, mas a questão não é essa. A discussão não é sobre Neymar ser um bom ou mal jogador. Nada justifica o racismo praticado dentro ou fora do campo. E a falta de punição o torna cada vez mais constante.

Neymar - Instagram - Racismo
Neymar deixou mensagem no Instagram (Foto: Reprodução)

Em seu Instagram, Neymar disse ter percebido que os responsáveis não fariam nada. E, de certa forma, estava certo. González terminou a partida em campo e Neymar foi expulso pelo cascudo.

Em 2019, a Fifa fez um Novo Código Disciplinar que, na teoria, daria mais poder aos árbitros na luta contra o racismo. Desde então, casos marcantes como Balotelli, do Brescia, e Marega, do Porto, rodaram o mundo e nada foi feito. No caso do atacante do Porto, chegou a tomar cartão amarelo na comemoração do gol. Além desses, Romelu Lukaku, da Inter de Milão, Dalbert, da Fiorentina, Kessié, do Milan, Moise Kean, que estava na Juventus, mas hoje joga no Everton, e Koulibaly, do Napoli, também ficaram marcados. Não são apenas casos isolados.

A falta de punição é tanta que o próprio jogador chegou a postar no Twitter  que é punido por dar uma carretilha e por ter sido expulso. E cobrou apoio dos brasileiros.

A reação de Neymar, seu apoio a um presidente com falas racistas ou o jeito que o atacante joga não são motivos para que ele seja xingado de "macaco". Porque, como citado anteriormente, nada justifica o racismo.

Alguns tentaram argumentar a questão do craque brasileiro ter atitudes erradas, não se posicionar contra casos assim no geral, mas talvez isso tenha despertado essa vontade nele. Que daqui para frente Neymar possa ser o nosso Lewis Hamilton ou o nosso LeBron James. Que use sua visibilidade enorme para trazer à tona casos de injustiça racial que merecem e necessitam de terem punições.

Também existe o outro lado da história. Colunista do UOL, o ex-goleiro Aranha revelou que atletas que se posicionam são "cancelados".

- A partir do momento em que eu me posicionei, arrumei muitos inimigos. Quem se posiciona no Brasil vai ser perseguido ou cancelado, como é a moda agora. Ninguém protege o atleta que se posiciona; todo mundo cobra, mas ninguém banca. Ele fica abandonado, como eu fiquei - disse ele.

À Folha de São Paulo, o ginasta Ângelo Assumpção revelou ter perdido tudo ao se posicionar. Marcelo Carvalho, diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, diz que "a estrutura do futebol é racista" e que "há total falta de apoio ou do pensar na diversidade".

Talvez por esse motivo, Neymar seja um dos muitos brasileiros que não usam sua enorme visibilidade para se posicionar. Ao contrário de astros da NBA, Fórmula 1 e de outros esportes, o futebol brasileiro ainda segue um padrão em que o jogador está ali só para jogar e não emitir opiniões.

Neymar é um craque dentro de campo e esperamos que ele seja fora de campo também. Que os protestos de outros esportes inspirem nossos jogadores a seguirem esses passos até que, de fato, o racismo seja punido e negros parem de morrer e sofrer com ofensas absurdas.

*Sob a supervisão de Carlos Alberto Vieira