Declarações de Blatter repercutem negativamente
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A declaração infeliz do presidente da Fifa, Joseph Blatter, de que os homossexuais deveriam se abster de ter relações sexuais durante a Copa do Qatar 2022 repercutiu negativamente e gerou a indignação de grupos de direitos homossexuais em todo o mundo.
Na Inglaterra, a Rede de Torcedores de Futebol Gays, organização que promove a participação de homossexuais no futebol, emitiu uma declaração condenando a "piada" feita por Blatter e aconselhando o dirigente a se desculpar de imediato "ou pedir demissão".
Juris Lavrikovs, da Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transsexuais e Intersexuais da Europa, também reagiu às declarações de Blatter.
– Acho que a Fifa deveria sair dessa com uma declaração forte, ao invés de fingir que nada aconteceu. Estamos falando da violação de direitos humanos básicos. Isso não é piada, mas uma questão de vida ou morte para as pessoas – disse.
– Blatter falhou em entender a gravidade da desigualdade, não apenas em termos de pessoas gays no Qatar ou na Rússia – comentou, em entrevista exclusiva ao LANCENET!, o ex-jogador de basquete da NBA John Amaechi, que assumiu publicamente sua homossexualidade em 2007.
No Brasil, o presidente do Grupo Arco-Íris, Júlio Moreira, também acredita que o presidente da Fifa deveria se retratar publicamente:
– Foi uma declaração de mau gosto. A Fifa deveria avaliar melhor as questões culturais e de direitos humanos do país que sediará a Copa.
Copa das preocupações
O tratamento dado aos torcedores gays é apenas uma das preocupações com a realização da Copa no Qatar, um país onde homossexualidade é crime, mulheres não têm os mesmo direitos que homens e o consumo de bebida alcóolica em público é proibido.
Questionada por email sobre as declaração de seu presidente, Joseph Blatter, e um possível pedido público de desculpas, a Fifa, por meio de sua assessoria de imprensa, limitou-se a responder ao LANCENET! que sua posição é a de lutar contra todo tipo de discriminação no futebol, de acordo com o artigo 3 de seu estatuto:
"Discriminação de qualquer tipo contra um país, uma pessoa ou um grupo de pessoas, baseada em origem étnica, gênero, linguagem, religião, política ou qualquer razão é estritamente proibida e passível de punição por suspensão ou expulsão."
Racismo em pauta na Fifa
Se a Fifa não menciona a homofobia nem se preocupa com a possibilidade de jogadores homossexuais sofrerem preconceito, por outro lado, a entidade segue firme em sua campanha contra o racismo.
Durante a Copa da África do Sul, os capitães das seleções pregavam mensagens contra a discriminação racial antes das partidas da fase final, e faixas com a frase "diga não ao racismo" foram incorporadas às fotos das equipes.
– Faz parte de nossa responsabilidade comunitária utilizar competidores para elevar a consciência sobre as questões sociais latentes – afirmou Blatter, após a assinatura de uma declaração de combate ao racismo, em 2001.
A luta contra a homofobia, entretanto, nunca entrou na pauta da entidade, nem mesmo após o suicídio, em 1998, de Justin Fashanu, jogador inglês que dizia sofrer discriminação após se assumir gay.
Entenda melhor o Islamismo, religião oficial do Qatar
Além da religião
O Islã é uma religião que é interpretada por seus adeptos como um modo de vida, ultrapassando os limites da fé. Os ensinamentos islâmicos se refletem também em aspectos políticos, sociais e legais, por exemplo.
Popularidade
Com cerca de 1,7 bilhão de seguidores, é a segunda religião com maior número de fiéis no mundo, atrás apenas do Cristianismo.
Lei islâmica
A lei islâmica chama-se Xariá e tem no Alcorão sua mais importante fonte de direito e jurisprudência.
Marginalização da mulher
A maioria dos países islâmicos prevê um estatuto legal diferente para mulheres e homens. O Islamismo Ortodoxo prega que a mulher vale menos do que o homem. Além disso, as mulheres têm de seguir um rígido código de vestimenta.
Homossexualidade
A homossexualidade é condenada pelos ensinamentos islâmicos. Em alguns países muçulmanos, sexo entre pessoas
do mesmo gênero pode levar à pena de morte. No Qatar, a relação homossexual pode ser punida com prisão, multas ou punição corporal.
Confira o bate-bola exclusivo com John Amaechi, ex-jogador de basquete da NBA assumidamente gay:
LANCENET! - A Fifa faz campanhas contra o racismo, mas não toca no assunto da homofobia. Por quê?
John Amaechi - Acho que a Fifa não fez quase nada de efetico contra a homofobia no futebol e nas instituições que dirigem o esporte no mundo. A tragédia é que o futebol, por meio da liderança da Fifa, poderia ser uma ferramente incrível de mudança, mas não acho que eles saibam como fazê-lo e acredito que ninguém na liderança da entidade esteja interessado em fazer o que é preciso para que isso tenha efeito.
L! - Você acha que a Fifa deveria promover campanhas contra a homofobia também, especialmente depois das declarações de Blatter?
JA - A Fifa diz promover mudanças culturais e sociais positivas, mas o Blatter riu como uma criança de cinco anos ao ouvir a palavra "gay" na coletiva de imprensa. Você não promove mudança em um país lhe entregando o maior evento mundial de um único esporte e depois lhe pedindo que promova a igualidade.
L! - Sendo o futebol um esporte ainda muito amchista, porque você acredita que a Fifa não se envolve nessa causa?
JA - Parece que eles estão desconfortáveis abordando assuntos sérios relativos a identidade e igualdade e estão mais interessados em atacar o comportamentoo, como o incidente em que torcedores racistas joagaram babanas no campo, ao invés de atingir a raiz do preconceito. Parece haver um bastião do privilégio.
L! - Você acha que torcedores gays devem apoiar suas seleções na Copa do Qatar, em 2022?
JA - Pessoalmente, eu não visito países em que não sou bemvindo e ainda posso ser preso. Não posso falar por outros torcedores, mas não encorajo pessoas que me discriminam ativamente, seja no Qatar ou qualquer outro lugar.
L! - O que você acha da escolha do Qatar como sede da Copa 2022?
JA - É incompatível sugerir que o futebol não tolera discriminação e está conquistando novas terras, enquanto a Fifa entrega a Copa a um país que não acredita nesses princípios! Pelo contrário, isso parece um argumento cínico para expandir o marketing do futebol, às custas de seus princípios.
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