Jonas Moura
26/07/2019
08:00
Rio de Janeiro (RJ)

Maior nome do Brasil no taekwondo na história, Natália Falavigna tem uma nova missão na carreira e espera corresponder às expectativas nos Jogos Pan-Americanos de Lima (PER), que terão sua cerimônia de abertura hoje, às 21h (de Brasília). A ex-lutadora, de 35 anos, quer proporcionar à nova geração da modalidade aquilo que ela não teve dos dirigentes quando fez história no passado.

Única mulher brasileira campeã mundial, em 2005, e medalhista olímpica neste esporte, com o bronze em Pequim-2008, a paranaense continuou nos bastidores após se aposentar e hoje é diretora técnica da Confederação Brasileira de Taekwondo (CBTKD), uma das entidades que passaram por graves problemas de gestão nos últimos anos. Aos poucos, diz que tenta implementar uma nova mentalidade.

Em maio, o Brasil conseguiu uma campanha histórica no Mundial, em Manchester (ING), com cinco medalhas (duas de prata e três bronzes). A meta é dar sequência à evolução, enquanto atletas e profissionais tiram dinheiro do bolso para manter o esporte vivo, já que a CBTKD não tem patrocínios e a verba da Lei Agnelo/Piva está bloqueada, por dívidas da gestão passada. É o Comitê Olímpico do Brasil (COB) quem salva a entidade.

O Brasil terá oito atletas de taewkondo no Pan. São quatro homens e quatro mulheres. Os demais são Paulo Ricardo (até 58kg), Edival Pontes “Netinho” (até 68kg), Ícaro Miguel (até 80kg), Talisca Reis (até 49kg), Rafaela Araújo (até 57kg), Milena Titoneli (até 67kg) e Raiany Fidelis (acima de 67kg).

A modalidade é uma das que mais dá valor ao Pan. O título garante 40 pontos no ranking olímpico, o que significa, de uma só vez, a caminhada de quase um ano inteiro em torneios Open e Grand Prix. Os cinco primeiros colocados de cada categoria ao fim da corrida por pontos garantem vaga em Tóquio-2020.

Em Toronto-2015, o Brasil levou dois bronzes, com Iris Tang Sing (49kg) e Raphaella Galacho (67kg). O masculino passou em branco. Confira a entrevista exclusiva de Falavigna ao LANCE!.

Você desistiu da classificação para a Rio-2016 e, aos poucos, iniciou uma caminhada nos bastidores. Qual foi o maior impacto da mudança da vida de atleta para a de dirigente?
É uma mudança bastante brusca. Você só entende a complexidade do caminho a ser feito quando entra na função para valer. Quando atleta, passei pela fase na qual não entendia os processos. Sempre vinha aquele pensamento de “ninguém faz nada para mudar” ou “a conta que estão me mostrando está errada” (risos). Quando entrei na direção, vi como temos de lidar com a burocracia e sistematizar funções. É um trabalho bem difícil, mas, ao mesmo tempo, é algo desafiador.

Que balanço faz de seu trabalho na direção técnica da CBTKD?
Eu queria poder atender mais os atletas e ter mais recursos à disposição. Mas, se comparar com 10 anos atrás, muita coisa melhorou na Seleção. Hoje, projetamos medalhas olímpicas e temos seis atletas no top 20 de suas categorias, algo inimaginável quando eu era atleta. O Brasil não tinha representatividade nenhuma. Damos passos pequenos, sonhando em nos tornarmos uma confederação grande. Quando vejo resultados, como no Mundial de Manchester, me alegro por perceber que posso ter dado uma pequena contribuição, como facilitar uma viagem, proporcionar um momento em que eles só tenham de pensar em competir e oferecer estrutura. E, às vezes, simplesmente ouvir. Colocar em pauta. É tudo o que eu não tive.

A CBTKD virou notícia nos últimos anos por problemas financeiros e teve até o ex-presidente, Carlos Fernandes, afastado e condenado por má gestão. Como ela funciona hoje?
Sobrevivemos com os recursos da Lei Agnelo/Piva. Não temos patrocinadores, apenas fornecedores de material, como os uniformes de viagem e competição. A CBTKD está com as verbas bloqueadas. Estamos em fase de transição para voltar a receber os recursos. A solução é gastar de forma inteligente o pouco que temos. O COB deu suporte nesses anos, o que foi fundamental. Se eu pudesse, como departamento técnico, levar uma equipe maior e para mais torneios, faria. Mas temos de gastar com ações pontuais e dar o máximo de suporte ao atleta dentro das possibilidades viáveis. Em dois anos, conseguimos muito mais do que foi feito em décadas. A delegação vai para os principais campeonatos e temos assegurado verbas para alguns Grand Prix, além do Mundial Junior e o parataekwondo. É preciso entender que é um momento difícil e que a coisa vai andar lá na frente.

Voltando à área técnica, na qual você atua, quais são os diferenciais da Seleção hoje que permitiram resultados de expressão, como no Mundial?
Entendemos que era necessário trabalhar mais em conjunto e monitorar os atletas. Desenvolvemos um programa com blocos de treinamento e nomeamos os técnicos. Os atletas vêm para a Seleção e os acompanhamos no aspecto físico e técnico. Nem todos têm sparrings no mesmo calibre. Os treinadores pessoais são bem-vindos para acompanhar. Ao final de cada bloco, fazemos uma reunião com o atleta, indicamos os pontos favoráveis e o que melhorar, com dados comparativos disponibilizados em tempo real. Hoje, temos analista de desempenho e separamos cenas. Montamos um relatório e enviamos ao atleta e ao técnico pessoal. Tudo isso não acontecia lá atrás.

Qual é a meta no Pan?
Estamos muito confiantes pelo resultado no Mundial. É um sentimento especial quando ouço de atletas que a preparação foi a melhor possível. Passamos ao COB qual é nossa meta em Lima, mas prefiro não revelar. Queremos apagar a memória do que ficou no último Pan. Quem passou por todo aquele processo sofreu bastante.

QUEM É ELA

Nome
Natália Falavigna Silva
Nascimento
9/5/1984, em Maringá (PR)
Currículo
Bronze em Pequim-2008; campeã do Mundial (Espanha-2005); bronze nos Mundiais de 2001, 2007 e 2009; campeã do Mundial juvenil (Irlanda-2000); bicampeã dos Jogos Sul-Americanos (Brasil-2002 e Argentina-2006); campeã da Universíade (Sérvia-2009); prata na Universíade (Coreia do Sul-2003) e prata no Pan do Rio-2007.