La Cruz (Cuba) x Keno Machado (Brasil) - Boxe Pan

Keno Machado perdeu para o campeão olímpico Julio Cesar La Cruz Peraza na final do boxe até 81kg (Foto: AFP)

Caio Fiusa e Jonas Moura  
14/08/2019
08:05
Rio de Janeiro (RJ)

Se o Brasil estabeleceu marcas positivas nos Jogos Pan-Americanos de Lima, encerrados no domingo, como seu recorde de pódios (171) e medalhas de ouro (55), Cuba seguiu caminho inverso e selou a pior campanha em 48 anos.

Em baixa, o país tinha planos de melhorar na capital peruana o desempenho de Toronto-2015, mas, apesar de totalizarem um pódio a mais do que naquela ocasião, os cubanos não atingiram o objetivo, já que levaram três ouros a menos.

Eles encerraram a participação em quinto lugar, com 98 medalhas, sendo 33 de ouro, 27 de prata e 38 de bronze, uma posição abaixo de quatro anos atrás, quando faturaram 97 (36 ouros, 27 pratas e 34 bronzes).

A campanha não era tão modesta desde Winnipeg-1967, quando o país terminou em sexto. Entre Cali-1971 e Guadalajara-2011, Cuba não ficou nenhuma vez fora do top-2, abastecida por investimentos no setor desde a ascensão de Fidel Castro ao poder, em 1959. O líder, que morreu em 2016, fez do esporte bandeira política. Mas a falta de recursos mudou o cenário.

As maiores conquistas em Lima foram nas lutas, em disputas nas quais os cubanos ainda conseguem ser dominantes. No boxe, eles foram os maiores vitoriosos, com oito ouros, além de uma prata e um bronze.

No judô, o país também liderou. Foram 12 pódios, sendo cinco ouros, duas pratas e cinco bronzes. A luta olímpica ajudou a elevar os cubanos no quadro de medalhas, com cinco ouros, duas pratas e nove bronzes. Ficaram em segundo neste esporte.

– Somos os melhores do mundo. Estamos sempre prontos para fazer o nosso melhor. Sinto muita pressão, porque você está sempre se preparando para competir e não sabe se pode dar errado. Há muita tradição em Cuba. Temos muitos campeões e a próxima geração quer se tornar campeã – afirmou o boxeador cubano Julio Cesar La Cruz Peraza, que conquistou o ouro na categoria até 81kg, após derrotar o brasileiro Keno Machado na decisão, e dedicou a conquista a Fidel e ao povo cubano.

Apesar do sucesso em ringues e tatames, o número menor de medalhas douradas fez Cuba ser ultrapassada pelo México, terceiro colocado.

Tradicionalmente entre os três maiores campeões pan-americanos, a ilha caribenha atingiu o auge de conquistas em casa, em Havana-1991, quando liderou, com 140 ouros, quase o dobro dos 75 ganhos em Indianápolis-1987, quando foram 265 no total. Agora, se despedem fora do top 3 pela segunda edição seguida.

Paralelamente à crise econômica, um dos motivos para o declínio é o fato de que o governo proibiu durante anos os atletas que atuassem no exterior de defender o time cubano. A Seleção Brasileira de vôlei, por exemplo, conta com o ponteiro Leal, que pediu a naturalização em 2015. Ele se aproximou da nação após passagem vitoriosa no Sada Cruzeiro, clube pelo qual se sagrou tricampeão mundial de clubes (2013, 2015 e 2016).

Desde 2015, o governo passou a flexibilizar as normas e aceitou atletas que competem no exterior. Os que fugiram ainda são proibidos, mas puderam, finalmente, voltar para visitar as suas famílias.

No fim de 2018, o esporte cubano celebrou uma vitória, fruto de negociações do governo de Barack Obama. A Federação Cubana de Beisebol fechou acordo com a Major League Baseball (MLB), para que jogadores da ilha pudessem defender equipes americanas, algo que o embargo a Cuba não permite. Mas, em abril deste ano, o presidente Donald Trump vetou a medida.

Queda é maior em Jogos Olímpicos

A queda de Cuba é ainda mais evidente nos Jogos Olímpicos. O ápice também aconteceu no início dos anos 1990, em Barcelona-1992, quando terminou em quinto lugar, com 14 medalhas douradas e 31 no total. Porém, desde os Jogos realizados na Espanha, a nação nunca mais figurou entre as principais potências esportivas. E ficou fora do top-10 a partir de Atenas-2004.

O país se despediu da Rio-2016 na 18 colocação geral, com 11 medalhas: cinco de ouro (três no boxe e duas no wrestling), duas de prata (uma no judô e uma no wrestling) e quatro de bronze (três no boxe e um no atletismo). Já em Londres-2012, encerrou em 16, com 15 (cinco ouros, três pratas e sete bronzes).

É difícil imaginar que Cuba possa voltar a figurar entre os dez primeiros no quadro geral de medalhas na Olimpíada de Tóquio-2020. A meta mais palpável ainda será superar o desempenho da Rio-2016. Já seria um pequeno passo no processo de uma árdua reconstrução no país.

Cuba nos últimos Jogos Pan-Americanos
LIMA-2019: 33 ouros - 27 pratas - 38 bronzes - 98 no total - 5º lugar 
TORONTO-2015: 36 ouros - 27 pratas - 34 bronzes - 97 no total - 4º lugar 
GUADALAJARA-2011: 58 ouros - 35 pratas - 43 bronzes - 136 no total - 2º lugar
RIO-2007: 59 ouros - 35 pratas - 41 bronzes - 135 no total - 2º lugar
SANTO DOMINGO-2003: 72 ouros - 41 pratas - 39 bronzes - 152 total - 2º lugar
WINNIPEG-1999 70 ouros - 40 pratas - 47 bronzes - 157 no total - 2º lugar
MAR DEL PLATA-1995: 112 ouros - 66 pratas - 60 bronzes - 238 total -  2º lugar
HAVANA-1991: 140 ouros - 62 pratas - 63 bronzes - 265 no total - 1º lugar

Cuba nos últimos Jogos Olímpicos
RIO-2016: 5 ouros - 2 pratas - 4 bronzes - 11 no total - 18º lugar
LONDRES-2012: 5 ouros - 3 pratas - 7 bronzes - 15 no total - 16º lugar
PEQUIM-2008: 3 ouros - 10 pratas - 17 bronzes - 30 no total - 19º lugar
ATENAS-2004: 9 ouros - 7 pratas - 11 bronzes - 27 no total - 11º lugar
SYDNEY-2000: 11 ouros - 11 pratas - 7 bronzes - 29 no total - 9º lugar
ATLANTA-1996 9 ouros - 9 pratas - 8 bronzes - 25 no total - 8º lugar
BARCELONA-1992 14 ouros 6 pratas - 11 bronzes - 31 no total - 5º lugar