Stephany Afonso
25/11/2018
08:50
Buenos Aires (ARG)

O superclássico que deveria definir o campeão da Copa Libertadores no último sábado, decretou mais uma mancha no futebol argentino e sul-americano. Muito se fala sobre os atos de vandalismo e selvageria por parte de alguns torcedores do River Plate. Porém, não podemos apagar uma das maiores vergonhas administrativas que marcaram a data de hoje.

Após o ataque ao ônibus do Boca Juniors, os jogadores da equipe xeneize perderam totais condições de disputar a final. Vídeos publicados nas redes sociais relataram a situação no vestiário da equipe, uma verdadeira cena de caos. Pablo Pérez, capitão do time, foi vítima de um grave ferimento e deixou o estádio numa ambulância.

Diante destes fatos, não seria necessário mais motivos para que a partida fosse suspensa. Uma das equipes não tinha todo seu plantel à disposição devido um ataque da torcida adversária. Pronto, era o bastante, estava claro. Porém, a Conmebol demorou exatamente cinco horas para uma posição definitiva.

Foram realizadas ao todo três reuniões entre Alejandro Domíguez, presidente da instituição, e os dirigentes de ambos os clubes. Uma delas contou com a participação do presidente da Fifa, Gianni Infantino. Dois horários foram estabelecidos e a indefinição se tornava maior. Até que, numa última reunião, dessa vez com a presença de Claudio Tapia, presidente da AFA, o jogo foi finalmente adiado para este domingo, às 18h (horário de Brasília).

Enquanto mais informações eram aguardadas, Carlos Tévez e Fernando Gago saíram do vestiário e falaram com os jornalistas. Tévez advertiu que os jogadores xeneizes não tinham condição de jogo e que a Conmebol os obrigava a jogar. A instituição se justificou dizendo que o Boca Juniors não permitiu que um médico confirmasse as lesões nos jogadores. Fato que, pelas fotos, não necessitava comprovação médica para constatar que não haveria jogo.

Além dos efeitos causados pelo gás, os jogadores não tinham preparação física, mental ou tática para a disputa de uma final de Libertadores após cinco horas no vestiário. Até mesmo Gallardo se solidarizou e afirmou que o confronto deveria ser disputado de maneira justa e com totais condições para ambos os lados.

Essa é a triste realidade do futebol sul-americano. Uma guerra dentro e fora do estádio poderia ter sido resolvida em apenas alguns minutos. O lado escuro e nefasto deve ser mostrado. Este ano tivemos inúmeras provas do caos que percorre a entidade. A repercussão negativa na resolução do caso Zuculini é outro dos fatores que demonstram a falta de aptidão na tomada de decisões e profissionalismo, ainda mais quando se trata de uma competição do nível da Libertadores.

Mais do que estrutura, dinheiro e marketing, nosso atraso começa no administrativo e político, e isso reflete nosso declínio. Incidentes como a falta de organização pela Conmebol, para resolver a situação de um jogador que atuou durante sete jogos indevidamente, nos fazem ver que nada mudou. Hoje o mesmo aconteceu. E além de jogadores contundidos e uma história manchada, 60 mil torcedores esperaram por sete horas dentro do Monumental pela mesma resposta. Todos nós sabíamos o final da história e quem tinha o poder de resolução ignorou por horas. Onde está o lado humano do futebol?

Desde 2002, nenhuma seleção da Conmebol venceu uma Copa do Mundo e nenhuma equipe desde 2012 venceu o Mundial de Clubes. É uma grande tristeza estarmos sempre atrás. Este superclássico era a chance de sermos observados pelo mundo. E fomos. Qual imagem fica? Precisamos olhar além e parar de caminhar na direção oposta. O futebol na América do Sul só funciona para nós mesmos.

Por fim, o Monumental foi interditado. Mais uma vez carecemos de uma resposta concreta. Não se sabe quando e nem onde será disputada a mais importante final de Libertadores da história. Ou será que estamos falando de um campeonato estadual?