Escócia 0 x 3 Marrocos na Copa de 1998: africanos vencem, mas seleções acabam eliminadas da Copa
Relembre a imensa vitória dos marroquinos que terminou em frustração mútua.

A tarde de terça-feira, 23 de junho de 1998, reservou para o Grupo A da Copa do Mundo da França um dos desfechos mais dramáticos, eletrizantes e, acima de tudo, cruéis da história contemporânea do futebol. Na charmosa cidade de Saint-Étienne, o místico gramado do Stade Geoffroy-Guichard transformou-se no grande cenário de um confronto de vida ou morte entre as seleções da Escócia e de Marrocos pela rodada final da primeira fase. Com o poderoso e já classificado Brasil ocupando a liderança isolada da chave, escoceses e marroquinos entraram em campo cientes de que precisavam desesperadamente dos três pontos, precisando ao mesmo tempo ligar o rádio de pilha para acompanhar os desdobramentos do duelo paralelo entre brasileiros e noruegueses na cidade de Marselha. O Lance! relembra Escócia 0 x 3 Marrocos na Copa de 1998.
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A seleção de Marrocos desembarcara em território europeu respaldada por uma geração de ouro altamente talentosa, vistosa e reverenciada por seu povo como os Leões do Atlas. Sob o comando de lideranças técnicas reluzentes como o habilidoso meia Mustapha Hadji e o cirúrgico atacante Salaheddine Bassir, a equipe praticava um futebol técnico, plástico e baseado na intensa troca de passes curtos que já havia arrancado elogios internacionais nas rodadas anteriores, apesar do revés esperado contra os brasileiros e de um empate amargo contra os noruegueses. O elenco marroquino pisava em Saint-Étienne com os níveis de brio no topo, alimentando a firme convicção de que uma vitória maiúscula seria suficiente para carimbar uma vaga inédita e histórica nas oitavas de final após longos anos de espera.
Por sua vez, a tradicional seleção da Escócia entrava no gramado sob a batuta do treinador Craig Brown, carregando a sua clássica e indomável identidade de jogo fundamentada no vigor físico, no jogo aéreo defensivo e no espírito de luta britânico. Após uma estreia digna em que venderam caro a derrota para o Brasil e arrancaram um empate suado diante da Noruega, os escoceses sabiam que aquela era a oportunidade de ouro para quebrar uma incômoda e histórica maldição: passar da fase de grupos de um Mundial pela primeira vez, algo que a nação jamais havia conseguido em suas participações anteriores. Empurrados pela barulhenta e apaixonada Tartan Army — a massa de torcedores vestindo saias tradicionais kilt que invadiu as ruas francesas —, os britânicos prometiam uma batalha de alta intensidade física.
O desenho tático inicial da partida deixou nítido, desde os primeiros minutos de bola rolando, o profundo choque estético entre duas escolas totalmente distintas de se pensar o futebol moderno. Marrocos assumiu a iniciativa técnica da partida, utilizando a categoria e a cadência de seu meio-campo para alargar o campo pelas pontas e confundir a lenta retaguarda britânica. A Escócia, demonstrando excesso de nervosismo e sérias dificuldades para reter a posse da bola no gramado, tentava responder na base da imposição física e das ligações diretas para o centroavante Gordon Durie, mas esbarrava em uma exibição defensiva impecável e intransponível montada pelos marroquinos. O placar de abertura na primeira etapa desenhou com justiça a superioridade técnica dos africanos.
Contudo, a mística das Copas do Mundo reservou para o apito final um dos roteiros mais trágicos e ambivalentes já vistos nos gramados franceses. Dentro das quatro linhas do Stade Geoffroy-Guichard, Marrocos cumpriu a sua missão tática com louvor e perfeição absoluta, construindo um placar elástico de 3 a 0 de forma incontestável e exuberante. No entanto, enquanto os jogadores e os torcedores marroquinos já iniciavam a festa da classificação histórica nas arquibancadas, a notícia avassaladora vinda de Marselha caiu como uma bomba de gelo: nos minutos finais, a Noruega havia buscado uma virada milagrosa por 2 a 1 sobre o Brasil. O resultado paralelo sepultou os planos de ambas as equipes, deixando o triunfo de Marrocos com um gosto terrível de injustiça e eliminando as duas nações de forma dolorosa da Copa.
Escócia 0 x 3 Marrocos na Copa de 1998
O domínio técnico de Marrocos no primeiro tempo
A estrutura tática montada por Marrocos funcionou como um autêntico relógio de precisão na etapa inicial em Saint-Étienne. Com o xerife Noureddine Naybet organizando a retaguarda com imensa elegância e categoria, a equipe africana bloqueou com facilidade as raras investidas aéreas da Escócia e passou a ditar o ritmo da partida através da inteligência de Tahar El-Khalej e Youssef Chippo no círculo central. Mustapha Hadji e Salaheddine Bassir flutuavam de forma constante nas costas dos volantes britânicos Paul Lambert e Craig Burley, abrindo imensos espaços e deixando a defesa escocesa completamente exposta e atordoada.
A superioridade técnica marroquina traduziu-se em gol de abertura aos 22 minutos do primeiro tempo, em uma jogada de rara plasticidade tática. Após recolher a bola no campo de defesa, Tahar El-Khalej desferiu um lançamento longo milimétrico em profundidade, rasgando as linhas de impedimento da Escócia. O atacante Salaheddine Bassir arrancou em alta velocidade pelo flanco esquerdo, invadiu a grande área superando a marcação de David Weir e, com extrema frieza cirúrgica, soltou um petardo cruzado de perna esquerda. O chute potente superou o veterano goleiro Jim Leighton, batendo no teto da rede e inaugurando o placar sob a catarse dos torcedores africanos nas arquibancadas.
Atrás no marcador, a Escócia tentou esboçar uma reação na base do brio e do orgulho britânico, mas esbarreu em sua crônica falta de criatividade no meio-campo. John Collins tentava articular as jogadas ofensivas pelo meio, mas o isolamento dos atacantes Kevin Gallacher e Gordon Durie facilitava as antecipações de Naybet. O desespero escocês ficou nítido com o cartão amarelo precoce recebido por Gallacher após uma entrada dura. Marrocos controlava as ações sem sofrer sustos na retaguarda, gastando o tempo com inteligência na posse de bola e esperando o momento exato para desferir o golpe de misericórdia na fragilizada defesa adversária.
O colapso escocês e o nocaute na etapa complementar
Se o primeiro tempo terminou ruim para a Escócia, o reinício da partida na etapa complementar transformou-se em um autêntico pesadelo técnico em menos de um minuto. Aos 46 segundos do segundo tempo, em uma bobeira coletiva da retaguarda britânica, o centroavante Abdeljalil Hadda, conhecido mundialmente pelo apelido de Kamatcho, foi acionado em velocidade pelo meio. Demonstrando imenso faro de gol e frieza, Kamatcho ganhou na força física dos zagueiros Christian Dailly e Tom Boyd, invadiu a área e arriscou um chute por cobertura; a bola encobriu Jim Leighton, que ainda tocou na bola antes de vê-la morrer no fundo das redes para ampliar o placar para 2 a 0.
O drama britânico degringolou para um colapso emocional definitivo aos 8 minutos da etapa complementar, sepultando qualquer esboço de reação. Em uma disputa de bola no meio-campo, o volante escocês Craig Burley cometeu um erro grave ao dar uma entrada violenta, desnecessária e com as travas da chuteira por cima das pernas do marroquino Gharib Amzine. O árbitro da partida não hesitou e sacou o cartão vermelho direto, expulsando o jogador de campo perante os protestos desesperados do capitão Colin Hendry.
Com a vantagem numérica e o controle absoluto do meio-campo, Marrocos transformou a partida em um autêntico monólogo técnico, desfilando toques de calcanhar e jogadas plásticas que encantavam o público neutro em Saint-Étienne. O terceiro gol, que transformou a vitória em goleada, veio aos 35 minutos do segundo tempo. Salaheddine Bassir recebeu na entrada da área, limpou com imensa facilidade a marcação capenga de Tom Boyd e chutou cruzado; a bola desviou levemente na zaga antes de vencer Leighton e decretar o placar final de 3 a 0. No gramado, a festa marroquina parecia completa e o passaporte para as oitavas de final parecia carimbado com distinção.
O drama paralelo de Marselha e a cruel eliminação mútua
Contudo, o futebol é um esporte marcado por roteiros que beiram a tragédia clássica, e o verdadeiro desfecho daquela tarde não estava sendo escrito em Saint-Étienne, mas sim no Estádio Vélodrome, em Marselha. Até os 38 minutos do segundo tempo da partida paralela, o Brasil vencia a Noruega por 1 a 0, um resultado perfeito que colocava a seleção de Marrocos na segunda colocação isolada do Grupo A com quatro pontos somados. Jogadores marroquinos no banco de reservas já se abraçavam chorando de emoção, e a torcida nas arquibancadas entoava cantos de vitória celebrando o feito histórico dos Leões do Atlas.
A euforia transformou-se em um pesadelo psicológico devastador em um intervalo de apenas cinco minutos. A notícia de que a Noruega havia empatado com Tore André Flo e, logo em seguida, virado o placar com um pênalti polêmico convertido por Kjetil Rekdal correu rapidamente pelos bancos de reservas e chegou aos atletas no gramado. O apito final em Saint-Étienne casou com la confirmação do placar de 2 a 1 para os noruegueses em Marselha. Em segundos, o cenário de festa monumental transformou-se em um silêncio sepulcral e desesperador. Jogadores marroquinos caíram desabados no gramado, chorando copiosamente em transe de profunda frustração, sem conseguir acreditar que uma exibição tão perfeita de 3 a 0 havia terminado em eliminação precoce.
O destino cruel uniu escoceses e marroquinos no mesmo voo de volta para casa logo após o término da primeira fase. Para a Escócia de Craig Brown, o torneio na França representou o melancólico fim de uma era, consolidando a manutenção do eterno tabu de queda na fase inicial e marcando a última participação do país em Copas do Mundo por um longo período histórico. O resultado de Escócia 0 x 3 Marrocos significou para a história dos africanos como uma das maiores injustiças esportivas dos Mundiais: a equipe desfilou um ótimo futebol, vistoso e digno de fases agudas, mas acabou traída pelo imponderável do futebol paralelo, deixando a competição de cabeça erguida, mas com o coração partido.
Ficha técnica - Escócia 0 x 3 Marrocos na Copa de 1998
- Data: Terça-feira, 23 de junho de 1998
- Horário: 16:00 (de Brasília)
- Local: Stade Geoffroy-Guichard – Saint-Étienne, França
- Árbitro: Edward Lennie (Austrália)
Gols
- Marrocos: Salaheddine Bassir (22' e 85'), Abdeljalil Hadda "Kamatcho" (46')
Escalações e substituições
Escócia (Técnico: Craig Brown)
- 1 - Jim Leighton (G)
- 16 - David Weir
- 2 - Jackie McNamara (Saiu aos 54')
- 22 - Christian Dailly
- 3 - Tom Boyd
- 5 - Colin Hendry (C)
- 11 - John Collins
- 14 - Paul Lambert
- 8 - Craig Burley 🟥 (53')
- 7 - Kevin Gallacher 🟨 (21')
- 9 - Gordon Durie (Saiu aos 83')
Banco de reservas utilizados:
- 6 - Tosh McKinlay (Entrou aos 54')
- 20 - Scott Booth (Entrou aos 83')
Não utilizados: Neil Sullivan, Jonathan Gould, Matt Elliott, Derek Whyte, Colin Calderwood, Scot Gemmill, Billy McKinlay, Darren Jackson, Simon Donnelly.
Marrocos (Técnico: Henri Michel)
- 12 - Driss Benzekri (G)
- 2 - Abdelilah Saber (Saiu aos 72')
- 6 - Noureddine Naybet (C)
- 15 - Lahcen Abrami
- 5 - Ismaël Triki
- 20 - Tahar El-Khalej 🟨 (22') (Saiu aos 87')
- 7 - Mustapha Hadji
- 18 - Youssef Chippo 🟨 (81')
- 17 - Gharib Amzine (Saiu aos 76')
- 14 - Salaheddine Bassir ⚽⚽
- 9 - Abdeljalil Hadda "Kamatcho" ⚽
Banco de reservas utilizados:
- 4 - Youssef Rossi (Entrou aos 72')
- 16 - Rachid Azzouzi (Entrou aos 76')
- 19 - Jamal Sellami (Entrou aos 87')
Não utilizados: Abdelkader El Brazi, Mustapha Chadili, Rachid Neqrouz, Abdelkrim El-Hadrioui, Abderrahim Ouakili, Saïd Chiba, Ali Elkhattabi, Rachid Rokki.
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