Renata Mendonça

Renata Mendonça fundou o 'Dibradoras' (Foto: Reprodução)

Matheus Costa e Ricardo Guimarães
09/08/2020
13:44
Rio de Janeiro (RJ)

A jornalista Renata Mendonça foi contratada pelo Grupo Globo para um grande desafio: dar amplitude para o caminho aberto por Ana Thaís Matos, a primeira mulher a comentar em uma transmissão de futebol masculino na canal aberto da Rede Globo. Fundadora do 'Dibradoras', site que dá destaque a presença da mulher no esporte, Renata, de 31 anos, sabe muito bem da responsabilidade que carrega.

- Para mim, a responsabilidade aumenta ainda mais por saber que estarei de alguma forma representando tantas mulheres que começam a se ver nas transmissões de futebol e nas bancadas esportivas. Mas o melhor é saber que um ano depois de a Ana (Thais Matos) ter quebrado essa barreira estamos chegando eu e Nadine (Bastos, comentarista de arbitragem). E nos próximos anos virão muitas mais. É um processo que não tem mais volta e é um orgulho enorme fazer parte disso - afirmou.

Renata fez questão ainda de citar mulheres que vieram antes das novas contratadas do grupo Globo e que abriram os caminhos para o reconhecimento do trabalho da mulher além da reportagem.

- É um reconhecimento não só do meu trabalho, mas do trabalho de muitas mulheres que buscam há tempos ocupar mais espaços no jornalismo esportivo. Na reportagem, os primeiros registros de mulheres trabalhando na área foram na década de 1960. Ainda na década de 1970, tivemos casos de mulheres narrando e comentando, como nas transmissões 100% femininas da Rádio Mulher. Mas depois tivemos um intervalo de décadas sem mulheres ocupando outra função que não a de repórter. As pessoas aceitavam ver a presença feminina dando informação sobre esporte, mas ainda havia resistência quanto a vê-las dando opinião. Isso não acontecia por falta de capacidade, mas porque não se permitia às mulheres esse papel de opinar sobre o esporte que era considerado "dos homens". Nas últimas décadas, as mulheres passaram a não aceitar mais essa posição de coadjuvantes e buscaram o protagonismo - disse.

Apesar de nova na função de comentarista em jogos, Renata é conhecida para quem acompanha o canal SporTV. Como 'freela', a jornalista costumava ser convidada do Redação SporTV. Ela comentou essa mudança de papel e função no grupo Globo.

- Além de comentar em programas, passo também a comentar em jogos, o que é um desafio ainda maior. Em programas, a gente tem tempo para analisar, discutir e aprofundar o que acontece dentro e fora do campo. Durante um jogo, os comentários precisam ser mais cirúrgicos e resumidos. A responsabilidade é ainda maior. Tenho estudado bastante e treinado muito para encarar bem esse desafio. É uma função nova e sei que, quanto mais prática tiver, mais vou descobrir e aperfeiçoar o meu jeito de fazer. Tenho muitas referências com quem já trabalhei ao longo da carreira, recorro a elas para pegar conselhos e me preparar para a estreia. O apoio que tenho recebido também ajuda a ganhar mais confiança - afirmou a jornalista que estreia neste domingo pelo 'Premier' no jogo entre Grêmio e Fluminense.

"Considero esta uma conquista de todas as mulheres. Cheguei até aqui porque ajudei a levantar a voz delas no esporte e agora espero fazer com que ecoem cada vez mais forte, cada vez mais longe"

Renata Mendonça tem passagens pela ESPN Brasil e a BBC, mas ganhou notoriedade ao fundar o blog 'Dibradoras', que fala sobre futebol feminino e luta por um maior espaço da mulher no jornalismo esportivo. Hoje, ela chega à Globo com o intuito de espalhar ainda mais a palavra, mas também mostrar o seu conhecimento sobre futebol em geral. Renata comentou se esperava ser referência para tantos jovens jornalistas.

- Sinto orgulho porque, de certa forma, o futebol feminino me levou a tudo isso. A luta pelo espaço das mulheres no esporte me levou a tudo isso. Tenho uma história cobrindo o futebol masculino, a minha paixão pelo futebol começou justamente por causa dele. Mas no Dibradoras, assumimos a missão de trazer o protagonismo feminino no esporte, no futebol e em todas as áreas esportivas. E foi essa parte do meu trabalho que me fez chegar ao ‘Redação SporTV’ e agora, a ser comentarista do Esporte da Globo - disse.

- Por tudo isso, considero esta uma conquista de todas as mulheres. Cheguei até aqui porque ajudei a levantar a voz delas no esporte e agora espero fazer com que ecoem cada vez mais forte, cada vez mais longe. É importante que os jovens tenham referências femininas no esporte e referências diversas, com pessoas negras e LGBT também ocupando esse espaço. Que tenham o exemplo dos jornalistas especialistas em tática e também dos que trazem uma visão mais ampla e abrangente do esporte, olhando também o contexto social além do campo - analisou.

"Não é querer ser mais do que os homens, é querer ser igual, ter os mesmos direitos, oportunidades, ocupar os mesmos espaços. Esse machismo é combatido diariamente pelas mulheres, mas precisamos que os homens também se juntem a essa causa"

Concluímos nosso papo com Renata falando do machismo no esporte, que afeta a sociedade e o futebol. Segundo ela, este tipo de preconceito só será combatido quando outros homens se juntarem pela causa em prol do espaço das mulheres na sociedade.

- A rejeição é por causa do machismo estrutural na nossa sociedade. (...) Sempre houve na sociedade um "lugar da mulher", que era sempre submisso. Cuidar dos filhos, da casa e do marido, esse era o chamado "lugar de mulher". Só esqueceram de combinar isso com elas. As mulheres decidiram não mais aceitar isso e foram atrás do direito de igualdade. Não é querer ser mais do que os homens, é querer ser igual, ter os mesmos direitos, as mesmas oportunidades, ocupar os mesmos espaços. Esse machismo é combatido diariamente pelas mulheres, mas precisamos que os homens também se juntem a essa causa. (...) E essa discussão sobre o machismo demorou muito a chegar no jornalismo esportivo. Por muito tempo aceitamos como natural a ausência de mulheres como consumidoras, praticantes e protagonistas do esporte. Mas chegou e agora é imprescindível contar com homens nessa luta. Todos têm lugar de fala nisso – são lugares diferentes, mas existem - concluiu.