Marcio Porto
07/06/2018
06:15
São Paulo (SP)

Você já deve ter ouvido por aí que tal jogador tem estilo tão elegante em campo que deveria jogar de terno. É um clichê do futebol, normalmente aplicado a meio campistas, camisas 10, aqueles responsáveis pela criação das jogadas. Miranda, porém, destoa. O zagueiro de 33 anos inverteu os valores e construiu uma trajetória elegante, "sem sujar o uniforme", mesmo tendo principal função a defesa. Tudo fruto de uma auto-confiança que sempre impressionou seus comandantes, inclusive Tite, que o tornou um de seus 23 "Homens de Gelo" e o quinto personagem da Série do LANCE! sobre o grupo da Seleção Brasileira que tentará o hexa na Rússia. 

O CHOQUE (1)


O primeiro treinador do profissional que Miranda impressionou pelo seu estilo sofisticado de jogo foi Antônio Lopes. Campeão brasileiro por Vasco e Corinthians, Lopes estava no Coritiba em 2003 quando assistiu a um jogo do clube na Copa São Paulo de Futebol Júnior, mais tradicional competição de base do país, na esperança de garimpar algum garoto. Não precisou de muito tempo para se encantar por Miranda.

- De cara eu deslumbrei o talento dele. Era um zagueiro de muita força, com uma velocidade relativamente boa. A passada dele era muito grande, perna longa. No 1 contra 1, ele já mostrava naquela oportunidade que era quase sempre imbatível. Dificilmente ele perdia um duelo, nas bolas altas também pelo tempo de bola - relembra Antônio Lopes. 

As partidas de Miranda na Copinha foram suficientes para Lopes levá-lo ao profissional, em que estreou aos 19 anos, já em 2004. Também não demorou para ele se firmar e ganhar a titularidade. Inclusive com outra característica exaltada atualmente por Tite: a liderança.


- Com 19 anos, já era um garoto que falava muito em campo, já exercia sobre o grupo uma liderança. Tinha muita personalidade e já estava mostrando que poderia ser um zagueiro excepcional como ele é hoje. Coloquei ele muitas vezes como capitão mesmo jovem -  avalia Lopes. 

Com elegância e personalidade, Miranda se destacou na disputa da Copa Libertadores e pouco tempo depois foi vendido ao Sochaux, clube da França. Miranda foi para reforçar o caixa do Coxa, mas antes causou mais impacto.

O CHOQUE (2)

Cidade de Lima, dia 10 de fevereiro de 2004. A delegação do São Paulo está hospedada na capital peruana para o duelo do dia seguinte pela Copa Libertadores, contra o Allianz Lima. Auxiliar do técnico Cuca na época e famoso pelo sua observação apurada de jogadores talentosos, Milton Cruz aproveita a passagem para ver de perto um zagueiro que ele acompanhava há algum tempo: era Miranda, que defenderia o Coritiba contra o Sporting Cristal. Ambos os jogos eram pela Libertadores. 

Amigo de Paulo Autouri, com quem trabalharia no São Paulo em 2005, Milton Cruz combinou com o então técnico da seleção do Peru para ver o jogo de seu camarote no Estádio Nacional de Lima. 

- Eu já tinha visto ele, mas nesse jogo ele foi bem de novo, e jogando meio de líbero, meio de volante. Foi quando tive a certeza de que valeria investirmos. Indiquei a contratação dele para a diretoria, mas ele já estava fechado com o Sochoux - recorda Milton Cruz, atual técnico do Figueirense. 

Curioso é que o Coritiba foi derrotado por 4 a 1 para o Sporting Cristal, resultado determinante para a eliminação do time na fase de grupos da Libertadores. Já o São Paulo, no dia seguinte, bateu o Allianz Lima por 2 a 1, e, além da vitória, voltou para casa com a certeza de que tinha encontrado uma grande joia. 

O CHOQUE (3)

O São Paulo conseguiu concretizar o desejo de ter Miranda em agosto de 2006, justamente quando acabara de perder Diego Lugano, campeão do mundo e um dos maiores ídolos da história do clube. Foi um presente para Muricy Ramalho, técnico brasileiro que mais comandou Miranda na carreira: mais de três anos, com direito a três títulos brasileiros. Mas Miranda tinha apenas 21 anos quando chegou. Ainda era uma aposta. E daí? Logo em seu primeiro dia, o zagueiro mostraria aos tricolores uma de suas características mais fortes: a auto-confiança. 


Miranda foi apresentado no dia 28 de agosto e de cara foi perguntado sobre a responsabilidade de herdar a camisa 5, de Lugano, e ter de substituir o ídolo logo após a perda da Libertadores. A resposta impressionou os jornalistas presentes na sala de imprensa do CT da Barra Funda e os profissionais do São Paulo.

- É a camisa de um ídolo, mas não preocupa. O Lugano é um excelente jogador, mas saiu. Agora é a vez do Miranda - disparou Miranda. 

Era dessa auto-confiança que Muricy precisava.

- Era um jogador muito técnico, muito tranquilo, saia de campo com o uniforme do jeito que entrou. Não sofre. E a parte mental dele é muito forte, não esquenta cabeça em grandes jogos, não se assusta. Foi o melhor zagueiro com quem trabalhei. Ele é impressionante. Tem tudo - decreta Muricy, que comentará a Copa pelo canal SporTV. 

Miranda impressionou outras pessoas no São Paulo. Atual diretor da Seleção Feminina, Marco Aurélio Cunha era superintendente do clube na época e se recorda de uma passagem que o marcou. Foi depois de uma vitória por 2 a 1 sobre o Botafogo no Engenhão, resultado que fez parte da caminhada para o tricampeonato brasileiro em 2008. Miranda falhou no gol dos cariocas, ao tentar sair jogando dentro da área em uma bola que era facilmente afastável. Na semana, Marco encontrou o zagueiro depois de um treino e decidiu perguntar:

- Ele estava lá sozinho e fui fala com ele. Perguntei: "Miranda, por que você não deu um bicão naquela bola?". A resposta dele foi uma das mais inteligentes que já recebi de um jogador. Ele virou para mim e disse: "Marco, se eu fosse ruim, eu tirava de bicão". 

No São Paulo, Miranda ainda era conhecido por ser um dos mais brincalhões do grupo, apesar da timidez diante das câmeras. Era especialista em colocar apelidos nos companheiros, que também não o perdoaram. O zagueiro era chamado de "cara de cavalo", uma referência física. Mas qualquer semelhança para por aí. 

NA SELEÇÃO, SEM CHOQUE

Miranda pode ter a cara de cavalo, mas seu futebol passa longe desse rótulo muito utilizado no futebol para se referir a jogadores violentos. Tite sabe bem disso. Durante as Eliminatórias para a Copa, o zagueiro foi quem mais atuou: 17 partidas. Ficou fora apenas do empate por 1 a 1 com a Colômbia por conta de uma concussão. Isso mesmo tendo passado dez jogos pendurado com um cartão amarelo. Recebeu apenas um durante toda a competição. Um homem elegante, de gelo e disciplinado. 

Por ironia do destino, foi um cartão que impediu o zagueiro de poucas faltas de realizar antes o sonho de disputar uma Copa do Mundo. Na campanha para 2010, na África do Sul, Miranda vinha sendo titular com Dunga nas Eliminatórias, mas foi expulso no último jogo, contra a Venezuela. Ele acabou punido pela Conmebol e, se fosse convocado, perderia os dois primeiros jogos da Copa. Já em 2014, Felipão preferiu levar Henrique, atualmente no Corinthians. 

Enquanto isso, Miranda seguiu desfilando seu futebol elegante no Atlético de Madrid (ESP) e por último na Inter. Pelo sua postura, o zagueiro dificilmente admitiria isso, mas na auto-confiança dele está claro que a Seleção perdeu muito sem ele. Antônio Lopes, Muricy Ramalho e Tite, dentre outros, concordam. Não à toa, inicia a Copa como titular absoluto e um dos capitães do grupo.