Marcio Porto*
21/06/2018
17:29
Em algum lugar da Rússia

"Ontem eu sonhei que estava em Moscou..."

...E eu tinha que dar uma conferida nas praias de Sochi, né? Conhecer o famoso Mar Negro, onde os russos costumam passar férias. Sabia que até Stalin, dos mais famosos e controversos líderes políticos da história, usava o litoral de Sochi para passar férias? Ele tinha até uma casa de veraneio por aqui, que hoje é aberta a visitação. Quem sabe não dou um pulo lá? Mas voltemos às praias. 


Bom, pra começo de conversa, é até covardia fazer comparações das praias do Nordeste e de outros cantos do Brasil com as de outros lugares, ainda mais na Rússia, né? Poucos lugares no mundo têm praias tão belas quanto as nossas. É o caso das russas. Eu já meio que esperava. Mas elas têm lá seu valor.

Uma coisa que faz toda a diferença: as praias são de pedra, meu amigo! Sim, ao invés daquela areia fofa, que você faz castelinho, se joga até virar um frango empanado, ou usa para bater um futevôlei, há pedra, muita pedra. Imagina: você dá um mergulho, aí vai voltar pra orla, descalço, e tem de pisar nas pedras pegando fogo! Vôti! Deus me livre! Também não tem onda, nesse ponto é meio sem graça. Mas a água é aparentemente muito limpinha, o pessoal de Sochi parece ter zelo com as praias, ao contrário do que vemos em muitos lugares do Brasil.

Eu cheguei à orla por volta de umas 11h da manhã, 5h da manhã no Brasil, e tinha um sol pra cada um, como a gente diz. O calçadão é mais ou menos igual. As pessoas caminham tranquilamente, tem muitas lojas para comprar lembrancinhas, biquínis, outros trajes de banho, e até um local para fazer umas tranças, uns dreadlocks, aquele visual rastafári do Bob Marley, sabe? Dessa vez não me arrisquei, quem sabe numa próxima. 

Comecei a estranhar porque não encontrava um espaço para ir da calçada ao mar. Você é obrigado a passar em um restaurante, bar ou qualquer coisa, que mantém os quiosques, e tendas antes das pedras que precedem o mar. Até que vi uma vaguinha e entrei, fui logo sentado em uma cadeira de praia bem confortável. Ótima vista. Pensei: tô bonito, daqui posso espiar como os russos curtem a praia deles e ainda pego um solzinho, né? Durou uns 10 minutos. 

Primeiro, veio um segurança. Tentou falar comigo em russo, mas claro que não entendi nada. Nisso ele tira um papel do bolso, em que tinha algo escrito em inglês: "Em qual hotel o senhor está hospedado?". Pronto, agora deu ruim pro Paraíba!

Bom, como ainda não tinha feito o material para contar para vocês, tentei dar um jeitinho e disse o nome de um hotel que eu havia avistado antes por ali. Ele entendeu e, beleza, me deixou ali. Continuei a espiar os russos, procurando alguma semelhança com a gente: cadê as brejas, o frango, a farofa? Nada! Vi uma moça e dois rapazes saboreando uma fruta, um lobo solitário com uma garrafa de cerveja na mão. Mas, no geral, ficavam ali, tomando sol de boa, sejam sentados ou deitados nas cadeiras já na parte comercial, ou em cangas estiradas sobre as pedras. Caipirinha? Que nada! Mas também não pude observar muito, diga-se, porque logo uma moça me interpelou. 

De novo, ela queria saber em que hotel eu estava. Comecei a entender que não poderia ficar ali. No geral, as praias de Sochi são privadas, e o acesso se dá apenas a quem está hospedado nos hotéis da região. Dei azar que a moça estava logo com o crachá do hotel que eu falei. Ela pediu meu cartão de hospedagem. Claro que eu não tinha, né? Ela me disse que não podia ficar ali. Então falei em inglês que estava saindo, dei um sorriso para ver se brincávamos com a situação, mas ela nem ligou. Queria mesmo era que eu saísse dali. Aqui, um parênteses: russos no geral são sérios, os homens mais, e não curtem muito rir diante de uma situação como essa, em que, naturalmente, brincaríamos, eu iria embora em seguida e tudo certo. 

Depois que saí, dei uma passada no carrinho em que a mulher vendia milho verde. Rapaz, está rolando o São João no Nordeste, festas juninas no Brasil todo, e vocês acharam que eu não iria comer um milhinho, né? Paguei 100 rublos em uma espiga, cerca de R$ 7. A moça colocou sal antes de servir e o resultado vocês podem ver aí no vídeo. Gostei. Não faz feio. E, importante: novamente, as definições de "o cão chupando manga" foram atualizadas para "o sertanejo comendo milho".

O milho abriu o apetite, era hora de almoçar e partir para o trabalho. Chega de praia. Mas peraí! Você deve estar se perguntando: e esse caboclo foi na praia da Rússia e não arriscou nem um "frecheiro"? Olha, depois de ter sido convidado a se retirar educadamente, resolvi não arriscar. Melhor buscar uma praia pública em outro dia. E pra provar que não é porque paraibano tem medo de água, até o fim da viagem, eu entro no Mar Negro e conto como foi. Até porque tem que ter alguém pra registrar esse grande momento, né? Então segue acompanhando esse canal aqui, tem os links das outras peripécias aí abaixo, e logo, logo eu volto! Vai, Brasil! 

"Ontem eu sonhei que estava em Moscou..." Não era sonho, não!

*Marcio Porto é repórter do LANCE! desde 2008 e está em sua segunda cobertura de Copa do Mundo - a primeira foi no Brasil. Paraibano de São Sebastião de Lagoa de Roça, cidade de pouco mais de 11 mil habitantes, irá desbravar as terras russas com a sede e fome do sertanejo. Cabra da peste que é, trará os relatos aqui para você! Simbora!