Um sertanejo na Rússia: presepadas de um voo tomado por brasileiros
Nosso paraibano arretado viajou de Rostov, onde o Brasil estreou na Copa, para Sochi cercado de torcedores da Canarinho. Você já deve imaginar a farra, né?

"Ontem eu sonhei que estava em Moscou..."
...E pegando um voo cheio de brasileiros de Rostov a Sochi. Eita farra da mulesta! Os cabra tão sem limites aqui na terra da Copa. Foi cada presepada. Era começo de noite desta segunda-feira aqui, começo de tarde no Brasil.
Tudo já começa no check-in. Tem mais camisa da Seleção no aeroporto do que em manifestação política na Avenida Paulista. Tem dos clubes também. Só nessa primeira semana, vi de praticamente todos da Série, alguns da Série B e até da C, como do Campinense da minha Paraíba (mas isso é tema para outro post). Por um momento, você pensa que está no aeroporto de Guarulhos em São Paulo ou qualquer outro do país.
Chegou no avião, a coisa desanda. A começar pelas brincadeiras com as aeromoças russas, lindas como todas mulheres parecem ser nesse país. Os brasileiros falam coisas sem muito nexo, elas sorriem. Mais pra frente, a coisa se acentuará.
Sobe-se as escadas e um homem devidamente uniformizado com camisa da Seleção entra portando uma caixa de som, ligada quase no volume máximo. É quase um paredão! Na trilha sonora, tudo o que a gente está acostumado a ouvir no Brasil nos bares mais populares ou programas de televisão aberta e os russos, claros, não entendem nada. Funk, sertanejo, forró. Até Wesley Safadão toca. Pronto: o voo virou balada.
Animados com a trilha sonora, o público, em sua maioria homem, começa a se soltar. Ensaiam coros. Um deles faz menção ao histórico do consumo de drogas de dois ex-futebolistas: o argentino Diego Maradona, que eu ainda vi pela TV lá de Lagoa de Roça, e Casagrande, hoje comentarista da TV Globo. Foi assim, e já vá me desculpando pela reprodução: "Ô Maradona, vai se foder, o Casagrande cheira mais do que você!". Eles parecem se sentir o máximo com o canto e um deles pede para um profissional da Rádio Jovem Pan presente no voo registrar o momento e publicar. Não o fez.
Na hora de as aeromoças, coitadas, passarem aquelas chatas instruções antes de alçar voo, os caras sobem o tom das brincadeiras. Uma delas é batizada de "Maria", repreendido por um torcedor do Cruzeiro. Marias, em Minas Gerais, é usado pejorativamente por torcedores do Atlético-MG para se referir aos rivais. Cada gesto da moça, uma piada, elogio, grito, sei lá o que mais. Quando ela se movimenta pelo corredor, a galera faz até uma ola. Bicho, se ola é insuportável até no estádio, imagine numa situação dessas. A moça sorri, mas também passa um ar de constrangimento.
Pronto, vai decolar! Som lá no alto, e eu doido pra tirar um cochilo, afinal dormir durante trabalho em Copa do Mundo é artigo de luxo. Torço para que a tripulação verde e amarela canse da algazarra. Ela diminui, exceto por mais uma brincadeira ou outra com as russas. Silêncio. Consigo tirar uma pestana.
Uma hora depois, chegamos a Sochi, onde o Brasil está concentrado. Assim que saem no saguão, os brasileiros cantam de novo, agora com a música surgida na Copa passada: "Mil gols, mil gols, mil gols, mil gols, mil gols... Só Pelé! Só Pelé! Maradona cheirador".
E de novo Maradona é lembrado pelo seu conhecido vício. Ninguém percebe que isso não cheira nada bem? Desculpem o trocadilho tosco, não gosta dessas menções e prefiro muito mais a nova canção exaltando todos os títulos mundiais nossos, Garrincha, Pelé, Romário e Ronaldo. Essa, infelizmente, não foi cantada.
Bagagem na mão, é hora de voltar ao dia a dia de Sochi. E lembrar que a cortina transparente me espera. Haja sono! Mas fica ligado aí que a qualquer momento eu volto com mais peripécias pela Rússia. E você já conferiu as aventuras passadas? Só clicar nos links abaixo.
"Ontem eu sonhei que estava em Moscou..." Não era sonho, não!
*Marcio Porto é repórter do LANCE! desde 2008 e está em sua segunda cobertura de Copa do Mundo - a primeira foi no Brasil. Paraibano de São Sebastião de Lagoa de Roça, cidade de pouco mais de 11 mil habitantes, irá desbravar as terras russas com a sede e fome do sertanejo. Cabra da peste que é, trará os relatos aqui para você! Simbora!
Glossário do sertanejo
Mulesta = Expressão popular no Nordeste derivada da moléstia, coisa ruim

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