Clodoaldo Silva

Clodoaldo Silva costuma dar palestras para crianças pelo Brasil e é padrinho do Furnas Educa

LANCE!
03/06/2016
11:49
Rio de Janeiro

Até 2004, poucas pessoas já haviam escutado falar sobre os Jogos Paralímpicos, na época chamados de Paraolímpicos. Mas o desempenho de um atleta em especial na edição de Atenas, naquele ano, chamou a atenção do Brasil e fez a história começar a ser reescrita. As seis medalhas de ouro e uma de prata, além dos quatro recordes mundiais, cinco paralímpicos e 11 parapan-americanos, de Clodoaldo Silva na natação mudaram a forma como os portadores de deficiência eram vistos e viam o mundo. Prestes a disputar a quinta e última Paralimpíada dele, o nadador, que faz parte da Equipe Furnas, quer encerrar a carreira com chave de ouro. E isto não necessariamente significa subir ao pódio no Rio de Janeiro.

Aos 37 anos, Clodoaldo chega para a despedida paralímpica sem pressão, com uma carreira consolidada, que serviu de inspiração para os grandes nomes do Brasil na atualidade, como Daniel Dias e Andre Brasil. Se não esteve entre os precursores do desporto paralímpico no país, ele, com certeza, foi um dos primeiros a atrair grande atenção de mídia e público. A participação em Atenas lhe rendeu o apelido de Tubarão e na época o recorde de medalhas de um atleta brasileiro em uma só edição dos Jogos, feito que o deixa bem orgulhoso.

- Minha missão nunca foi ganhar medalha. O meu legado já está construído e consolidado. É fazer com que as pessoas com deficiência tenham respeitabilidade, cidadania e possam ser vistas como cidadãs. Servi para mudar o ponto de vista dos brasileiros. O público e o esporte paralímpico têm gratidão imensa pelo o que fiz – afirma Clodoaldo, que vem mantendo uma rotina pesada de treinos em São Caetano do Sul (SP) para disputar entre quatro ou cinco provas em setembro, no Rio.

O nadador tem índice para competir nos 50, 100 e 200m livre, no revezamento misto 4x50 livre e nos 50m borboleta. No entanto, a participação nesta última prova depende de o problema crônico de hérnia de disco que ele tem não atrapalhar. Clodoaldo, por sinal, não quer nem ouvir falar em dores, após ver os planos de medalha em 2012 serem frustrados por uma lesão sofrida durante um trabalho de academia às vésperas dos Jogos de Londres. Algo que só serviu de motivação para que ele adiasse a aposentadoria há quatro anos:

- A frustração pela aquela lesão foi um dos três motivos que fizeram com que eu deixasse para me aposentar só no Brasil. Em Londres, minha filha (Anita, de quatro anos) não tinha idade para acompanhar e não queria que ela me visse competir só por vídeo. Além disto, uma Paralimpíada no Brasil é algo que ninguém que está vivo vai ver de novo. A ansiedade é grande e dá um frio na barriga por ser a última.

Este terceiro motivo já torna os Jogos do Rio especiais para Clodoaldo, que é frequentemente lembrado pelo desempenho em Atenas, mas guarda com carinho especial a participação em Sydney.

- Minhas melhores recordações são de 2000. Eu e o esporte paralímpico não tínhamos tanta pressão. Curti tudo: a abertura, a concentração para desfilar, o estádio lotado. Em Sydney, vi que tinha de me preparar melhor – disse ele, que conquistou quatro medalhas, sendo três de prata e uma de bronze, naquela Paralimpíada e acumula 13 nas quatro participações.

Em 2000, se alguém dissesse a Clodoaldo que, 16 anos depois, o Brasil seria uma potência paralímpica, ele dificilmente acreditaria. No Rio, serão 22 modalidades em disputa e em todas há chance de medalha, o que faz o Comitê Paralímpico Brasileiro sonhar com a quinta colocação no quadro geral. O nadador também está esperançoso:

- O Brasil vem muito forte. Na natação, anima a mescla entre jovens e veteranos. Todos têm chances de chegar ao pódio. Daniel Dias, Andre Brasil, Phelipe Rodrigues, Edênia Garcia, Joana Neves... Temos material humano para 2020 e 24.

Então que os Jogos no Rio sirvam para que mais pessoas conheçam o desporto paralímpico e despertem para fazer uma sociedade mais igualitária, respeitando os direitos daqueles que possuem alguma deficiência. É o que espera Clodoaldo.

Piscina e jornalismo após aposentadoria
Clodoaldo Silva começou na natação meio que por acaso. Em 1996, o esporte fazia parte do processo de fisioterapia para um jovem de 16 anos que, ao nascer, sofreu paralisa cerebral por falta de oxigênio durante o parto, o que afetou a mobilidade das pernas e a coordenação motora. Foi a partir daquele momento que a vida dele começou a mudar. Até então, ele nunca havia pensado em ser atleta, mas quatro anos depois já disputava os primeiros Jogos Paralímpicos. Hoje, ele não se vê fora das piscinas nem com a iminente aposentadoria.

- Através da natação, tudo melhorou. Fiquei com a autoestima elevada, minha confiança aumentou. Saí da cadeira de rodas para ganhar o mundo. Quando estou nadando, fico livre, me desligo de tudo, esqueço meus problemas. A natação é minha vida e meu vício. Quando me aposentar, vou continuar nadando sem compromisso – promete ele.

Entre os planos de Clodoaldo está cursar Comunicação Social com o objetivo de apresentar um programa de TV voltado para o desporto paralímpico, algo que já fez na Band entre 2012 e 2014.

- Comentando ou apresentando um programa, consigo contribuir no esporte também, formando opinião. São 45 milhões de pessoas com deficiência no Brasil e quero mostrar que elas também podem ser campeãs dentro e fora dos esportes, sendo incluídas no mercado de trabalho.

Nadador é padrinho de projeto de Furnas
Em 2012, Clodoaldo Silva foi o primeiro a fazer parte da Equipe Furnas, que hoje tem mais de 40 atletas. Neste período, visitou hidrelétricas, contando a história de vida dele, e se tornou padrinho do projeto Furnas Educa, que roda o Brasil conscientizando crianças e jovens sobre a preservação do meio ambiente e o uso racional de energia elétrica. O nadador é só agradecimento:

- Sempre tive dificuldades para conseguir patrocínio. Ouvi algumas vezes empresas dizerem que não queriam associar a imagem a deficientes. O apoio de Furnas é fundamental. Eles sempre me viram como um campeão, um exemplo para a sociedade e não um coitadinho. Furnas faz estas crianças sonharem e dali podem sair grandes campeões, seja no esporte ou na vida.

Fora das piscinas, Clodoaldo é uma palestrante muito requisitado, principalmente por empresas, que veem nele um exemplo de vida.

- Eu poderia estar me fazendo de vítima, mas reescrevi minha história e sou reconhecido. As pessoas acham que a cadeira de rodas é uma prisão. Mas não é porque você tem uma limitação, que enfrenta dificuldades, que não pode vencer. Se você fizer o seu melhor, a recompensa virá na frente – encerra o nadador.