'O surfe precisa de mais espaço para divulgação no Brasil', diz Mineirinho
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Desde o início da carreira, o surfista Adriano de Souza, o Mineirinho, foi um quebrador de recordes e tabus. Campeão mais jovem da história do Mundial Júnior (com 16 anos, em 2003) e do WQS, a segunda divisão do surfe mundial (aos 18 anos, em 2005), o paulista de 24 anos derrubou outra barreira no mês passado.
Em maio, ao vencer a etapa brasileira do World Title (elite do surfe internacional), ele tornou-se o primeiro brazuca a assumir a liderança do ranking mundial, com concorrentes como o americano Kelly Slater, dez vezes campeão e lenda do esporte.
Em entrevista por e-mail concedida ao LANCENET!, o surfista mantém os pés no chão quanto a um título mundial. Afinal, ele subiu ao topo do ranking na terceira das 11 etapas do circuito. Ainda há um longo caminho pela frente, mas MIneirinho crê que, com afinco, pode tornar-se o primeiro representante do país a ser campeão mundial da elite do surfe.
O dia 20 de maio ficará marcado para você e para o surfe brasileiro como o dia em que o primeiro surfista do país virou líder do ranking mundial. O que representa para você ser o melhor do mundo atualmente, ainda mais depois de uma vitória em casa, em uma etapa brasileira?
Representa muito, pois com toda aquela energia das pessoas na praia no Rio de Janeiro, senti que era meu momento. Mas tenho de manter os pés no chão e saber que ainda muitas coisas irão acontecer.
Uma das cenas marcantes na Barra da Tijuca foi você saindo chorando da água logo após vencer a final. Em que você pensou naquele momento?
Pensei em tudo. Foi uma emoção muito grande. Eu queria muito aquela vitória. A primeira coisa que veio na minha cabeça foi correr para meu manager e técnico, Luiz Campos, o Pinga, e dividir aquele momento com ele. Estamos trabalhando há muito tempo juntos, e ele sempre fez com que eu mantivesse o foco e que acreditasse que posso alcançar meus objetivos. Foi muita emoção. Dificil de dizer...
Você teve um início de carreira promissor, sendo o mais jovem campeão júnior e do WQS na história. Agora que você é líder do ranking, você acha que ser campeão na primeira divisão é um passo natural da carreira, ou não é tão simples quanto parece?
Este é um objetivo meu, um foco. Sei que é um caminho longo e difícil, e tenho de trabalhar cada vez mais para alcançar meus objetivos. Precisarei ser cada vez mais dedicado e focado para chegar nele.
Hoje, você acredita realmente que pode ser campeão mundial? Em que aspectos você evoluiu que hoje fazem você acreditar nisso?
Eu acredito sim, mas sei que é muito difícil. E como disse, tenho de estar cada vez mais focado e trabalhar mais em todos os aspectos, como o técnico, físico e psicológico. Hoje tenho uma preocupação em cima da parte física e tática. A parte tecnica é um trabalho constante. O nivel hoje é muito alto e parelho.
Qual é o grande sonho de carreira que você tem, além de ser campeão mundial?
É estar bem, junto com minha familia a amigos.
Do que um surfista precisa para ser líder do ranking e se tornar campeão mundial?
Estrutura, dedicação, força psicológica e boas pranchas. É um conjunto de coisas bem complexa, que tem de se encaixar.
O Brasil tem um grande potencial no surfe (litoral extenso, praias boas para o surfe, grande número de praticantes), mas só agora conseguiu colocar um atleta no topo do ranking mundial. Você acredita que isso demorou a acontecer no país, ou acha que foi na hora certa?
O surfe é um esporte muito novo no Brasil, se compararmos com a Austrália, Estados Unidos, Havaí e ate mesmo com a África do Sul. Acho que isto é uma consequência da evolução e desenvolvimento do esporte no Brasil em todos os aspectos. Hoje temos bons eventos amadores e o melhor circuito profissional nacional do mundo.
O surfe internacional é amplamente dominado por australianos e americanos historicamente (com uma boa parcela de havaianos também), tanto em número de títulos quanto de surfistas. Você acha que o Brasil pode ser um dia o que Austrália e Estados Unidos são hoje no surfe em termos de representatividade e conquistas, ou ainda falta muito para isso acontecer?
Acredito sim. Devido ao que falei anteriormente, aliado com a qualidade dos atletas que estão surgindo.
Kelly Slater é um daqueles atletas tidos como lenda no esporte. Na sua opinião, o que ele tem de diferente dos demais para ter sido dez vezes campeão mundial? E como você se relaciona com ele no circuito? É um cara acessível aos demais surfistas, ou ele fica na dele?
O Kelly é um fenômeno e super competitivo. Gosta do sabor da vitória e aprendeu a lidar com isto desde cedo. Com certeza isto o ajuda. Sempre está atento a tudo o que envolve o desenvolvimento do esporte. Sempre entra para vencer. Eu tive a sorte e a oportunidade de competir muito com ele, e com isto procurei absorver o máximo. Temos um relacionamento tranquilo e normal. Ele é um cara na dele.
O reinado do Slater no surfe mundial é tão extenso que, além dele, há apenas outros dois campeões mundiais na primeira divisão (Mick Fanning e C.J. Hobgood). Você acha que ele ainda tem mais lenha para queimar, ou o reinado está chegando no fim, até por causa da idade dele?
Tem o Andy Irons também, que sem dúvida foi o grande adversário do Kelly. Dele pode se esperar tudo. É um cara muito difícil de ser vencido. Se conseguir estar bem, com certeza vai em busca do título.
Você acha que os esportes radicais no Brasil, como o surfe, ainda são vistos com um pouco de preconceito pela população em geral aqui no país?
Eu acho que precisamos de mais espaço na grande mídia esportiva. Em quais esportes o Brasil tem tantos atletas entre os 50 ou 100 do ranking mundial? Acho que apenas o surfe e o skate. Acredito que há espaço sim para divulgarem o que estamos fazendo, como acontece em outros paises, como a Australia, onde o surfe tem espaço na grande mídia, para que as pessoas vejam e saibam o que está acontecendo.
Seu apelido foi dado um pouco por causa de sua timidez na adolescência, certo? Hoje você é uma pessoa mais expansiva ou ainda permanece instrospectivo? Ter uma postura assim ajuda ou atrapalha na disputa do WT?
Meu apelido vem por causa de meu irmão mais velho, o Angelo, que era chamado de Mineiro, pelo jeito quieto. Como eu era bem pequeno, começaram a me chamar de Mineirinho. Eu também sou um cara calmo e quieto. Acho que ajuda a me manter focado durante as competições.
Você acha que você pode ou deseja mudar a maneira como o surfe é visto no Brasil? Guardadas as devidas proporções, fazer algo como o Gustavo Kuerten fez com o tênis?
Na realidade eu espero que sim. Que esta vitória e esta situação façam com que a grande mídia preste atenção no surfe, e que nos dê mais espaço.
O surfe não é um esporte olímpico. Você acha que ele deveria ganhar uma chance, de repente ser demonstração em 2016?
Ainda tenho minhas dúvidas em relação a isto, devido ao formato, qualidade das ondas, etc. É um assunto importante e que deve ser muito bem pensado.
É bem comum saber de problemas para transportar as pranchas em aeroportos, por exemplo. Você chegou a passar por alguma saia justa por conta disso?
Este com certeza é um dos maiores problemas que enfrentamos no tour. Nunca sabemos quanto vamos deixar no check in. Cada um faz o que quer e cobram taxas absurdas. Eu já tive e tenho problemas com isto. Já cheguei a deixar muito dinheiro no balcão dos aeroportos. Isto precisa ser regulamentado. Até mesmo a ASP tem de buscar alguma solução a este respeito junto às companhias aéreas.
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