Igor federal pôquer

Além de empresário do setor, Igor Trafane é presidente da Confederação Panamericana  Divulgação

LANCE!
17/10/2019
13:15
São Paulo (SP)

No dia em que o Hall of Fame (Salão da Fama) do pôquer brasileiro for criado, um dos primeiro nomes a integrá-lo certamente será o de Igor Trafane. Aos 47 anos, Federal - como ele é mais conhecido -  empunha a bandeira do pôquer há mais de 15 anos. Primeiramente como promissor jogador e depois, por mais de uma década, como defensor institucional da modalidade. 

Formado em administração pela Fundação Getúlio Vargas, Federal ajudou decisivamente na transformação do pôquer de atividade malvista a esporte da mente regulamentado, valorizado e praticado por milhões de pessoas no país.

Ex-presidente da Confederação Brasileira de Texas Hold'em e atual presidente da Confederação Panamericana de Pôquer Desportivo, ele liderou as dezenas de batalhas e vitórias jurídicas para legalizar a modalidade. Tornou-se também empresário do setor como sócio dos grupos H2 (que possui unidades físicas de clubes de pôquer), SuperPoker (site, revista e área de comunicação) e do BSOP (Brazilian Series of Poker), o Circuito Brasileiro de Pôquer. 

Neste bate-papo com o LANCE!, Trafane falou sobre o pôquer no país. 


LANCE!: Como você avalia o momento atual do pôquer no Brasil?

Igor Trafane: Posso dividir esse momento em quatro blocos: político/jurídico, esportivo, econômico e social. Naquilo que é jurídico propriamente dito, nós vencemos todas as ações que existiriam em algum momento questionando o direito existencial do pôquer. Então o momento é de uma consolidação muito grande, de uma jurisprudência absolutamente sólida e de um entendimento da Justiça brasileira de que nós temos, inequivocadamente, o direito de existir. Mas a nossa categoria necessita de um conjunto de regras que dê segurança jurídica para o segmento. E basicamente esse é o ponto político mais importante. Precisamos de um conjunto de regras que dê segurança para quem quiser investir. Está cheio de empresas internacionais que gostariam de vir para o Brasil para fazer um investimento significativo dentro do pôquer brasileiro. Elas sabem que o pôquer pode existir e está existindo no Brasil, mas enquanto não houver esse conjunto de regras para trazer mais clareza, você acaba afastando investimentos. E ao afastar investimentos você acaba impedindo um pouco o desenvolvimento. Então, a briga política deste momento é para que a gente consiga que o governo traga esta clareza. Muito se fala de que estamos às vésperas da regulamentação dos jogos de azar no Brasil. Então nossa briga política é para que o governo não regrida tudo aquilo que a gente construiu nos últimos 15 anos numa lei que não deixe clara a diferença entre o pôquer e os jogos de azar. Que os jogos de azar não sejam confundidos com os jogos de habilidade. 

LANCE!: Nos torneios os resultados têm sido bons, né?

Igor Trafane: No campo esportivo vivemos um momento maravilhoso. Recentemente fomos para Las Vegas (para a disputa do WSOP, o Circuito Mundial de Pôquer) e trouxemos dois braceletes e dezenas de mesas finais. Nunca tivemos uma participação tão sólida dos brasileiros. E isso em todos os quesitos, número de participantes, bons resultados, mesas finais. E não só no live como no online e torneio mundiais. O brasileiro é muito criativo, tem bom intelecto e capacidade cognitiva . Não existe nenhum estudo que comprove que uma nação tenha na média uma capacidade maior ou mais privilegiada. Posto isso, o brasileiro então está na média do mundo. Só que o brasileiro é muito criativo. Tanto é que a publicidade é a melhor do mundo. Brasileiro é maleável, safo, tem jogo de cintura. Desde a ginga de futebol até o pôquer. Então a gente sabia que quando houvesse uma massa de jogadores nós teríamos muitos vencedores. Como começamos muito tardiamente - anos 2000 - é necessário um tempo de maturação para termos uma massa piramidal, um volume de jogadores de alto nível. Mas em uma década e meia já temos praticamente os melhores resultados percentuais no online e agora também avançando para o ao vivo. Portanto o momento esportivo é muito significativo.

LANCE!: E no âmbito social?

Igor Trafane: A gente rompeu definitivamente aquela pecha de salão esfumaçado que existia lá atrás com relação a jogar pôquer. Isso nem é mais assunto. Socialmente evoluímos muito. A sociedade entende o jogador de pôquer atualmente. Claro que ainda existem barreiras a serem quebradas, mas isso também serve para todas as novas profissões dos últimos tempos. É óbvio que o jogador de esports, o blogger, youtuber etc tem muito a conquistar. A questão é que o pôquer tinha uma certa pecha negativa. Hoje já é o contrário. Jogar pôquer virou algo legal e quem não gosta de jogar é que fica deslocado.

LANCE!: E na questão econômica?

Igor Trafane: Se o governo brasileiro entender que ele tem de dar segurança para isso, o que pode ser gerado de emprego, atividade de valor econômico para o país, divisa, tributo e imposto é muito grande. Então o pôquer está num momento em que está prestes a explodir. Mas todos que trabalham com o pôquer são corajosos. Isso porque amanhã pode aparecer alguém dizendo que não pode e ele terá de brigar na Justiça. Então, quando empurram uma categoria para viver sob essa condição, só os corajosos estão prontos para a batalha. Mesmo sedimentada, está sempre sob risco. Na hora que o governo tirar isso e criar regras claras, aí nós vamos economicamente explodir.

LANCE: Quanto o pôquer movimenta em termos econômicos no país?

Igor Trafane: Temos cerca de 300 clubes no Brasil. Há uma estimativa de aproximadamente 15 funcionários por clube. Daí temos mais cerca de 200 pontos com torneios privados avulsos e regulares. Então estamos falando de cerca de 5.500 empregos diretos hoje em dia. Quando se fala de 5, 6 mil empregos diretos, então seriam uns 16, 20 mil indiretos. E como o IBGE diz que cada salário pago no Brasil sustenta mais de três pessoas, estamos falando de 50, 60 mil pessoas que vivem disso, sustentadas pelo pôquer. Queremos que o governo solte as amarras, solte a âncora. Hoje estamos ancorados no medo de fazer investimentos maiores. Como já estamos amparados pela lei, seria uma coisa executiva. Definir o seguinte: clube paga imposto assim, torneio paga imposto assim etc.. Colocar as regras. Definir o código da categoria que vai trabalhar, a tributação, o trabalhista etc.. Na Câmara (dos Deputados), em Brasília, eu sou conhecido como "samba de uma nota só". Faz 10 anos que bato nisso. Na hora que eu chego lá, já sabem. Eu só tenho uma causa, 10 anos batendo nisso. Sentimos bastante avanço, claro, mas falta o avanço final.

LANCE: E como conseguir conciliar tudo isso: atuação de dirigente, empresário, organizador de torneios etc?

Igor Trafane: Quem acaba pagando mais é a família pois todas essas atividades fazem a gente ficar muito ausente. De manhã é o escritório, à tarde os torneios e à noite os clubes. Só consegui tudo isso graças à força e compreensão da minha esposa Isabella, com quem tenho o Enzo, 7 anos, e a Nina, 2.   


* Leia nos próximos dias novos trechos da entrevista com Igor Trafane