Ron Hill, uma lenda da maratona, morre aos 82 anos. (Foto de ronhil.com)

Ron Hill, uma lenda da maratona, morre aos 82 anos. (Foto de ronhil.com)

Iúri Totti
31/05/2021
19:32
Corrida Informa

Todos os dias, entre 21 de dezembro de 1964 e 29 de janeiro de 2017, o britânico Ron Hill correu, pelo menos, uma milha (1,6km). Por esses 52 anos e 39 dias seguidos de corrida, Hill estabeleceu um recorde mundial que ainda permanece e inspirou várias gerações ao redor do mundo. Ele morreu, no último dia 23, aos 82 anos.

Durante os 19.032 dias em que correu diariamente, Hill estudou para um doutorado; trabalhou em tempo integral como químico têxtil; iniciou, construiu e depois vendeu sua própria empresa; formou uma família; quebrou três recordes mundiais, faz um cirurgia de joanete; fraturou o esterno em um acidente com perda total em seu carro; e competiu em três Jogos Olímpicos. Enfim, ele nunca tinha folga.

Nesse desafio diário (#runeveryday), ele chegou a correr mesmo após uma cirurgia em um pé. Durante seis semanas, Hill deu voltas em uma pista com o pé engessado – nos primeiros sete dias usou muletas para se equilibrar.

Problemas cardíacos de Ron Hill encerraram desafio

Sua obstinação em correr todos os dias causava alguns conflitos com sua família. Segundo seu filho mais velho, Steven Hill, ao mesmo tempo era motivo de orgulho, mas tinha alguns atritos em casa. “Minha mãe estava orgulhosa da sequência, mas também frustrada com a teimosia do meu pai. Ele, às vezes, corria em segredo, especialmente quando não estava bem, para que minha mãe não soubesse. Ela não poderia impedi-lo, mesmo se estivesse sabendo. Meu pai era a pessoa mais teimosa que eu já conheci”, disse ele para a Runner’s World.

Aos 79 anos, em 29 de janeiro de 2017, Hill anunciou para a Streak Runners International que seu desafio tinha encontrado a linha de chegada. “É com grande tristeza que devo relatar o fim da minha sequência. Tenho tido problemas cardíacos e estou esperando para ter o problema diagnosticado e, com sorte, corrigido. Corridas de uma milha não ajudaram e, no sábado, 28 de janeiro, corri minha última milha (1,6km). Depois de menos de 400m, meu coração começou a doer e nos últimos 800m o problema foi piorando cada vez mais. Achei que fosse morrer, mas cheguei a uma milha em 16m34s. Não havia outra opção a não ser parar. Eu devia isso à minha esposa, família e amigos, além de mim mesmo”, disse ele, que um ano depois anunciou que também sofria de Alzheimer.

Currículo invejável

Hill foi atleta olímpico, inventor, inovador e, sem dúvida, um dos maiores corredores de maratona do Reino Unido. Seus números finais mostram que ele completou 115 maratonas, com 112 delas em 2h50m, 103 em 2h45m e 29 em 2h20m.

Em 1970, ele se tornou o primeiro britânico a vencer a Maratona de Boston, quebrando o recorde da prova, com 2h10m30s, três minutos abaixo do recorde anterior. Neste mesmo ano, Hill venceu a maratona da Commonwealth, com 2h09m28s, tornando-se o segundo atleta a correr a distância em menos 2h10m.

Hill também participou de três Jogos Olímpicos. Em Tóquio-1964, ele terminou em 19º na maratona, com 2h25m34s, e em 18º nos 10.000m, com 29m53s.00. No México-1968, ele só disputou os 10.000m, fechando, descalço, na sétima colocação, com 29m53s.20. Já em Munique-1972, Hill ficou em sexto na maratona, com 2h16m31s.

Mais de 259.908km corridos

Ele foi um dos pioneiros no “aumento da carga de carboidratos” antes de correr uma maratona com o objetivo de aumentar o estoque de glicogênio. E ele usou seu PhD em engenharia têxtil, com bons resultados, para inventar e correr com coletes de malha respirável ​​para se refrescar – uma grande inovação na época. Sua empresa Ron Hill Sports também foi líder de mercado com suas meias esportivas antes do boom da lycra nos anos 80 e 90.

Hill, que ao longo de sua vida correu 259.908km, nunca se aposentou oficialmente do atletismo. Ele gostava de dizer que nunca iria parar de competir. Mesmo quando o Alzheimer atingiu estágios avançados, no ano passado, ele se manteve competitivo. O filho Steven conta uma história de um passeio de seu pai por um parque local. “Ele reclamava que estava cansado e pediu para voltar para casa. Foi quando outro idoso passou por ele arrastando os pés, usando um andador. Imediatamente a postura do meu pai se endireitou, sua expressão mudou e ele começou a caminhar mais rápido para alcançar o senhor à frente. Seu instinto competitivo adormecido se mostrava presente”.

Que história inspiradora.

Iúri Totti