Argélia 0 x 2 Áustria na Copa de 1982: austríacos ganham e colocam mão na vaga do grupo

Relembre o duelo em Oviedo que brecou o embalo das Raposas do Deserto.

PorLance!São Paulo (SP)
27/06/2026 06:51
O lendário centroavante Hans Krankl comemora de braços abertos após anotar o gol que consolidou a importante vitória da Áustria por 2 a 0 sobre a Argélia no Estádio Carlos Tartiere. (FIFA)
O lendário centroavante Hans Krankl comemora de braços abertos após anotar o gol que consolidou a importante vitória da Áustria por 2 a 0 sobre a Argélia no Estádio Carlos Tartiere. (FIFA)
Ver Resumo da matéria por IA
Copa do Mundo de 1982 ocorreu na Espanha, com 24 seleções participantes.
Argélia surpreendeu ao vencer a Alemanha Ocidental na estreia.
Áustria derrotou a Argélia por 2 a 0, consolidando a liderança do Grupo 2.
Resumo supervisionado pelo jornalista!

A décima segunda edição da história dos Mundiais, sediada na ensolarada e culturalmente vibrante Espanha no início do verão de 1982, entrou para a posteridade como o torneio da expansão técnica e das surpresas táticas monumentais. Com o aumento definitivo no número de participantes de 16 para 24 seleções, o certame abriu as portas para escolas de futebol até então pouco conhecidas pelo grande público europeu, enriquecendo o mosaico de estilos nos gramados espanhóis. No dia 21 de junho de 1982, uma tarde de segunda-feira com clima ameno na cidade de Oviedo, o gramado do Estádio Carlos Tartiere abrigou o choque da segunda rodada do Grupo 2 entre Argélia 0 x 2 Áustria, um embate de extrema importância matemática que acabou ditando, de forma direta, um dos desfechos mais polêmicos e debatidos de toda a história das Copas do Mundo. O Lance! relembra Argélia 0 x 2 Áustria na Copa de 1982.

continua após a publicidade

➡️ Siga o Lance! no WhatsApp e acompanhe em tempo real as principais notícias do esporte

A seleção da Argélia pisava no gramado de Oviedo ostentando, de forma amplamente merecida, o status de grande sensação e xodó do planeta bola naquele início de competição. Apenas cinco dias antes, na rodada de abertura em Gijón, as chamadas Raposas do Deserto haviam chocado o mundo do esporte ao derrotarem a poderosa e amplamente favorita Alemanha Ocidental pelo placar de 2 a 1, exibindo um futebol vistoso, extremamente técnico, veloz e repleto de ousadia ofensiva. Sob o comando dos treinadores Rachid Mekhloufi e Mahieddine Khalef, o elenco argelino, liderado pelo talento reluzente de Lakhdar Belloumi e pela velocidade do jovem Rabah Madjer, sabia que uma nova vitória diante dos austríacos carimbaria antecipadamente uma histórica e inédita classificação africana para a segunda fase da Copa.

Do outro lado, a experiente e disciplinada seleção da Áustria entrava em campo ciente de que precisaria de uma exibição cirúrgica, focada no preparo físico e na paciência tática, para frear o entusiasmo de seus oponentes. Dirigidos pela comissão técnica capitaneada por Georg Schmidt, os austríacos vinham de uma vitória magra e segura por 1 a 0 sobre o Chile na estreia, apoiando-se em um sistema de jogo sólido, maduro e de forte imposição europeia no meio-campo. Contando com a liderança do maestro Herbert Prohaska na articulação e com o faro de gol implacável de Hans Krankl, a Áustria adotou uma postura de imensa vigilância posicional, recusando-se a dar os espaços de transição rápida que os argelinos tanto necessitavam para desestabilizar as defesas adversárias.

continua após a publicidade

O confronto no Estádio Carlos Tartiere desenvolveu-se como um autêntico jogo de xadrez tático de alta intensidade, disputado palmo a palmo no círculo central e marcado pelo extremo respeito mútuo. Durante toda a primeira etapa, a Argélia tentou propor as ações e envolver a marcação europeia através de trocas de passes curtos, mas esbarrou em uma barreira defensiva austríaca impecável e muito bem postada. Na metade complementar, a maior rodagem internacional e a força física da Áustria cobraram o seu preço: explorando de forma cirúrgica os erros de posicionamento da retaguarda africana, Walter Schachner e Hans Krankl anotaram os gols que decretaram o placar de 2 a 0. O triunfo colocou a Áustria com as duas mãos na vaga e desenhou o cenário matemático que, dias mais tarde, resultaria no fatídico pacto de não-agressão de Gijón.

Argélia 0 x 2 Áustria na Copa de 1982

O contexto do grupo 2: O choque argelino e a resposta europeia

Para compreender perfeitamente a voltagem dramática que cercava o duelo em Oviedo, é preciso resgatar o terremoto que a Argélia havia provocado na rodada inicial. A vitória argelina sobre a Alemanha Ocidental quebrou a soberba dos europeus — cujo treinador chegara a declarar que escalaria seus jogadores de terno em campo — e acendeu um sinal de alerta vermelho em toda a imprensa do Velho Continente. A Áustria, compartilhando laços culturais e táticos com os alemães, utilizou os dias de preparação anteriores ao embate para estudar exaustivamente os movimentos das Raposas do Deserto, entendendo que o time africano sofria de uma crônica fragilidade defensiva quando obrigado a propor o jogo sem o espaço dos contra-ataques.

continua após a publicidade

Georg Schmidt estruturou a Áustria no clássico e eficiente sistema europeu da época, recuando o líbero Erich Obermayer e o gigante Bruno Pezzey para vigiar de perto os passos de Madjer e Belloumi. No meio-campo, a ordem era congestionar o raciocínio argelino através da forte pegada física de Roland Hattenberger e Reinhold Hintermaier, impedindo que o meia Mustapha Dahleb conseguisse alimentar o ataque com passes em profundidade. A estratégia austríaca visava cozinhar o jogo na base da paciência, cansando os ágeis meio-campistas argelinos sob o calor da tarde espanhola para desferir os golpes fatais nos momentos de desatencao do oponente.

Equilíbrio de forças e a resistência das Raposas do Deserto

Quando o árbitro peruano Enrique Labo Revoredo apitou o início da partida em Oviedo, o desenho tático do confronto apresentou uma Argélia senhor das ações territoriais, mas visivelmente mais vigiada do que na estreia. Os africanos trocavam passes com imensa categoria através da habilidade de Lakhdar Belloumi e das subidas constantes do lateral-direito Chaabane Merzekane, que tentava quebrar as linhas austríacas com arrancadas em velocidade. No entanto, a zaga da Áustria mantinha-se compacta e perfeitamente posicionada na entrada da grande área, neutralizando as infiltrações de Djamel Zidane e Salah Assad.

A Áustria mantinha uma postura calculista, atacando de forma econômica e explorando a força física de seu centroavante Hans Krankl para segurar a bola no campo ofensivo e fazer o trabalho de pivô. Os austríacos assustavam esporadicamente em lances de bola parada e chutes de longa distância de Herbert Prohaska, exigindo saídas precisas do goleiro argelino Mahdi Cerbah, que exibia excelente senso de posicionamento. A marcação forte da Áustria quebrava o ritmo veloz desejado pelo técnico Rachid Mekhloufi, transformando os primeiros 45 minutos em uma batalha truncada e amarrada no círculo central. O placar zerado no intervalo refletia com total fidelidade a eficiência do plano defensivo montado por Georg Schmidt.

A imposição física da Áustria e o gol de Schachner

Insatisfeito com a falta de agressividade de sua equipe no setor de armação, o comandante austríaco promoveu uma alteração cirúrgica logo no intervalo, sacando Ernst Baumeister para lançar o atacante Kurt Welzl, modificando a estrutura tática da equipe para uma postura consideravelmente mais agressiva. A Áustria retornou para a etapa complementar demonstrando imensa intensidade nas divididas e adiantando as suas linhas de marcação, sufocando a saída de bola da Argélia. A mudança de postura psicológica colheu frutos colossais rapidamente, abrindo o caminho para o gol de abertura aos 10 minutos do segundo tempo.

Após uma belíssima triangulação curta construída pelo flanco esquerdo do ataque europeu, o meia Reinhold Hintermaier descolou um passe em profundidade magnífico que rasgou as linhas de impedimento argelinas. O atacante Walter Schachner infiltrou-se em alta velocidade por entre os defensores Mahmoud Guendouz e Nordine Kourichi, dominou a bola com categoria e, na saída desesperada do goleiro Mahdi Cerbah, desferiu um chute cruzado rasteiro e preciso. A bola morreu no fundo das redes para inaugurar o placar em Oviedo, explodindo o banco de reservas austríaco em comemoração e jogando um balde de água fria nas pretensões das Raposas do Deserto.

O instinto de Hans Krankl e o nocaute da Seleção Argelina

O baque do gol sofrido desestruturou por completo o plano emocional e o posicionamento tático da Argélia, que passou a errar passes fáceis e ceder novos espaços na retaguarda em meio ao cansaço físico. Percebendo o momento de fraqueza do oponente, a Áustria desferiu o golpe de misericórdia aos 22 minutos da etapa complementar. Em uma jogada de velocidade puxada pelo recém-entrado Kurt Welzl pelo lado direito, a bola foi cruzada à meia-altura em direção à grande área. O zagueiro argelino Faouzi Mansouri falhou coletivamente na tentativa de corte aéreo, e a bola sobrou limpa nos pés do maior artilheiro daquela geração.

Demonstrando um instinto letal incomparável e imensa frieza de área, o centroavante Hans Krankl dominou a bola limpando a marcação de Mahmoud Guendouz e soltou um chute potente de perna esquerda, vencendo o goleiro Cerbah de forma incontestável para ampliar o marcador para 2 a 0. O gol de Krankl sacramentou o nocaute definitivo no Carlos Tartiere. No calor do momento e protestando contra um suposto toque de mão no início da jogada, o defensor argelino Faouzi Mansouri recebeu o cartão amarelo da partida aplicado pelo árbitro Enrique Labo Revoredo.

Atrás por dois gols de diferença, o técnico argelino Rachid Mekhloufi tentou queimar as suas cartadas ofensivas na base do brio, promovendo as entradas de Tedj Bensaoula na vaga de Belloumi e do meia Djamel Tlemcani no lugar de Dahleb. A Argélia passou a rondar a grande área europeia e assustou em finalizações perigosas de Rabah Madjer e Salah Assad, mas esbarrou na atuação impecável do veterano goleiro Friedl Koncilia, que interceptava todos os cruzamentos aéreos com imensa segurança. A Áustria ainda oxigenou o time com a entrada do defensor Heribert Weber na vaga do maestro Prohaska, administrando a posse de bola com imensa inteligência e maturidade até o apito final.

A matemática que desenhou a "Vergonha de Gijón"

O apito final de Enrique Labo Revoredo decretou a vitória categórica da Áustria por 2 a 0, selando um passo gigantesco para as pretensões europeias na Copa do Mundo de 1982. Com o triunfo incontestável em Oviedo, os austríacos isolaram-se temporariamente na liderança absoluta do Grupo 2 com 4 pontos conquistados, mantendo as suas redes totalmente intactas no torneio. A exibição madura e segura provou a força do pragmatismo da equipe contra escolas emergentes, enchendo o elenco de confiança antes da rodada de encerramento da fase inicial da competição em solo espanhol.

Contudo, retrospectivamente, o placar exato de 2 a 0 construído pela Áustria acabou funcionando como a peça de encaixe perfeita para um dos capítulos mais sombrios, vergonhosos e antiéticos da história do futebol mundial: o "Pacto de Não-Agressão de Gijón". Como a Argélia jogou a sua última partida no dia anterior e bateu o Chile por 3 a 2, a matemática do grupo ficou desenhada de forma traiçoeira para o duelo final entre Alemanha Ocidental e Áustria.

Sabendo que uma vitória alemã por 1 a 0 ou 2 a 0 classificaria as duas nações europeias e eliminaria os argelinos pelo saldo de gols, alemães e austríacos protagonizaram um espetáculo de compadrio deprimente após o gol inicial da Alemanha, trocando passes laterais sem qualquer competitividade sob as vaias do público. O trauma sofrido pela Argélia foi tão profundo que forçou a FIFA a alterar o regulamento para os Mundiais seguintes, determinando que todas as partidas da rodada final da fase de grupos passassem a ser disputadas de forma rigorosamente simultânea.

Ficha técnica - Argélia 0 x 2 Áustria na Copa de 1982

  • Data: Segunda-feira, 21 de junho de 1982
  • Horário: 12:15 (de Brasília)
  • Local: Estádio Carlos Tartiere – Oviedo, Espanha
  • Árbitro: Enrique Labo Revoredo (Peru)
  • Público: Cerca de 22.000 espectadores

Gols

  • Áustria: Walter Schachner (55'), Hans Krankl (67')

Escalações e substituições de Argélia 0 x 2 Áustria na Copa de 1982

Argélia (Técnico: Rachid Mekhloufi)

  • 1 - Mahdi Cerbah (G)
  • 5 - Chaabane Merzekane
  • 2 - Mahmoud Guendouz
  • 4 - Nordine Kourichi
  • 16 - Faouzi Mansouri 🟨 (67')
  • 8 - Ali Fergani (C)
  • 15 - Mustapha Dahleb (Saiu aos 76')
  • 10 - Lakhdar Belloumi (Saiu aos 65')
  • 11 - Rabah Madjer
  • 14 - Djamel Zidane
  • 7 - Salah Assad

Banco de reservas utilizados:

  • 9 - Tedj Bensaoula (Entrou aos 65')
  • 19 - Djamel Tlemcani (Entrou aos 76')

Não utilizados: Mourad Amara, Yacine Bentaala, Salah Larbes, Abdelkader Horr, Mustapha Kouici, Hocine Yahi, Ali Bencheikh, Karim Maroc, Abdelmajid Bourebbou.

Ástria (Técnico: Georg Schmidt)

  1. 1 - Friedl Koncilia (G)
  2. 2 - Bernd Krauss
  3. 5 - Bruno Pezzey
  4. 3 - Erich Obermayer (C)
  5. 4 - Josef Degeorgi
  6. 6 - Roland Hattenberger
  7. 14 - Ernst Baumeister (Saiu aos 45')
  8. 10 - Reinhold Hintermaier
  9. 8 - Herbert Prohaska (Saiu aos 81')
  10. 7 - Walter Schachner ⚽
  11. 9 - Hans Krankl ⚽

Banco de reservas utilizados:

  • 20 - Kurt Welzl (Entrou aos 45')
  • 19 - Heribert Weber (Entrou aos 81')

Não utilizados: Herbert Feurer, Klaus Lindenberger, Anton Pichler, Johann Dihanich, Gerald Messlender, Johann Pregesbauer, Kurt Jara, Max Hagmayr, Gernot Jurtin.

Sugerida para você!


Mais LANCE!