Thiago Correia
19/11/2015
08:35
Rio de Janeiro (RJ)

O clube é centenário, está na Quinta Divisão da Inglaterra, mas tem uma proposta ousada: tornar o futebol mais ecologicamente correto. Desde 2010, o Forest Green Rovers, vice-líder da National League, é comandado por Dale Vince, um antigo "new age traveller" (jovem viajante), que agora comanda a Ecotricity, empresa de energia limpa em Gloucestershire, mesma região do time.

Tudo começou quando Vince tinha 13 anos e começou a ver a quantidade de petróleo utilizado para fazer os carros andarem. Em sua juventude, saiu viajando pela Inglaterra, e colocou na cabeça que queria fazer a diferença para as pessoas e tornar o mundo um lugar mais verde.

Fez sua companhia, e em 2010 conheceu o FGR de perto. O clube passava por dificuldades.

– Comecei a pensar nisso no verão de 2010. Forest Green estava com problemas, li isso no jornal local, vieram falar comigo, convidaram para ver o clube, vi que era gente querida, amável... Precisavam de dinheiro, é um clube centenário, que é da minha comunidade, seria algo bom e fácil de fazer, gosto de futebol e me perguntei "por que não?". Assim que começou. – explicou Vince em entrevista ao L!.

Aos poucos, tudo foi se ajustando. O cardápio tornou-se vegetariano, hoje já é até vegano (nada de origem animal). Grama e tinta são orgânicas, um robô é responsável por cuidar do solo do campo, um sistema de irrigação que capta água da chuva e não desperdiça nada. Além de painéis de energia solar, que foram uma cortesia de Gary Neville, ídolo do Manchester United, que usou a renda de um jogo em sua homenagem para bancar as placas.

– A minha missão no clube é cuidar do nosso trabalho e levar nossa mensagem a um novo público, que ainda não foi impactado com certas coisas, que é o público do futebol. São tempos modernos e um novo pensamento. Fazer com que eles questionem. Buscar essa nova audiência, que é muito grande, e do esporte em geral, ainda mais. São pessoas apaixonadas que merecem saber sobre isso, sobre o que fazemos, sobre o que precisamos melhorar a nossa forma de viver. E isso em algo divertido, que é futebol – explica Vince:

- A razão de falarmos que somos o clube mais verde é que é o nosso desafio. Mostrar que se nós podemos fazer isso, imagina o que outros clubes que são bem maiores podem fazer? É um desafio aos outros clubes também. Buscar atenção da imprensa, temos uma voz. O nosso trabalho é juntar o futebol e a natureza, mostrar que precisamos mudar como vivemos. E isso é muito fácil e traz muita diversão.


Sua ideia é fazer com que as pessoas comecem a questionar sobre os problemas ambientais no mundo. E pensando alto, levar sua mensagem para clubes grandes não só da Inglaterra, mas também de fora. Aliás, outros times também têm essa preocupação (veja mais abaixo).

– Podemos ser um exemplo, estou convencido disso. O nosso trabalho está chegando ao Brasil! Isso influencia as pessoas, mudamos para o cardápio vegano há poucas semanas, recebemos apoio de pessoas ao redor do mundo. Definitivamente podemos fazer isso.

Dentro de campo, a vida vai bem. O clube é o segundo lugar da Quinta Divisão e tem chances de subir. Em médio prazo, a ideia de Vince é chegar na Segunda Divisão. Quando lá estiver, fazer um novo estádio e ampliar a mensagem.

- O nosso plano é chegar na Championship, temos trabalhado nessa direção. Pode ser algo que podemos chegar. Queremos construir um estádio como nunca foi visto no mundo - sonha.

Forest Green (Foto: Divulgação)
Projeto do novo complexo do Forest Green (Foto: Divulgação)


Além das inovações fora das quatro linhas, o clube pretende também buscar uma nova forma de procurar talentos. Dale Vince decidiu investir na técnica batizada de "moneyball", que ficou famosa no beisebol. Nada mais é do que utilizar estatísticas para captar jogadores que possam dar certos atributos ao time. Porém, Vince diz que não quer que este termo seja utilizado, pois não se trata de dinheiro (money, em inglês).

– Na verdade, eu odeio o termo Moneyball, a mídia faz uma imagem errada, não é sobre dinheiro. É sobre usar estatística para buscar bons jogadores, com treinadores olhando, buscando com esse conhecimento. Temos um gerente para isso, o que ele faz é usar a equipe para analisar os jogadores em potencial, jovens, para o recrutamento. Somos limitados, mas buscamos todas as estatísticas e isso ajuda a tomar a decisão. Não se trata do dinheiro, mas trata-se de sofisticar a busca por jogadores – explica Dale Vince.

BATE-BOLA
Dale Vince, dono do FGR, ao LANCE!

Quando você começou a se preocupar com o meio-ambiente?

A minha preocupação começou quando tinha 12 ou 13 anos. Ninguém falava disso na época. O petróleo vinha de algum lugar... Um dia reparei na quantidade de carros na rua, eu imaginei a quantidade de combustível que estava ali. Vi que algo precisava ser feito. Foi a primeira vez que lembro de pensar sobre energia, de onde ela vinha, e que algo deveria ser feito.

Quais foram os seus primeiros pensamentos?
Quando eu deixei a escola, eu procurei um estilo de vida alternativo. Ao pensar no impacto na natureza, eu pensava em algo grande, algo que fizesse uma grande diferença, que deveria ser radical. Não apenas aquelas atitudes convencionais. Passei 10 anos vivendo na estrada, sem eletricidade, usando pequenas necessidade.

Como era ser um "new age traveller"?
Era um movimento no início dos anos 1980, em que as pessoas desapegavam das coisas, as pessoas buscavam uma vida fora do convencional, fora da cidade. As pessoas ficavam juntas, viajando o país, indo a festivais no verão. É uma grande experiência, vivíamos com pouco dinheiro, fazíamos o mínimo para viver. Era um movimento social.


Não é só na Inglaterra que existe algum clube com preocupação ambiental. No Brasil, nos Estados Unidos e em Portugal existem exemplos de atitudes que ajudam o meio-ambiente. Em curitiba, o JMalucelli é dono do Ecoestádio, que tem arquibancada escavada na terra, economizando concreto, e usa ferro de uma ferrovia desativada.

- O Ecoestádio está inserido em uma região ecológica, no Parque Barigüi, e surgiu por causa da região em que está implementado. A topografia era favorável, e queríamos unir o aspecto ecológico e o econômico. Ecologia tem que estar inserida em qualquer contexto, no futebol, melhor ainda. Temos coelhos, faisões por aqui, dá um aspecto de bom gosto, de educação - disse Joel Malucelli, presidente de honra do clube, ao LANCE!.

Em Portugal, o Porto é um exemplo disso através de sua casa. O Estádio do Dragão foi desenhado tendo em consideração elevados padrões de qualidade, com utilização muito racional dos recursos naturais. Sua arquitetura tem enormes aberturas nas bancadas superiores e teto translúcido. Desta forma, a ventilação e fotossíntese naturais são potencializados, reduzindo o consumo de energia dos sistemas de suporte artificiais.

Os sistemas de comando dos equipamentos de iluminação e ar condicionado são extremamente detalhados e permitem um controle apurado de consumo. Além de racionalizarmos o consumo de água, através de equipamentos com redução de caudais, há um recurso permanente a águas captadas no subsolo para irrigação e limpeza, reduzindo a utilização da rede pública. Finalmente, a taxa de renovação de resíduos é elevada quando comparada com os restantes produtores da cidade. Através de campanhas e sensibilizações, o Porto consegue aumentar os índices de reciclagem e diminuir a quantidade total de lixo produzido.

"Isso tudo transmite aos restantes departamentos uma imagem de rigor, seriedade e competência. Só com procedimentos muito apurados e equipes muito bem treinadas é que é possível obter resultados como os do Estádio do Dragão. Por outro lado, a questão ambiental é um dos principais pilares da sustentabilidade e permite a libertação de recursos para outras áreas fulcrais da atividade do Porto", explica o Dragão através de comunicado ao LANCE!.

Por fim, um exemplo que, primeiramente, parece ser contra a natureza, mas mostra-se amigo dela. Nos Estados Unidos, o Portland Timbers, clube da MLS, corta uma tora de madeira a cada gol marcado, e presenteia quem balançou as redes. Poderia ser um desmatamento gratuito, mas não.

- É uma árvore muito comum, só pegamos as que já caíram. E a cada gol nosso, ou seja, a cada lasca tirada do tronco, uma nova árvore é plantada pelos nosso projeto parceiro, o Friends of Trees (Amigos das Árvores) - explica Timber Joey, torcedor-símbolo do Timbers, em entrevista ao LANCE! em 2013.