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24/11/2014
19:45

Por Ary Moraes
Doutor em Design pela PUC-Rio e professor da Escola de Belas Artes da UFRJ
arymoraes@lancenet.com.br

As mascotes dos Jogos do Rio foram desenvolvidas e escolhidas segundo critérios técnicos do plano de marketing da Olimpíada. Do ponto de vista do design, o projeto do escritório que venceu a concorrência, a Birdo Produções, foi correto, e teve méritos ao fazer o que deveria ser feito dentro dos limites propostos pela organização da Rio 2016, como têm sido todo o trabalho de design desenvolvido para os Jogos até aqui. Porém, no caso das mascotes ainda sem nome, a estranheza provocada pelos bonecos leva a uma reflexão.

De alcance planetário, o desenho das mascotes priorizou o caráter internacional dos Jogos, optando por formas genéricas, reconhecíveis e aceitáveis como as dos desenhos animados dos canais de TV. A dupla do Rio 2016 é fofinha, sem dúvida. Contudo, indo além dessa possibilidade de reconhecimento e de aceitação, as personagens precisam ser explicadas para fazerem sentido, ou seja, precisam de um discurso que as preceda para que possam ser entendidas como um símbolo do Rio ou do Brasil.



Isso pode ser um mal sinal para um design que deveria ser mais fácil, sobretudo para as crianças, apontadas como o público preferencial das mascotes. Em fase de desenvolvimento cognitivo, a criança classifica as coisas para melhor entendê-las. Como classificar as mascotes? Gato? Macaco?

São recorrentes as histórias de mascotes de Olimpíadas ou Copas que desapareceram. Vide o nosso Fuleco, o tatu-bola do Mundial do Brasil que sumiu pouco antes da Copa (para muitos, entocou-se ao prever a tragédia...). Fuleco era identificado como um tatu-bola, associado com o jogo desde as entranhas e reconhecido ainda nos livros escolares como um animal do Brasil. A visão do mercado só se impôs nas opções para o nome da mascote, todas distantes do gosto popular porém supostamente mais fáceis de serem pronunciadas por estrangeiros, o grande mercado da Copa. Bem ou mal falado, Fuleco foi mais um a não vingar mesmo no curto espaço de tempo que dura uma mascote e certamente ficará esquecido por causa do desastre do Mundial.

No caso da Rio 2016, circula a história de que o presidente do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos, Carlos Arthur Nuzman, sempre foi contrário à mascotes que pudessem reforçar estereótipos pejorativos do Brasil: o “indiozinho”, a “ararinha”, o “macaquinho”, a “oncinha” e por aí vai. A atitude é louvável e expõe uma proposta mais altiva para a identidade a ser trabalhada por meio das mascotes.

Também haveria uma suposta estratégia para se evitar problemas de direitos autorais com personagens que coincidissem com figuras já registradas. A saída foi reunir elementos que remetessem à flora e à fauna brasileiros e combiná-los de modo a criar as mascotes. Isso foi feito. Porém, ao apresentar seres que se misturam a ponto de deixar indefinida sua natureza, acabou se esbarrando numa questão mais profunda: para agradar ao público “mundializado” é necessário se descaracterizar a ponto de perder a identidade (regional)?

Fora o financeiro, o motivo da mobilização em torno da candidatura do Rio à sede olímpica era trazer o evento para o lado pobre da Terra, lembrando que os Jogos pertencem à humanidade, como disse o ex-presidente Lula. Talvez fosse válido reforçar isso também nas mascotes. O urso Misha (1980) não deixou de ser russo, tampouco o cachorro Cobi (1992) deixou para trás seu lado catalão para serem mascotes dos Jogos e ambos ainda são lembrados. Esquecidos foram aqueles que se submeteram ao mercado.