icons.title signature.placeholder Ivo Felipe
05/04/2014
19:48

Dono de uma das melhores carreiras da história em provas de fundo, com três títulos olímpicos e outras cinco conquistas mundiais, Kenenisa Bekele quer mais. O etíope não se contenta em ser "um dos melhores". Quer isolar-se e ser reconhecido como o maior de todos.

Para chegar ao nível que deseja, deixou para trás toda a história que escreveu nos 5.000m e 10.000m. Na madrugada deste domingo, participará de sua primeira maratona, em Paris (FRA). O objetivo: tornar-se o recordista mundial. Consequentemente, dizimar qualquer dúvida sobre quem foi o melhor a um dia correr em longas distâncias.

Seu concorrente histórico é, também, sua maior inspiração. Hoje aos 31 anos, Bekele cresceu enquanto o compatriota Haile Gebrselassie dominava justamente os 5.000m e 10.000m. Quando a lenda saiu de cena, já em posse de dois ouros olímpicos e quatro títulos mundiais, Bekele tomou para si o domínio das provas.

Gebrselassie, por sua vez, seguiu pelo caminho que Bekele trilhará. Foi às maratonas e tornou-se em 2008 o primeiro homem a correr os 42km em menos de 2h04 (2h03m59). Nos últimos anos, a dúvida sobre quem tem o currículo mais vitorioso só cresceu. Questão que não existe na cabeça de Bekele.

- Deixo nas mãos dos outros para julgar quem é melhor, Haile ou eu. Haile conseguiu correr por um grande espaço de tempo, conseguiu grandes feitos e eu tenho um respeito enorme por ele. É um grande atleta, mas não foi um corredor tão bom de cross country. Então, acho que os meus feitos em provas de cross country e pista são maiores do que os de qualquer outro atleta - disse Bekele, em entrevista exclusiva concedida ao LANCE!Net.

Nas maratonas, Bekele terá a companhia de outro corredor bem-sucedido em provas de pista: o britânico Mo Farah, atual campeão olímpico e mundial dos 5.000m e 10.000m. Confira abaixo este e outros assuntos na íntegra do bate-papo com a lenda do atletismo.

Recentemente, você decidiu competir em maratonas, em vez de provas de pista. Por que tomou esta decisão? O quanto você acredita que pode ser competitivo nesta distância?
Eu acho que posso ser competitivo na maratona porque este é o meu único foco neste momento. Modifiquei toda a minha forma de treinamento e tenho corrido muito mais quilômetros agora desde que decidi mudar este foco. Se eu conseguir treinar bem e me preparar bem para a maratona, não preciso me preocupar com outros competidores. Concentrarei-me apenas na minha prova, em ser o melhor e o mais rápido.

Li em uma entrevista recente que você pretende conseguir, logo em sua estreia (em Paris, em abril), o recorde mundial da maratona. Você, de fato, crê que seja algo possível?
Meu objetivo é quebrar o recorde mundial da maratona no futuro. Meu sonho é que este recorde mundial seja logo em minha primeira maratona. Mas eu sei que o percurso de Paris é um pouco complicado em termos de recorde mundial. Mas quero conseguir ao menos um bom tempo, em caso de eu não conseguir o ritmo para um recorde mundial. Meu sonho, sempre, é correr rapidamente e ser o melhor. No passado, provei que podia correr para tempos rápidos e ser campeão de outras provas.

Os atletas quenianos têm dominado a maratona nos últimos anos. Com você e Mo Farah agora correndo maratonas, você acha que pode ser possível destroná-los?
Acho que nós dois somos bons corredores e conseguiremos correr boas maratonas, sem dúvida. Mas há um número muito grande de quenianos que são bons maratonistas. Então, acho difícil que ele não continuem dominando este tipo de prova.

Quais são as principais diferenças de preparar-se para corridas de pista, como os 5.000m e os 10.000m, e preparar-se para maratonas? O que você tem feito de diferente em seus treinos?
A diferença mais importante é que tenho de completar mais quilômetros em meus treinamentos e fazer menos trabalhos de velocidade. Em janeiro, corri um cross country em Edinburgo (ESC), mas eu não estava tão rápido para conseguir vencer a prova. Tudo porque eu não tenho feitos trabalhos para permanecer veloz. De fato, estou me preparando apenas para maratonas agora.

Haile Gebrselassie conseguiu fazer uma transição bem-sucedida das corridas de pista para a maratona anos atrás e pôde ser muito competitivo. Se você conseguir ir tão bem quanto ele nas maratonas, crê que possa ser considerado melhor do que ele nas corridas de longa distância?
Deixo nas mãos dos outros para julgar quem é melhor, Haile ou eu. Haile conseguiu correr por um grande espaço de tempo, conseguiu grandes feitos e eu tenho um respeito enorme por ele. É um grande atleta, mas não foi um corredor tão bom de cross country. E neste tipo de prova, consegui ser 12 vezes campeão mundial. E ninguém conseguiu quebrar meus recordes mundiais de pista até hoje. Então, acho que os meus feitos em provas de cross country e pista são maiores do que os de qualquer outro atleta. A única coisa que falta para mim é ir bem na maratona.

O maior alvo para todos os atletas, claro, são os Jogos Olímpicos. O que você planeja para a edição do Rio de Janeiro, em 2016? Você deve correr a maratona ou nas provas de pista?
Acho que tudo dependerá de como vou me sair na maratona. Ainda não posso dizer o que vou correr nos Jogos Olímpicos. Se conseguir bons desempenhos na maratona, se estiver me sentindo ok, vou querer correr a maratona. Como não há grandes torneios em 2014, quero correr maratonas em abril e em outubro. Em seguida, quero ver como me saio em algumas provas de pista.

Você teve alguns problemas com lesões nos últimos anos que atrapalharam, por exemplo, a sua participação na Olimpíada de Londres. O que você tem feito para evitá-los? Isso é algo que te preocupa nesta fase de transição?
Eu costumo "ouvir" o meu corpo cuidadosamente. Toda lesão que você sofre é um sinal que vem do seu corpo. E o pior erro que você pode cometer é o de não ouvir estes sinais. Você tem de prestar atenção nos problemas. Por exemplo: se você sentir dores nos calcanhares e não tratar, você pode ter seríssimos problemas nos seus tendões-de-Aquiles. E esta lesão encerraria a sua carreira. É importante buscar as causas destas lesões. Seria estúpido continuar correndo lesionado. Também tenho variado o meu treino, o que é bastante importante. Treinar com sapatos diferentes, em solos diferentes.

A Etiópia é um país com muita tradição no atletismo. Como você faz para lidar com a pressão por bons resultados no seu país?
Fico muito orgulhoso de ser etíope. Amo meu país e dou sempre o meu melhor por ele e por mim mesmo. Não é uma questão de pressão.

Por você ter sido tão bem-sucedido na sua carreira, tornou-se um modelo a ser seguido pelas crianças e outros corredores na Etiópia. Como lida com esta responsabilidade?
Não vejo isso como uma responsabilidade, mas sim como um prazer. Fico orgulhoso de ser um modelo para as crianças. Sempre trabalhei duro pelo meu país para atingir isso.

Comparação entre Bekele x Gebrselassie
Medalhas olímpicas: 5 a 2
Medalhas em Mundiais: 6 a 7
Medalhas em Mundiais de Cross Country: 12 a 1
Recordes mundiais estabelcidos: 4 a 21