icons.title signature.placeholder Leo Burlá
04/03/2014
07:03


A 100 dias do pontapé inicial da Copa do Mundo, os fios brancos a mais desde que o Brasil foi escolhido como sede da Copa de 2014 denunciam que Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa, tem sobre os ombros uma enorme responsabilidade.

Em entrevista por e-mail, o francês, que colecionou polêmicas e desafetos ao longo da preparação brasileira, não escondeu que os prazos apertados de entrega de estádios são preocupantes e deu o tom do que tem representado este desafio no Brasil.

– Posso dizer certamente que não foi uma Copa fácil – disse.

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L!Net: A 100 dias da Copa do Mundo, qual a é a sua visão sobre a organização do evento?

Jérôme Valcke: Completamos, com sucesso, uma semana inteira de viagens e eventos no Brasil há alguns dias, e pude ver a empolgação vinda das cidades-sede que visitamos e também das seleções participantes que estiveram no Workshop das Seleções, em Florianópolis.

As instalações da Copa e as cidades que sediarão os CTs também podem ver claramente esse entusiasmo. E é impossível não pensar no momento em que a bola estiver finalmente rolando, em 12 de junho. Há, é claro, muito trabalho a ser feito.

E estamos trabalhando com prazos muito curtos. Mas temos um compromisso da presidente Dilma com todas as cidades e tenho certeza de que tudo que é preciso para que a Copa seja bem sucedida estará em ordem.

L!Net: Em que patamar o senhor entende que um país-sede deveria estar a 100 dias do evento?

Jérôme Valcke: Com 100 dias restantes, não se fala em questões, e sim em soluções. Certamente ainda temos três estádios para entregar, com São Paulo e Curitiba provavelmente prontos apenas em 15 de maio.

A chave é começar a instalação da infraestrutura de tecnologia da informação necessária, que leva cerca de 90 dias, e assegurar a transmissão de imagens dos 64 jogos para bilhões de pessoas.

Mas estamos trabalhando ao lado das cidades para encontrar os melhores cenários. O que conta no fim é que tudo esteja em ordem para o pontapé inicial. E isso irá acontecer.

L!Net: Em que medida o atraso de importantes obras de infraestrutura impacta na operação do evento?

Jérôme Valcke: Não haverá impacto ou comprometimento em segurança, mas em alguns estádios que entregamos tarde poderemos ver algum impacto em prestação de serviço aos torcedores, como ocorreu durante a Copa das Confederações da Fifa.

Isso se dá porque podemos não ter tempo suficiente, por exemplo, para checar se todos os assentos indicados no plano de assentos corresponde, em realidade, ao número e localização. Isso, infelizmente, aconteceu durante a Copa das Confederações da Fifa principalmente no Recife, onde algumas fileiras foram numeradas de forma diferente ou sequer existiam.

Para casos assim, temos ingressos de contingência e equipes de serviço no local para resolver questões assim, mas certamente é um aborrecimento a mais para o torcedor. Isso é algo que gostaríamos de evitar. Porém, pode acontecer em instalações entregues com atraso.


               Valcke deixa alerta ligado para Copa do Mundo (Foto: Vanderlei Almeida/ AFP)

L!Net: Pesquisa mostrou uma queda da aprovação do brasileiro em relação à Copa. Como a Fifa vê isso?

Jérôme Valcke: O Brasil é um país democrático com 200 milhões de pessoas. É impossível para todos terem as mesmas crenças. A última pesquisa mostra que 58% são a favor de sediar a Copa do Mundo. Se compararmos ao mesmo período antes da Olimpíada de Londres-2012, lá o percentual era de 49%.


L!Net: O termo “Padrão Fifa” foi muito utilizado nas recentes manifestações. O que significa este termo?

Jérôme Valcke: Certamente os padrões para um evento da magnitudade da Copa são muito altos. Reconhecemos e apoiamos o desejo do povo brasileiro de discutir investimentos públicos em serviços. Ao mesmo tempo, o governo brasileiro explicou diversas vezes que o dinheiro público para construir e reformar estádios não sai do orçamento federal, diferentemente de educação e saúde.

Se você comparar o que foi investido nessas áreas com o que foi investido em estádios, você verá isso em um contexto diferente. Os estádios custarão cerca de R$ 8 bilhões no total. Desde 2007, quando o Brasil foi escolhido sede da Copa do Mundo de 2014, as áreas de saúde e educação receberam mais de R$ 700 bilhões, de acordo com registros públicos.

Além disso, o investimento necessário para o projeto da Copa do Mundo vem do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), como empréstimos que serão integralmente pagos, com juros, pelos operadores dos estádios.

L!Net: O Brasil alcançou este padrão na prestação dos serviços exigidos pela Fifa?

Jérôme Valcke: O legado já está lá para os que querem vê-lo. A Fifa trata de futebol, então vamos começar com o legado para o futebol. Você já pode ver os benefícios da melhoria da infraestrutura. Os novos estádios já registraram a maior média de público na última temporada do Campeonato Brasileiro desde 1983.

As melhorias nos campos, que levam a uma melhor qualidade do jogo. E os investimentos em CTs além das 12 cidades-sede, que melhorarão o futebol profissional. Além disso, a Fifa tem uma estratégia sustentável desde o treinamento de operadores do estádio, para ajudá-los a gerir e manter os estádios de maneira sustentável, fornecendo, pela primeira vez, serviços de comentários áudio-descritivos para torcedores com deficiências auditivas no Brasil, durante a Copa.

Os equipamentos e os profissionais treinados permanecerão no Brasil, e isso será outro importante legado para os jogos do Campeonato Brasileiro. Estou convencido de que o torneio dará um salto de qualidade para desafiar as grandes ligas europeias no futuro. Isso acontecerá se as melhorias nas normas de gestão acompanharem as melhorias nos estádios.

Essa é a parte do futebol. Mas sediar esse evento é um catalisador para investimentos em infraestrutura pelas cidades-sede e o governo federal, que seguirão como um legado sustentável para benefício da população.

L!Net: Dirigir a Copa no Brasil foi seu mais difícil desafio até hoje?

Jérôme Valcke: É apenas a minha terceira Copa do Mundo com a Fifa e só a segunda em que estou totalmente no comando. Posso dizer que não foi uma Copa fácil.