icons.title signature.placeholder Fábio Aleixo e Guilherme Cardoso
12/12/2013
08:03

Como substituir um atleta conhecido mundialmente a mil dias dos Jogos Paralímpicos do Rio, em 2016? Esse é apenas um dos desafios de Andrew Parsons, recém-eleito vice-presidente do Comitê Paralímpico Internacional (IPC, sigla em inglês) e presidente do Comitê Pralímpico Brasileiro (CPB).

Afinal, o sul-africano Oscar Pistorius representava bem o esporte paralímpico. Mas tudo mudou após a acusação de matar a tiros Reeva Steenkamp, sua namorada, em 14 de fevereiro.

Com julgamento marcado para março de 2014, o velocista tem o futuro indefinido. Como também segue sem definição um novo atleta para ocupar a lacuna aberta por ele.

Em entrevista ao LANCE!Net, Parsons admitiu que a lacuna deixada por Pistorius segue aberta. Mas não mostra tanta preocupação. Ele ainda falou sobre seu novo cargo, os Jogos Paralímpicos e outros assuntos. Confira:

LANCE!Net: Que motivos levaram a sua candidatura a vice do IPC?
Andrew Parsons: É mais uma forma que temos para contribuir com o movimento paralímpico no mundo. Já era do comitê executivo do IPC. Como vice-presidente, tenho mais oportunidades de atuar e ter participação mais significativa na gestão. Como temos um bom histórico de desenvolvimento (no Brasil), principalmente nos últimos 15 anos, temos muito o que dividir com outros países. Essa é a intenção. A pior coisa é ter um grupo de 10, 15 países tops e o resto lá embaixo. A ideia é ser um movimento global.

L!Net: O que você pensa para quando acabar seu mandato no CPB, em 2017? Quer ser presidente do IPC?
AP: 2017 será um ano diferente para mim. Vou completar 20 anos no CPB. Sairei com o sentimento de que fiz o melhor. Ser presidente do IPC é lógico que é uma aspiração. É um caminho que começa a se desenhar com minha eleição a vice. Mas tenho de esperar, fazer grandes Jogos em 2016. Fazendo isso, tenho certeza que vai ampliar minhas possibilidades. Os Jogos vão ser fundamentais. E o que eu fizer como vice-presidente também.

L!Net: Oscar Pistorius sempre foi um grande ídolo paralímpico. Existe a carência por um ícone?
AP: Foi um golpe. Ninguém esperava. Ele era realmente o mais conhecido. Certamente, ele era o único atleta que antes de Londres-2012 era conhecido globalmente. Daniel Dias era superconhecido no Brasil. Mas nos Estados Unidos e na Europa, não. O Alan (Fonteles) surge muito forte, temos uma Paralimpíada no Brasil. Ele vem evoluindo, ganhou uma medalha de ouro em Londres, três no Mundial desse ano. Nesse momento, acho que é o grande candidato a substituir Pistorius. Mas ainda não tem alguém que tenha o tamanho que ele tinha. Não estávamos preparados para isso. Do dia para a noite, aconteceu um fato. Tínhamos uma estratégia com o Oscar.

L!Net: Foi um choque grande essa situação com o Pistorius?
AP: Foi um choque grande. Tinha contato superficial, mas nos encontramos diversas vezes. Sempre vi Oscar como um cara absolutamente educado, generoso. Tivemos juntos em momentos de entrega de medalha, por exempo. Quando ele conversa com um cadeirante, tenta entrar no nível dele. Então, ou ele senta em uma cadeira ou se abaixa. Ele tinha esse tipo de preocupação. Foi um choque grande. Lembro que no dia, eu acordei, peguei o telefone, comecei a ver os e-mails. O pessoal de comunicação do IPC ia colocando e você começa a entender o que está acontecendo. Foi um choque bastante grande. Agora, culpado ou inocente cabe à Justiça decidir. Mas foi uma perda muito grande.

L!Net: Já deu para medir a perda?
AP: Não deu para medir. Talvez, só tenhamos a medida real em 2016, com os Jogos. Se ele era grande demais e vinha ofuscando todo mundo, acho que só vamos conseguir medir ali. Mas a repercussão que a gente vê no Brasil e em alguns mercados europeus é que o movimento continua forte sem Pistorius. O movimento é maior do que qualquer indivíduo. Foi muito duro perder alguém que era o único rosto paralímpico conhecido no mundo. Mas não há o que fazer. Ele vai enfrentar o processo. Se considerado inocente, não sabemos o que ele vai fazer. Vai voltar a ser atleta? Como vai estar a cabeça desse cara? Como ele vai estar para o Mundial de 2015 e para 2016?

L!Net: Quão difícil é conscientizar as pessoas que haverá uma Paralimpíada no Rio? Como não correr o risco de termos arenas vazias?
AP: Não tenho dúvida de que vamos ter estádio lotado. Um bom indicativo foi o Parapan de 2007. Mas o nível de promoção que fizemos foi inferior, o nível de conhecimento que se tinha do esporte paralímpico no Brasil era inferior. Faremos um trabalho mais forte de comunicação após a Copa do Mundo no Brasil. Até porque, a cultura olímpica, paralímpica no Brasil é de certa forma limitada. Mas não tenho dúvidas que teremos instalações cheias. Nosso objetivo é ficar muito próximo, se não, bater Londres na bilheteria.

L!Net: Como é seu trabalho com Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro e do Comitê Organizador dos Jogos?
AP: Minha relação com o Nuzman é muito boa, diria que a a melhor possível. Existe muita comparação: COB e CPB. Já conversamos sobre isso e não colocamos esse assunto na nossa agenda particular. É óbvio que ele é o presidente do COB e do Comitê Organizador, mas desde que foi lançada a candidatura, ficou muito evidente para ele que precisa entregar dois grandes Jogos. Se a gente lembrar que o Rio foi pioneiro em fazer Pan e Parapan, mostra o respeito que o Nuzman, os comitês organizadores e os governos têm com o esporte paralímpico. Não havia necessidade alguma de colocar o Parapan no Rio em 2007. Mas foi colocado entendendo que é o que agrada valor, algo que enriquece o evento como um todo. E assim tem sido tratada a Rio-2016. A questão dos pictogramas é um exemplo claro disso. É a primeira vez que tem uma família de pictogramas para os Jogos Paralímpicos. São pequenas demonstrações que a gente tem e que vai terminar com os Jogos entregues do mesmo nível. Sou membro do conselho executivo do Comitê Organizador por ser presidente do CPB. Mas a minha interação do CPB é diária e das diversas áreas. Não estamos lá só fisicamente, porque, além de apoiar a organização, temos de levar uma grande delegação. A força do time nacional é determinante para o sucesso dos Jogos. Se pegar o exemplo de Atenas, a gente vê que não ter tido um time paralímpico forte teve um impacto.

L!Net: Qual o objetivo para os Jogos em termos de medalha e colocação?
AP: Trabalhamos sempre em termos de colocação. Nunca trabalhamos com o objetivo no número de medalhas. No esporte paralímpico, existe uma variação muito grande. A Austrália ficou em quinto lugar em 2008 no quadro de medalhas, e em 2012 reduziu muito. A gente divulgou a meta do sétimo lugar em 2012 e o quinto em 2016. Permanece o quinto lugar, mas ficou mais difícil. Conquistamos 21 medalhas de ouro em Londres-2012. Quando lançamos essa meta, 24 eram necessárias para ultrapassar Estados Unidos e Austrália para chegarmos no quinto lugar. O buraco ficou mais embaixo. Temos de aumentar em 50% o número de medalhas de ouro, mas já temos bons indicativos que nos mostram que vamos brigar por isso. Se vamos conquistar, só vamos saber em 2016. Mas que a gente tem capacidade para isso, a gente tem.

L!Net: Muito se fala de falta de política esportiva clara. Existe uma política paralímpica no país?
AP: Não existe uma política esportiva olímpica e paralímpica tão clara. O Ministério do Esporte tem tentado fazer. Em 1992, o Comitê Paralímpico Espanhol e o Governo investiram em resultados, mas não houve investimento em estrutura paralímpica. Por isso, eles foram caindo. Temos estratégia no CPB que chamamos de teia de aranha. Temos todos os programas interligados. Isso cria o caminho do atleta. Existe uma política CPB, fazemos todo o caminho. Se ficar esperando, não vai dar.

L!Net: Qual é o orçamento do CPB?
AP: Cerca de R$ 100 milhões.

L!Net: E isso é bom?
AP: É bom, dentro do nosso planejamento estratégico. É possível fazer frente. A gente espera que até 2016 tenhamos R$ 400 milhões.

L!Net: É difícil obter recurso privado para o esporte paralímpico? Do orçamento, quase todo dinheiro vem do setor público, não?
AP: Diria que para o esporte que não é o futebol. Acho que ainda há uma certa miopia da iniciativa privada no investimento ao esporte no Brasil. Temos ótimos exemplos, mas são poucos e sempre os mesmos. Tem algumas empresas que estão investindo, mas são sempre elas. Se olharmos grandes patrocinadores privados, a presença deles no esporte olímpico e paralímpico é muito pequena. Não é algo só do esporte paralímpico. Ele talvez ainda tenha uma dificuldade maior por ser novo. Não diria que é por preconceito. Acho que já viramos essa página. Mas não posso dizer 100%. A mente dos outros é terra que ninguém pisa.