Olga Bagatini
04/10/2016
06:00
São Paulo (SP)

Giuliano vive excelente fase na Rússia. Contratado pelo Zenit em julho, o meio-campista apresenta números espetaculares: nove gols e sete assistências em dez jogos pelo clube. Em entrevista ao LANCE!, o jogador – presente nas duas convocações de Tite para as Eliminatórias da Copa – falou sobre a saída do Grêmio, o bom momento e a expectativa de voltar a vestir a Amarelinha contra Bolívia e Venezuela, dias 6 e 11 de outubro, respectivamente. 

Você esperava um início tão promissor no Zenit?
Não esperava. Sabia que a adaptação seria mais fácil pelo tempo que passei na Ucrânia (defendeu o Dnipro entre 2011 e 2014), mas dois anos no Brasil mudaram muito meu estilo de jogo. Não podia imaginar que teria um começo tão bom como estou tendo.

Como foi a recepção e a readaptação na Rússia?
O pessoal me recebeu muito bem aqui. Eu me encaixei no sistema da equipe, o grupo me vê como uma peça importante. Foi o técnico (Mircea Lucescu) quem insistiu na minha contratação. Ele treinava o Shakhtar Donetsk quando eu atuava no Dnipro e jogou contra mim várias vezes. A gente não se conhecia pessoalmente, certo dia ele me ligou e perguntou se eu tinha interesse de jogar no Zenit. Ele consegue passar credibilidade para mim e para os companheiros. Estou feliz com o início, sou reconhecido e espero continuar nessa fase boa. Sobre adaptação, há diferenças entre o futebol da Rússia e da Ucrânia. O russo é mais forte, com times mais qualificados, e o Zenit também é um clube mais estruturado. Já em relação a cultura, idioma e alimentação, é bem parecido. 

Seu filho nasceu logo após você ser anunciado pelo Zenit. A família já está ambientada ao clima da Rússia?
Já, vieram para cá não faz muito tempo. Minha filha já está em uma creche russa, enquanto meu filho, que tem dois meses de vida, está se adaptando. Agora começa a esfriar, essa mudança de clima é difícil, mas todos estão bem, felizes e comigo. 

Você sente muita diferença entre o futebol brasileiro e o europeu?
Sim. Na Europa, os jogadores têm uma consciência tática muito maior, muda a velocidade de jogo, mas acho que o Brasil cresceu muito nesse aspecto. Aqui jogo como segundo atacante, estou sempre muito perto da área, nas costas dos volantes e tenho a possibilidade tanto de servir os companheiros como chegar dentro da área e finalizar. 

O Grêmio despencou na tabela do Brasileirão desde sua saída. Qual sua parcela de responsabilidade nisso?
Acho chato comentar. Essa queda me dá a ciência de que eu tinha uma função importante e estava entrosado, o que facilitava o trabalho. Eu também ajudava muito defensivamente e minha qualidade ajudava no setor ofensivo. O Grêmio teve dificuldade de encontrar uma peça de reposição. Não acho que seja por minha causa, houve uma mudança e, infelizmente, não foi tão boa. É gratificante saber que meu rendimento fazia com que a equipe tivesse uma boa produção. Fico triste pela situação, mas ninguém é insubstituível. Agora trocaram o técnico e estão tentando se reerguer.

Você se identificou com a torcida do Grêmio, apesar de ter feito história também no rival Internacional?
Sem dúvida. Sempre me identifico com a camisa que visto porque sou profissional. Jogo com raça, dou meu sangue, faço o meu melhor. Os gremistas sabem disso. No tempo em que estive lá, dei meu máximo para sair do estádio satisfeito com resultado e rendimento. A rivalidade em Porto Alegre é muito forte, mas acredito que sou respeitado em ambos pela história que tive. Ganhei a Libertadores pelo Inter em 2010. Parte da torcida fica magoada, não perdoa, mas não posso controlar os sentimentos de todos.

Que ensinamentos leva do trabalho com Roger Machado?
Roger é um cara que incentiva o tempo todo, cobra muito, quer o máximo de cada jogador. Todos têm que jogar no seu limite e ter alto rendimento. Aprendi a ter concentração e humildade. Além dos ensinamentos, sou grado por ter sido treinador por ele. Espero que consiga um time onde possa se destacar. Em dois ou três anos ele será um dos melhores do Brasil, se é que já não é.

Para você, quais as semelhanças do trabalho de Roger e de Tite?
Há muitos princípios táticos, de jogo, e a forma de trabalhar. Roger é um treinador que aprendeu muito com Tite. Está sempre em contato, querendo aprender. Ele é obcecado por melhorar e crescer na profissão. Sou grato por ter trabalhado com Tite no Inter (2009) e agora na Seleção.

Como é estar de volta à Seleção? (Giuliano foi convocado por Mano Menezes para amistosos entre 2010 e 2012) Sonha em ser titular, agora que Paulinho está suspenso?
A notícia veio por meio de um coordenador do Zenit, mas Tite me ligou em seguida. Fiquei muito feliz porque é um sonho de criança. Consegui realizá-lo há alguns anos e tinha no coração que queria voltar. Escolhi fechar com o Grêmio e voltar ao Brasil em 2014 justamente por causa da vitrine. Me sinto honrado por poder fazer parte desse projeto, dessa nova Seleção, e o que mais quero agora é poder ajudar. Sendo ou não titular, dar meu melhor para que o futebol do Brasil seja vitorioso.

Por que acha que Tite lembrou de você nas convocações?
As duas temporadas no Grêmio. Tite deu essa justificativa. Quando o coletivo funciona, o talento individual aparece. O sistema do Grêmio permitiu que eu tivesse destaque nos números, jogasse em bom nível e Tite gostasse de mim.

O grupo fala em mudança no ambiente com a chegada de Tite?
Certamente. O ambiente é importante para que você esteja tranquilo e possa render. Na minha primeira convocação, percebi o grupo unido, sedento por vitórias. Tite consegue fazer isso de uma forma convincente. Passa as informações necessárias, dá liberdade para cada um fazer seu trabalho. O maior mérito de Tite é deixar todos em ambiente bom, com confiança e expectativa de jogar.

Você acompanhou o trabalho de Dunga? O que achou?
Acompanhei, mas de longe. Estava na Ucrânia e acompanhei da maneira que pude, assistindo aos jogos. Não o conheço pessoalmente. Não vou entrar no mérito dele como treinador, qualquer análise que eu fizer será superficial porque nunca trabalhei com ele. 

De quem você é mais próximo na Seleção?
Taison, Geromel e Marcelo Grohe. Cito os três porque foram os jogadores com quem trabalhei nos clubes, então são os mais próximos. 

O Brasil estará na Copa do Mundo da Rússia em 2018?
Acredito que sim. Não será fácil, a América do Sul conta com seleções muito fortes,. A gente tem que fazer nosso trabalho e buscar somar o maior número de pontos possível. Não pode pensar que a vaga já é nossa, mas tem que acreditar no potencial. Não tem como imaginar uma Copa do Mundo sem o Brasil, pentacampeão e único a disputar todas as edições do Mundial.

Quais as expectativas para o Zenit na Liga Europa e no Campeonato Russo?
Vencemos o AZ Alkmaar por 5 a 0 na Liga Europa, foi nosso segundo jogo dentro de casa contra uma equipe forte. A vitória nos colocou na liderança do Grupo D (Giuliano marcou um gol e deu duas assistências na partida), e o objetivo é tentar chegar o mais longe possível. Já no Campeonato Russo, vencemos o rival Spartak de Moscou por 4 a 2 (mais um gol e assistência na conta do brasileiro), que é líder, empatamos em número de pontos (19) e estamos em segundo lugar. Certamente brigaremos pelo título. 

Pretende voltar a atuar em um clube brasileiro nos próximos anos?
Não estou planejando um futuro no Brasil agora. Acabei de sair, fiquei dois anos, a ideia não é ficar aqui só por uma temporada. Quero aproveitar bem aqui. Penso em rumar para algum centro europeu nos próximos anos, como Alemanha, Espanha, França ou Itália. Meu contrato com o Zenit vai até 2020 e só quero fazer bem meu trabalho enquanto estiver aqui.